terça-feira, outubro 16, 2007

22.

Como vocês todos já sabem a saga huckiana é sucesso total. Uma polêmica de proporções globais, pelo menos desde que Ferréz publicou uma resposta no mesmo espaço da Folha de São Paulo exatamente uma semana depois de "Pensamentos quase póstumos". O rapper do Capão Redondo elevou à décima potência a intensidade das discussões sobre o rolex de Huck com opiniões bastante desconstrutivas e interessantes à respeito da opinião do ilustre colega apresentador. Uma semana após este artigo do escritor da periferia ser publicado e depois de várias publicações tratarem do assunto (vide texto 21) o jornalista e colunista da revista Veja Reinaldo Azevedo resolveu pôr as manguinhas de fora e ir ciscar fora de seu blog vinculado ao website da Veja. Indignado Azevedo publicou um artigo (clique no link para acessar) no mesmo espaço que Ferréz e Huck o fizeram e, em razão deste cidadão já ter se opinado bastante a respeito de assuntos uspianos e franciscanos, resolvi que seria interessante tentar analisar e comentar o seu texto para a Folha.

A democracia azevediana dos não-idiotas
Huck, Ferréz, Ascher. Centenas de leitores. Da Matta, Baleiro. Mais centenas de leitores. Revistas Veja, da Semana, Época. É, amigo Luciano, você conseguiu criar um belo de um bafafá. As palavras inconseqüentes do apresentador que deixa o Brasil acima de tudo "mais bacana" repercutiram e chegaram a seu vértice oposto nas palavras do rapper do Capão Redondo.

As declarações de Ferréz atingiram os alicerces da burrice nacional que as tomou como uma apologia ao crime. Burrice comparável à dos empolgados grupos que viram Tropa de Elite e agora veneram em enormes comunidades de Orkut as torturas e os lemas perversos do BOPE. Ferréz, em minha leitura, não defende o crime e muito menos o justifica. "Faz ficção" como diz o ombudsman da Folha de São Paulo Mário Magalhães e uma ficção exagerada com a intenção clara de ser diametralmente oposta ao pensamento do global. Tenho certeza que o rapper não acha certo o uso de violência pelo simples fato dele a ter sempre perto no bairro de onde é oriundo. Ninguém gosta de ser constrangido, violentado ou ter seu espaço pessoal invadido agressivamente, é fato.

A crítica aguda do caponista é sempre relativa ao texto de Huck, à sua opinião reducionista do problema social. Ferréz tenta demonstrar que é mais complexa a realidade; deve ser ressaltado que a afirmação "Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes" não pode ser tomada como foi pela maioria dos leitores. A frase deve ser lida por inteiro pois quando se lê "até que o rolo foi justo" fica-se com a clara noção de apologia ao crime, ao assalto. Noção errada. No aposto "num mundo indefensável" está a chave para a ironia sagaz do rapper. Numa clara referência ao adjetivo usado por Luciano Huck para descrever a situação de São Paulo Ferréz coloca o "mundo indefensável" como o mundo simplista do global. No mundo de Huck não tem espaço a solução, só o ciclo vicioso da repressão e do aumento da violência tanto de seus algozes como do capitão Nascimento. Ferréz percebe o paradoxo e o simplismo huckiano e seu mundo indefensável. Se então o mundo é indefensável então o assaltante desprovido de posses está desprotegido contra a exploração e espoliação de seu espaço social, urbano, econômico e político e tem de roubar para se proteger, certo? Assim ele pelo menos se protege, mesmo que de modo selvagem. No mundo indefensável o apresentador ganha se viver e, pelo menos assim, protege seu bem mais precioso: a vida. É o mundo indefensável de Huck. Mundo, cidade, que todos tem de recorrer à violência para resolver seus problemas - tanto Huck como seus extraterrestres desfilantes. Mundo retratado na visão estúpida já exaustivamente analisada do Lu.

Surge então a figura de Reinaldo Azevedo. Jornalista, colunista da revista Veja, o neutro e jornalístico panfleto ideológico mais lido do país, Azevedo faz uma tentativa, em seu artigo "A pluralidade e a revolução dos idiotas" de crítica ferrenha ao texto de Ferréz. Para Azevedo Ferréz é um "empresário" que "ao lado de Mano Brown (vocalista do grupo de rap "Racionais MC"), é um bibelô mimado pelas esquerdas e pelo pensamento politicamente correto". A posição do artigo do rapper é, "por defender o crime" irrespondível e faz parte de uma "revolução dos idiotas" que começa, segundo o vejista, "agredindo a lógica" e termina justificando o assassinato. Segundo Azevedo a Folha errou em publicar o artigo de Ferréz pelo seu cunho "solapador dos princípios democráticos". A voz de Ferréz é inaceitável para o magnífico jornalista, inaceitável dentro da pluralidade democrática da imprensa e a única resposta à ela é a contestação de seu conteúdo "criminoso". Afinal, como dizem, "quem defende criminoso nada mais é do que criminoso".

Adiante Reinaldo Azevedo defende a repressão, a prisão dos marginais como solução imediata e mágica para a violência. Critica um professor da Faculdade de Direito da USP que contestava o alto índice de prisões no estado de São Paulo por este, numa relação lógica admirável, reduzir os índices de homicídios. Termina com "A minha pluralidade não alcança tolerar idiotas que querem destruir o sistema de valores que garantem a minha existência. E, curiosamente, até a deles".

Azevedo entendeu o texto de Ferréz assim como eu entendo textos escritos em sânscrito. Se eu soubesse falar três palavras em sânscrito daria um desconto para o intelectual - o problema é que só sei falar uma palavra. Durmedha quer dizer "estúpido, ignorante".

A opinião de Azevedo se mostra completamente controversa a partir do entendimento parco da ironia de Ferréz e continua nesta linha até atingir o ponto ótimo do direitismo do jornalista. Democracia? Pluralismo de opiniões? Claro, claro. Só que uma democracia azevediana dos não-idiotas afinal o jornalista exclui de seu pluralismo ideal a voz de Ferréz. Não-idiotas que lêem a Veja e tem uma opinião só sua sobre absolutamente tudo no Brasil, na ponta da língua. Não-idiotas que, por não serem idiotas, conseguiram ganhar algum dinheiro. O mundo indefensável de Huck é a democracia azevediana, o mundo que quer resolver o assalto feito por motoqueiros no Jardins em trinta dias. O mundo que quer discutir políticas de segurança pública séria, que quer discutir projetos. Proponho a Azevedo o mesmo muro que propus a Luciano - dele espero uma rejeição e um grito indignado de "comunistóide!", "uspiano remelento volte para a casa da mamãe!". Eu moro sim na casa da minha mãe, Titio Rei, e acho melhor já começar a me retratar. Como bom não-idiota é melhor eu me submeter à vossa opinião superior de mestre da verdade afinal de contas você, bom, você escreve para a Veja.

A democracia azevediana é análoga à sociedade pretensamente democrática que não dá voz aos despossuídos, aos marginalizados, aos idiotas que fazem libelo criminoso na Folha. Esses idiotas não podem ser tolerados! Querem destruir o sistema de valores que garante a existência de Azevedo e deles mesmos! Sim, claro, a existência de Azevedo como confortável jornalista da Veja a dos bandidos do Capão como bandidos idiotas do Capão. Sistema de valores? Que valores são esses? Repressão? "Direitos humanos só para humanos direitos"? "Dane-se problemas crônicos sociais, lugar de bandido é na cadeia"? A democracia azevediana é o inverso da democracia, é o "Estado de exceção" - nome chique de ditadura. O jornalista idealiza um regime que não dê a mínima voz aos idiotas. Eles são idiotas mesmo; se lhes dermos voz só falarão idiotice, né Tio Rei?

O "companheiro", as massas despossuídas, os movimentos sociais, "ensinaram" a esquerda a não pensar, diz Azevedo. É a Veja, óbvio, que deve ensinar todo mundo a pensar. A pensar do jeito certo, do jeito azevedianamente não-idiota, claro. O regime "democrático" aos moldes imaginados por Reinaldo Azevedo pode estar por vir e não gosto muito desta idéia, espero que todos os idiotas como eu também.

***

Perdoem-me pela breve digressão que segue, mas, aliás, não é a primeira vez que Reinaldo Azevedo observa atentamente o que ocorre na Academia do Largo. Como blogueiro acompanhou de perto a "invasão de idiotas", utilizando seu vocabulário, em agosto e apoiou inconseqüentemente a deposição do presidente Ricardo Leite Ribeiro e o massacre do Fórum da Esquerda. A partir daí o intelectual conceituado foi surpreendido em seu blog com por uma enxurrada de comentários de apoio "anticomunista" à suas observações indevidas, airosas, patéticas e próprias de quem não tem nada, absolutamente nada, a ver com àquela Casa. Não sei se algum parente de Reinaldo Azevedo já passou por lá ou se ele mesmo fez São Francisco mas não o vi por lá nenhuma vez nos últimos meses, estranho.

quinta-feira, outubro 11, 2007

21.

Tenho acompanhado de muito o caso do Huck. Talvez isso tenha virado até espécie de paranóia ou de obcessão mas acho que no caso tange o autodescobrimento. Ah! Esse post é dedicado à meu futuro calouro Felipe Catalani.

(É ele mesmo, só pra constar.)

Tiros fora do alvo
Saíram duas revistas que têm o assunto da polêmica huckiana como capa nesta semana. Comprei as duas para dar uma olhada - será que valeu a pena?
A primeira delas é a
Revista da Semana, publicação da Editora Abril que está ainda engatinhando no sétimo número. A Revista da Semana tem caráter de informativo rápido e tem preço acessível e seu posicionamento é atrelado ao da Veja que em sua entrevista claramente adota à corrente de pensamento criada e defensora pelo ilustre colega. A manchete da capa é "A culpa é da vítima - O apresentador Luciano Huck é assaltado, escreve artigo e recebe críticas e insultos como resposta. Os ricos (e famosos) brasileiros não tem direito de reclamar?" e a matéria claramente passa o quanto é "absurda" a opinião de quem criticou o artigo "Pensamentos quase póstumos". A publicação consegue ser mais simplista do que Luciano e, numa matéria que conta com generosas duas páginas, recorta de maneira extremamente incompleta e leviana o pensamento de Ferréz, o rapper que respondeu a Huck com um texto bastante bombástico e de fácil falso entendimento. Para a Revista da Semana Huck somente resolveu contar sobre o assalto de que foi vítima e, em síntese, pagou por ser rico e famoso. Digo o seguinte: Luciano Huck não "resolveu contar".
O artigo de Huck não foi uma narração com pretensão realista nem obra de ficção - foi um artigo. Artigos geralmente, disse geralmente, têm opinião, não sei se a Abril sabe. O que se critica é claramente não o fato do global ser ou não assaltado, isso é segundo plano, o que se critica é sua opinião, sua análise, seu recorte. Já disse que é péssimo ele ser assaltado, lamento muito mesmo. É chato, todo mundo sabe. Mas daí para o malandrão escrever que cidadania é sinônimo de pagar impostos e consciência social é ter uma ONG é outra coisa. Isso não é fato, isso é opinião.
A segunda publicação com o amigo na capa é, evidentemente, a Época. A revista carro-chefe da Editora Globo traz estampado: "Ele merecia ser roubado? - O que o debate sobre o assalto a Luciano Huck mostra sobre a alma do brasileiro". Profundo, nossa. A alma?
A reportagem da Época é bem mais completa do que a da Revista da Semana. Num grande caldeirão de influências e com uma base bastante ampla de opiniões e pitacos a revista se dá ao luxo de, de tudo isso, tirar uma conclusão: o Brasil tem que perceber que, dadas as proporções elitistas e escorregadas simplistas e simplórias do artigo de Huck ele é inocente. O Brasil tem que perceber de uma vez por todas que bandido é bandido. "Ponto", diz a Época. Os ataques a Huck deixam claro que ainda há um enorme caminho a percorrer pelo Brasil "até que se consolide a convicção que um país justo socialmente oferece segurança a todos - incluída a 'elite'". Exatamente, um país justo socialmente oferece segurança a todos. Temos só que lembrar que em um país socialmente justo não tem "a elite". Hm. E também quem disse que aqui a "elite" não tem segurança? Ela compra a sua, logo, ela tem. Quem não tem é quem não compra. E quem não compra é por que não pode, afinal, como disse Huck, ninguém gosta de ser assaltado.
A justificativa da revista pela indignação dos leitores do artigo de Luciano foi ou de quem está se sentindo injustiçado no momento ou de quem tem inveja (colocação densamente reforçada ao longo do texto). É claro que não existe a possibilidade de alguém achar besteira o posicionamento do texto do apresentador por achar ele próprio falho, mal-feito, tem de ter um porquê externo e de viés determinístico. Ele é inocente, claro! Até onde eu sei um inocente pode falar uma bobagem tão grande quanto qualquer culpado. Inocente é quem não tem culpa. Dizer que Huck tem culpa que foi assaltado é polêmico e inconseqüente porém falar que o mesmo tem responsabilidade em relação ao que escrever não é. Ele tem e deve responder por isso pois seu artigo foi polêmico e inconseqüente, com ênfase na segunda característica. Inocência não o livra de ser responsabilizado pelo que escreveu, muito menos sua pretensa cidadania de bolso.
Um outro ponto destacável que aparece na Época é a opinião distinta do intelectual Roberto Da Matta. O antropólogo afirma que as reações contrárias aos "Pensamentos quase póstumos" são antidemocráticas, "como se a elite não pudesse reclamar de nada, como se tivesse de se conformar com qualque tragédia porque na cabeça dessas pessoas a elite já tem tudo, então já está no lucro. Isso é neofacismo". Ahn?! Neofacismo? Da Matta, a elite pode reclamar quanto quiser. Ninguém que eu saiba foi contra a manifestação-reclamação do Luciano Huck mas em relação a seu teor, seu conteúdo aleijado. Entre a manifestação e o conteúdo das mesmas existe grande diferença e não faz sentido afirmar que tais reações são contra a democracia e a liberdade de expressão se as mesmas usam destes princípios para existirem. Sem sentido. Ninguém "tem de se conformar"; nem com o assalto muito menos com a mistura do Caldeirão que passou do ponto. E de onde o intelectual distinto tirou neofacismo não sei, realmente não sei. Me parece uma colocação tão indevida e absurda que realmente para mim o uso da mesma não faz nenhum sentido, nenhum. É como se Da Matta afirmasse que as reações "parecem com um transatlântico" ou "tem cheiro de pepino fresco". Non-sense ou humor fino de antropólogo? Bom, definitivamente não é humor zorra-total do nosso amigo Lu.
Não deixo de admitir que a reportagem da Época não tenha seus silvos breves de lucidez. Foram além de Huck e claramente além da Revista da Semana. Algumas opiniões se mostraram bastante razoáveis como por exemplo a de que a comparação dos ladrões com ETs é absurda mas de qualquer maneira isto é lucro numa publicação que advém da corporação que emprega o próprio Luciano, não é mesmo?
E concluo? Ah, será que eu tenho essa pretensão de concluir? Tenho sim. Luciano Huck escreveu asneiras mas isso não quer dizer que ninguém mais possa escrever. Estão aí duas provas, comprem para conferir. Não; pensando melhor, não.

segunda-feira, outubro 08, 2007

20.

Este texto foi reduzido para a a publicação n'O Pátio, o jornal acadêmico da São Francisco.

O caldeirão e sua vergonha

Lamento por esta situação limite que passou o colega Luciano Huck. Ilustre companheiro das Arcadas, Luciano não merece ser assaltado e assustado como foi, ninguém merece. É evidente que a atitude de seus algozes é criminosa e esse passa longe de ser o mérito deste texto. O problema é que o global “cansou” e decidiu “desabafar” na Folha de S. Paulo. Sinceramente achei triste - quiçá ridículo.

Começa sua análise imaginando o que ocorreria se o pior tivesse acontecido e depois dessa mórbida descrição começa a se questionar e se mostrar indignado, desesperado por soluções – aí começa o problema. É fatal quando faz a conexão "pago todos meus impostos, uma fortuna" com "como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa". Esta conexão argumentativa representa a chave para o entendimento do pensamento do apresentador. Seu raciocínio simplista e desesperado pára quando acaba seu interesse e este é estritamente pessoal. Bradando clichês e lugares comuns confunde cidadania com o simples ato de pagar "tudinho" de seus tributos - desprezando o resto das acepções da palavra. Como Luciano conseguiu realizar algumas matérias na faculdade com tanta dificuldade em definir conceitos básicos?

“A situação de São Paulo está ficando indefensável" diz ele em mais uma colocação indevida. Para Huck a situação de São Paulo não "está ficando indefensável" e sim ficou indefensável de uma hora para a outra devido a algo que lhe aconteceu. Este é indício da perspectiva individualista do pagador-de-impostos-cumpridor-de-seus-deveres Huck que tudo resolve com a cívica (ou seria cínica) pergunta clássica de um pretenso jogo de esconde: "onde está a segurança no nosso país? Onde está a polícia? Onde estão os heróis que tem de nos salvar?!". Não vem nenhum não, Luciano, não tem, não existe herói assim. Mas ele quer é a polícia mesmo, a "Tropa de Elite", para resolver seu problema do assalto de motocicleta nos Jardins agora, já, em 30 dias. Quer discutir segurança pública de verdade dizendo isto? Boa, filhão. Não sou nenhum perito no assunto mas imagino que a violência urbana não pode ser resolvida com seriedade em 30 dias a não ser que a idéia de Luciano seja cercar os Jardins com um imenso muro lotando o bairro de tanques de guerra e viaturas policiais. Não acho que ele acharia má idéia. De fato, Luciano: talvez seja a hora de construirmos o muro. Neste ponto é feliz a observação de um leitor da Folha que no dia seguinte da publicação do artigo que Huck afirmou que este poderia ter sido mais direto e perguntado estaria a Tropa da Elite.

Aí encontro um parágrafo cômico em meio a toda esta aguda e inteligente análise política do nosso complexo país. O amigo exacerba sua missão social de apresentador de tentar fazer este país se tornar mais “bacana” divertindo na TV e trabalhando na direção de uma ONG séria. Huck se diz alguém que não está indignado com a perda de seu rolex, mas sim como uma pessoa que "de certa maneira" dirigiu a sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais eqüilibrado e justo. Admira-me a maneira que este o faz. Seu programa realmente detém os aspectos mais maduros da TV brasileira e engrandece o povo tornando o Brasil mais bacana. Sinceramente. O "Caldeirão" é o que existe de mais imaturo na TV brasileira e representa a nossa ânsia de se alimentar com uma cultura que mais parece uma massa disforme verde-acinzentada que é amontoado de sexo, fofoca, sexo, música subformada, repetitiva e sem nenhum conteúdo, sexo, entretenimento importado americano, sexo, pernas e seios femininos, sexo e uma pitada de humor zorra-total. Triste que Huck ache mesmo que está construindo ou contribuindo para construir um cenário mais justo ou maduro no nosso país. Ele é provavelmente um visionário; ele e a Dani Bananinha.

Ah! Mas ele mantém uma ONG séria! Ah, ok, a cidadania não é só pagar impostos, é também ser obrigado a ter uma ONG-desencargo-de-consciência. Faço das palavras de Thiago Candido da Silva, diretor do DCE livre da USP, as minhas: "A solução não é a repressão, e sim a distribuição maior de renda e de oportunidades. E não é meia dúzia de pessoas em curso de cinegrafia que irá mudar a situação". Que eu saiba bailes ou leilões (d)e caridade nunca conseguiram resolver essencialmente qualquer problema social mesmo porque se o tivessem conseguido não teríamos mais uma dezena deles por semana nas colunas sociais. E fazer parte disso não te dá carteirinha cativa de cidadão.

Seguindo o global constata debilmente uma afirmação genuína: a existência de desigualdades no Brasil. Pergunto-me se não deveríamos conferir a este genial pensador alguma espécie de prêmio por constatar algo tão inédito. Parabéns Luciano, descobriu a América.

"Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia?". Luciano Huck está à procura de um salvador da pátria e isso me dá medo. Não imagino o que ele tem na cabeça quando diz isto. É o velho personalismo político brasileiro que desconsidera a existência da política das idéias e não das pessoas em sua acepção mais bela? Ou seria um neomessianismo estilo Canudos? Não vai ser um "salvador" que resolverá o problema de nossa pátria, caro amigo.

E não é só esta afirmação de Luciano Huck que me assusta. Ainda pergunta qual seria a lógica de algumas coisas dentre elas "um par de 'extraterrestres' fortemente armados desfilando pelos bairros nobres de São Paulo" e isso me parece a mais simbólica e forte afirmação do apresentador do "Caldeirão" no que diz respeito à natureza simplista e arrisco dizer elitistamente tapada (pois acredito que é possível talvez um pensamento elitista menos imbecil, sem entrar neste mérito) do seu ideário. Usar a expressão "extraterrestres" o denuncia completamente e mostra como Huck deseja que o muro seja construído o mais rápido possível e que os seus assaltantes fiquem bem enfiadinhos no barraco onde nasceram vendo seu programa e mandando cartinhas para terem o carro reformado. Em vez disso ficam “desfilando” fortemente armados pelos bairros que não os pertencem – crime! Que chamem a "Tropa de Elite” e seu fascista capitão Nascimento.

Nosso colega não deseja a solução mais justa, mais madura ou mais "bacana" para nosso país e sim a mais adequada e mais "bacana" para ele próprio, a mais rápida, o muro. O franciscano Huck está envergonhado de ser paulistano? Deveria estar, em vez disso, envergonhado por ser Luciano Huck depois de escrever tamanhas bobagens. A mistura deste caldeirão passou do ponto.

E a história continua. Minha confusão também.
Vou anexar aqui links para dois textos. O primeiro escrito por Férrez na Folha de São Paulo de hoje. O autor é conhecido como um escritor da periferia da metrópole paulistana que retrata e conhece seu cotidiano. O segundo texto foi escrito também para a Folha por Nelson Ascher, poeta, tradutor e jornalista formado em administração de empresas pela FGV.
Essa polêmica vai longe.

domingo, outubro 07, 2007

19.

O caldeirão não tem mais vergonha

"O apresentador Luciano Huck diz que as reações negativas a seu desabafo depois de um assalto partiram de quem não conhece a periferia" Subtítulo da entrevista de Luciano Huck à Veja deste sábado 6 de outubro de 2007.
Ele falou de novo, o Luciano Huck. Vocês desculpem a minha obcessão contudo não posso deixar de lado as palavras de um senhor que além de ter cursado pelo menos algum tempo da mesma faculdade que eu ainda esteve no mesmo colégio que eu. Espantoso.
Fiquei muito confuso quando li a entrevista de Huck à Veja neste sábado. O global falou bonito sobre a importância da educação para o país e que todos temos que fazer alguma coisa. Dissertou sobre a importância de não termos um estado penal e sim um com enfoque na educação, com enfoque em projeto para a educação. É o "Cristovam Buarque" do "Caldeirão" que não está nem aí para as bobagens que falaram. Disse já foi milhares de vezes mais para a periferia para gravar quadros de seu programa e passa de carro com vidro aberto na Rocinha. Ele afirmou que ouve, ouve muito, e conhece a realidade brasileira.
Não sei se vale a pena ficar falando sobre esse meu colega. Para mim é evidente que esse discurso não passa de uma bem-feita pasteurização das besteiras que Luciano Huck escreveu e nada mais porque continua fazendo uso de lugares comuns, de máximas, assim como todo entendedor-de-tudo. Se travestiu agora de justamente o que buscava no artigo, de salvador da pátria. Não acham? Olha a cara dele na foto que eu coloquei aqui para vocês verem.
Em vez de procurar respostas nessa entrevista o nosso herói nos dá, e é por isso que eu fiquei confuso. No lugar de perguntar ele responde e vejam só que instrutivo, responde com coisas que quem tem o mínimo de discernimento já sabe sobre o nosso país: é evidente que precisamos democratizar o acesso à educação. Claro que o filho do assaltante tem de ter oportunidade de entrar na faculdade que quiser, isso é óbvio. Huck agora quer posar de bom-moço, de bastião da razoabilidade. Para mim Luciano não passa de um hipócrita.
Como tem coragem em falar de educação conduzindo seu programa desta maneira? Como tem a panca de vir dizer que conhece mais da realidade brasileira do que qualquer um que o criticou? Este homem que trabalha para a Globo tem a pachorra de vir falar em mudança social?
Seu programa e suas atitudes como homem público só vem contribuir para o estado aleijado que nosso país se encontra, aleijado justamente do que ele pede, educação. Não cabe aqui descer a lenha no "Caldeirão" mais uma vez mas me indigna este vendedor, que é exatamente o que Huck é, um vendedor de produtos muito hábil, vir aqui dizer disso tudo.
Luciano você pode ouvir o quanto você quiser, não vai resolver o problema. Pode fazer quantas ONGs quiser, não vai resolver o problema. Enquanto você não perceber que trabalha para o contrário do que deseja estará remando com um cabo de vassoura, sem sair do lugar.
Das duas uma: ou Luciano Huck está no lugar errado e mal-instruído não passando de um ingênuo bem-intencionado ou tudo o que disse de fato é uma pasteurização e o que deseja realmente é um estado policial, que o cap. Nascimento de "Tropa de Elite" construa um muro em volta de sua sociedade perfeita.

Ainda estou sobre isso matutando. Não acho que este texto tenha ficado especialmente bom. Me sinto como um peixinho dourado que caiu fora do aquário - realmente sinto-me confuso com esta entrevista, me debatendo comigo mesmo para tentar verificar em ponto este colega me pegou, porque ele me pegou em algum ponto. Ainda me sinto driblado. Tento me sentir superior, é inútil, não o sou. Preciso de uma dose de autocrítica, talvez realmente eu seja um mané como ele disse.

terça-feira, outubro 02, 2007

18.

Acho que nunca escrevi aqui em PdO qualquer texto que tratasse de assuntos de ordem nacional. Todos os escritos que acabei de rever são sobre o cotidiano escolar, a juventude, a universidade - nunca seriamente sobre algo de importância e interesse comum a muita gente. É verdade que a greve e a ocupação de maio na USP ocuparam uma parte significativa dos noticiários mas tenho de dizer que era meu dia-dia; estava lá. Se eu nada falasse seria omisso, penso. Porém não me atrevi a dissertar sobre o Lula, sobre o Renan ou sobre qualquer tema da política nacional. Acho pretenciosa e ambiciosa tal tentativa e creio que sobraria leviandade se eu o fizesse. Deve ser medo e é bom que este aqui tenha lugar e eu seja contido de falar bobagens sobre assuntos que merecem ser tratados com um entendimento de uma complexidade que eu ainda não consigo apreender.
Entretanto surge algo nesta segunda-feira (1º/10/2007) que desperta profundamente meu interesse e minha vontade de escrever. É possível que seja algo ainda limitado mas de fato é o mais longe que me permito ir em análises de cunho externo (em relação ao toque do meu olhar). Um colega acadêmico do Largo sofreu uma situação limite em sua vida e em um jornal de grande tiragem fez um desabafo. Seu nome: Luciano Huck. A história foi essa. O desabafo está aqui (quem não conseguir acessar mande-me um email em fbritocruz@gmail.com que eu mando o texto na íntegra). Comentarei o texto de Huck - veremos do que ele e eu somos capazes.


O caldeirão e sua vergonha

Lamento muito por esta situação limite que passou o colega Luciano Huck. Companheiro das Arcadas, o apresentador paulistano não merece, assim como ninguém merece, ser de tal maneira achacado, roubado, importunado de maneira tão violenta e medonha. É evidente que a atitude de seus algozes é criminosa e esse passa longe de ser o mérito desta discussão. O problema é que o global decidiu escrever, desabafar, e, penso eu, cometeu alguns atos-falhos e pecou em diversos pontos de sua análise. Sinceramente achei triste - quiçá ridículo.

Começa sua análise imaginando o que ocorreria se o pior tivesse acontecido. De maneira mórbida narra o acontecimento e é evidente a carga emocional destas primeira passagens. O problema chega quando Huck se diz indignado e começa a clamar bordões e palavras de ordem clichês. É fatal quando faz a conexão "pago todos meus impostos, uma fortuna" com "como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa"; é o começo de todo um raciocínio simplista, desesperado e patético cheio de lugares comuns indevidos. Esta conexão argumentativa representa a chave para o entendimento do pensamento do apresentador. Ele paga todos os impostos; sua dívida está quitada com tudo. Ele paga para isto não acontecer. Paga e diz que o "resultado" de os pagar é um assalto que lhe ocorreu. Penso que deveria observar melhor se este assalto é mesmo o resultado disto ou de alguma outra coisa. Seu raciocínio para quando acaba seu interesse e este é estritamente pessoal. Confunde cidadania, ser cidadão, com o simples ato de pagar "tudinho" de seus tributos - despreza o resto das acepções da palavra. Pergunto-me aqui como conseguiu realizar algumas matérias na faculdade sem saber definir com o mínimo de razoabilidade tais conceitos.
Percebe em seguida que a situação de São Paulo "está ficando indefensável", justamente esta cidade que adora, que nasceu. A mim parece-me mais uma vez indevida tal colocação. A situação de São Paulo não "está ficando indefensável" para Huck e sim ficou indefensável de uma hora para a outra devido a algo que lhe aconteceu (ou "algos", no plural, pois, segundo ele foram três assaltos próximos do próprio na cidade no mesmo dia). Este é indício da perspectiva individualista do pagador-de-impostos-cumpridor-de-seus-deveres Huck que tudo resolve com a cívica pergunta clássica de um pretenso jogo de esconde: "onde está a segurança no nosso país? Onde está a polícia? Onde estão os heróis que tem de nos salvar?!". Não vem nenhum não, Luciano, não tem, não existe herói. Mas ele quer é a polícia mesmo, a "Tropa de Elite", para resolver seu problema, o problema de assalto de motocicleta nos Jardins em 30 dias - agora, já. Quer discutir segurança pública de verdade dizendo isto. Dizendo isto?
Não sou nenhum perito no assunto mas imagino que um problema como a violência urbana não pode ser resolvido com seriedade em 30 dias a não ser que a idéia de Luciano seja cercar os Jardins com um imenso muro anti-assaltantes lotando o bairro de tanques de guerra e viaturas policiais (ainda mais do que de costume e ainda mais das viaturas das empresas de segurança privada). Não acho que ele acharia má idéia. "Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito" diz ele. De fato, Luciano - vamos construir o nosso muro. É feliz a observação de um leitor chamado Fernando da Silveira que diz numa carta à Folha de São Paulo no dia seguinte que Huck poderia ter sido mais direto e perguntar em vez de "onde está a Tropa de Elite?" onde estaria a Tropa da Elite.
Aí encontro um parágrafo cômico em meio a toda esta aguda e inteligente análise política do nosso complexo país. O amigo neste e em outros pontos exacerba sua missão social de apresentador de tentar fazer este país se tornar mais bacana divertindo na TV e trabalhando na direção de uma ONG séria. Huck se diz alguém que não está indignado com a perda de seu rolex, mas sim como uma pessoa que "de certa maneira" "dirigiu a sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais eqüilibrado e justo". Admira-me a maneira que este o faz. Seu programa realmente detém os aspectos mais maduros da TV e da cultura brasileira e engrandece o povo tornando o Brasil mais bacana. Sinceramente. O "Caldeirão" (quem goste que me perdoe) é o que existe de mais imaturo na TV brasileira e representa a ânsia de se alimentar com uma cultura que mais parece uma massa disforme verde-acinzentada que é amontoado de sexo, informações supérfluas, sexo, fofoca, sexo, música subformada, repetitiva e sem conteúdo, sexo, entretenimento importado americano, sexo, pernas e seios femininos, sexo e uma pitada de humor zorra-total, aquele que suga seu cérebro e não te deixa pensar em mais nada. Triste que Huck ache mesmo que está construindo ou contribuindo para construir um cenário mais justo ou maduro no nosso país. Ele é um visionário provavelmente; ele e a Dani Bananinha.
Ah! Mas ele mantém uma ONG séria! Ah, ok, a cidadania não é só pagar impostos, é também ser obrigado a ter uma ONG-desencargo-de-consciência. Faço das palavras de Thiago Candido da Silva, diretor do DCE livre da USP, as minhas: "
É um pensamento típico: apenas quando somos diretamente afetados, nos movemos em gritos esparsos, em passeatas sem sentido ou apoiando políticas de repressão intensa. A solução não é a repressão, e sim a distribuição maior de renda e de oportunidades. E não é meia dúzia de pessoas em curso de cinegrafia que irá mudar a situação". Bailes (d)e caridade nunca conseguiram resolver realmente qualquer problema mesmo porque se tivessem conseguido não teríamos mais uma dezena deles por semana nas colunas sociais. E fazer parte disso não te dá carteirinha cativa de cidadão.
Seguindo o global constata debilmente uma afirmação genuína: a existência de desigualdades no Brasil. Pergunto-me se não deveríamos conferir a este genial pensador alguma espécie de prêmio por constatar algo tão inédito. Parabéns Luciano, descobriu a América. Ainda nisso sua análise apresenta problemas por aproximar situações completamente diversas que nada tem a ver uma com a outra a não ser como um recurso parco para tentar demonstrar uma idéia desesperada. A desigualdade observada por Huck é pateticamente superficial, uma desigualdade de acontecimentos, não de causas, e isso deixa sua observação simplista. Sua emoção também o toma a medida que relata que "assaltos a mão armada sendos executados em série nos bairros ricos" - "em série"? Sem querer desvalorizar esta verdadeiramente odiosa situação que Huck passou transformar isto num acontecimento em série é algo que lhe foge a competência, o faz por emoção, por achar que seu problema é o maior de todos - disso não o culpo, mas não acredito ser verdade.
"Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia?". Luciano Huck está à procura de um salvador da pátria e isso me dá medo. Não imagino o que ele tem na cabeça quando diz isto. É o velho personalismo político brasileiro que desconsidera a existência da política das idéias e não das pessoas em sua acepção mais bela? Ou seria um neomessianismo estilo Canudos? Isto abre espaço para idolatrias e defendo que estas nunca são muito boas, quando se tem um problema tão complexo quanto o Brasil, tão difícil quanto nossa realidade. Não vai ser um "salvador" que resolverá o problema de nossa pátria e sim todos nós se nos dermos conta de suas reais causas.
E não é só esta afirmação de Luciano Huck que me assusta. Ainda pergunta qual seria a lógica de algumas coisas dentre elas "um par de 'extraterrestres' fortemente armados desfilando pelos bairros nobres de São Paulo" e isso me parece talvez a mais simbólica e forte afirmação do apresentador do "Caldeirão" no que diz respeito à natureza simplista e arrisco dizer elitistamente tapada (pois acredito que é possível talvez um pensamento elitista menos imbecil, sem entrar neste mérito) do seu ideário. Usar a expressão "extraterrestres" o denuncia completamente e mostra como Huck deseja que o muro que eu idealizei seja construído o mais rápido possível. Ele quer dizer que aqueles não pertencem aquele local apesar da Rua Renato Paes de Barros ser pública, não deveriam estar lá, deveriam estar enfiados nos barracos onde nasceram. Em vez disso ficam desfilando (como verdadeiras madames) fortemente armados pelos bairros que não os pertencem - que chamem a "Tropa de Elite", do filme que atua Wagner Moura, como se esta fosse a solução mais adequada.
Percebe-se que nosso colega não deseja a solução mais adequada, mais justa, mais madura ou mais "bacana" para nosso país e sim a mais adequada e mais "bacana" para ele próprio, a mais imediatista, o muro (que equivale a nossas blindagens e aos nossos condomínios megafechados). O franciscano Huck está envergonhado de ser paulistano? Deveria estar, em vez disso, envergonhado por ser Luciano Huck depois de escrever tamanhas bobagens. A mistura deste caldeirão passou do ponto.
Peço desculpa pela atual escassez de posts mas isto é normal, creio eu.
Em breve retorno com novidades interessantes.

sexta-feira, setembro 14, 2007


Agora fiquei com vontade de acrescer aqui algumas considerações que um grande amigo meu, André Vignola Zurawski, vulgo Nest, fez em minha companhia sobre o assunto do último post-texto (nº17), o teatro. Considerações estas que talvez passaram despercebidas pela minha análise da peça e que provavelmente seria interessante colocar.
A questão é que existe a possibilidade de uma das intenções da peça ou de quem a fez fosse justamente a intenção passada, o sentimendo passado. Me parece razoável tal colocação à medida que não se trata de nenhum grupo tecnicamente defeituoso, muito pelo contrário. Nest abriu-me os olhos numa conversa franca na qual refleti sobre alguns pontos que aqui coloquei no domingo (9.8.2007), no post-texto 17. Esta abertura e ampliação do olhar deixa em xeque algumas de minhas críticas justamente pelo fato de que talvez a intenção fosse aquela; talvez queriam deixar-me irritado.
E isso não é necessariamente ruim, apesar de incômodo.

E o incômodo muitas vezes não só é útil como engrandecedor.
Abraços.

domingo, setembro 09, 2007

17.


"A partir daí brotam obras e mais obras incompreensíveis, comparadas a quadros infantis ou mesmo pintados por elefantes prodígios. Ou uma exposição simplesmente repleta de cenas e mais cenas de sexo explícito. Porque um pouco de sexo é sempre bom.
O sexo é insistentemente usado pelos nossos estimados artistas pós-modernos. Dificilmente você vai encontrar uma exposição que não tenha uma imagem ou um texto falando desse tema tão corriqueiro. Um tema tão “revolucionário e escandaloso” agora virou corriqueiro.
Eu não me choco com sexo. Eu sou bombardeado noite e dia por sexo. Revolucionário pra mim seria justamente não falar de sexo. Seria tentar ao menos manter um mínimo de discrição sobre a sua vida sexual, ou a dos outros. Mas é claro que eu sou só um reacionário moralista que sonha com um mundo em que um artista não berre por aí as experiências que teve com conchas, travestis romenos e arroz integral.

Essa busca pelo “novo”, pelo que irá quebrar todo o sistema vigente acaba gerando um outro tipo de movimento. Um movimento em que a causa perde a importância, e que o próprio “movimento” se fortalece. Não interessa muito pelo que você luta, o importante é justamente lutar. Cria-se a “revolta pela revolta”.

E essa “revolta pela revolta” evidencia que estamos no meio de uma corrente cultural seca, simplesmente desprovida de qualquer idéia ou causa na sua base. O simples ato de rebeldia gratuita é a estrutura do contexto intelectual em que estamos inseridos. Não existe nem razão para se discutir, porque não há o que se discutir. Muitas dessas pessoas envolvidas nos pós-modernismo não têm idéia de por que estão fazendo o que estão fazendo. É preferível ao menos um estúpido que não faz nada, do que vários estúpidos que se juntam com outros estúpidos pra fazerem estupidez.
Senhoras e senhores, eis o vosso pós-modernismo: um monte de estupidez."


Começo este texto citando meu grande amigo Benjamin. Perfeita a sua colocação sobre o sexo, absolutamente perfeita, e gostaria muitíssimo de manifestar meu apoio à estas palavras que talvez tenham passado incólumes por quem leu "O Pós-Modernismo", post do próprio Benjamin.
É claro que ele e eu somos desimportantes, não entendemos nada de arte seja ela dramática, plástica, cinematográfica ou mesmo arquitetônica. Nossa opinião leiga é imbuída com ingenuidade e sinceridade de quem não entende ou entende errado o que vê.

Você caro leitor deve estar a se questionar o que o Chico quer dizer desta vez colocando este trecho benjamínico e o comentando puxando para esta parte artística que o texto carrega. O Chico quer tratar aqui diretamente de teatro. De uma peça que ele viu com Benjamin e com toda a família Chico neste sábado dia 8 de setembro.
O nome da peça? "El Truco". O lugar? Espaço Satyros 2, na Praça Franklin Roosevelt. O enredo? Na Segunda Guerra Mundial diversas pessoas estão trancadas num bunker para se proteger dos bombardeios e das batalhas. Estas se propõe a encenar "Sonho de uma noite de verão", de Shakespeare. O tema? Uma batalha entre ficção e realidade; uma demonstração da loucura; da "vida como ela é"; do nosso lado animal; das máscaras-personagens que usamos; uma visão sobre o mundo louco que quer que sejamos isto ou aquilo.
Não quero dizer que este tema seja de pouca importância muito menos que estes questionamentos não devem ser levantados contudo tenho de admitir que a peça para mim foi um martírio. Nenhuma cena passava sem a menção, simulação ou propriamente exibição explícita de algum aspecto sexual qualquer que seja. Não existiu um momento em que as falas, os movimentos, os corpos, os olhares ou as andanças em cena não passassem uma conotação extremamente sexual e vulgar. Para mim isto não é qualidade, não é vantagem.
Parece muito carola, muito ridículo, muito conservadoramente podre e retrógrado esse meu ataque ao excesso de sexo. Eu não me importo que seja. Me importo com a minha incapacidade de prestar atenção em um enredo com tantos floreios sexuais. Só consegui abstrair alguma coisa daquela encenação pelas minhas conversas posteriores com as pessoas pois na hora eu só pensava em levantar e ir embora.
Fiquei durante um bom tempo me perguntando o porquê da minha extrema repulsa a tudo isso. É complicado criticar principalmente sendo leigo. Muitos diriam que eu deveria ter retirado meus filtros-de-preconceitos antes de entrar na peça e é por aí que eu começo. Preconceitos? Preconceitos tem contra o que digo aqueles que me acusam de carola e retrógrado. Mais despido de preconceitos que fui impossível justamente indicado pelo fato de eu não ter ficado chocado com a enxurrada sexual e sim irritado. Para mim parecia totalmente descabido e desnecessário contar aquela história daquela maneira. Fui sem nenhum preconceito e o que vi, puramente falando, foi um punhado de cenas sexuais que para mim nada acrescentaram. Pareceu-me justamente o "choque pelo choque". O único problema é que minha geração não se impressiona com sexo do mesmo jeito que a dos meus pais. Nasci do sexo. Cresci com sexo na TV. Sexo transpirando pelo computador, pelos outdoors, pelo rádio, pelas músicas, pelas baladas, pelas gírias. Tudo fala de sexo. Os filmes que eu assisto só tem sexo. Como diz o Benjamin, revolucionário para nós (faço das palavras dele as minhas) seria não falar de sexo, não contar as coisas com sexo.
O que seria pra chocar, para me causar impressão aflitiva causou-me vergonha. Não vergonha pudica, vergonha de carola, de virgem da igreja da Santa Maria Imaculada Conceição mas uma vergonha relacionada com a falta de lugar deste sexo, com seu descabimento. Uma vergonha de estar tão insanamente inseguro observando aquilo que para mim não fazia o menor sentido.
Não entendo o sexo desta maneira. Não entendo a quantidade de vezes que este apareceu na peça. Se foi para insinuar um clima de loucura e de insanidade da guerra não me pareceu convincente pois não me parecia um sexo sujo ou desesperado mais luxurioso e insinuante. Imagino que na guerra, em qualquer uma, cenas de violência sexual sejam comuns, mas cenas secas, duras, com muito choro, raiva, tristeza, tragicidade. Não consegui captar isso nas insinuações orgiásticas do grupo.
Não entendi a necessidade de mostrar os seios de algumas atrizes. Não entendi a necessidade de simular masturbação em uma dancinha patética. Não entendi a necessidade do uso de um pênis de borracha numa simulação do ato sexual no qual o portador do membro vestia máscara de cavalo. Isso era pra quê?
É possível mostrar tudo o que foi mostrado de outro jeito, tenho certeza. É evidente que é possível argumentar que tal jeito seria, de uma maneira ou de outra, totalmente diferente do antigo mas para mim isto não representaria perda e sim melhora. Melhora por que não precisamos que realizem tal ultraje à nossa imaginação, à nossa capacidade de criar metalmente o clima. Não sinto apuro por questionar as coisas desta maneira.
Pergunto-me verdadeiramente qual é a intenção de uma peça teatral que tem como platéia um público evidentemente leigo, um público que não escreve, atua, dirige ou estuda teatro. Presumo que as peças tem como objetivo (não sei se é a melhor palavra) uma comunhão ator-platéia com o intuito de relatar alguma mensagem; uma espécie de envolvimento em razão de um questionamento, seja trágico, cômico ou romântico, da realidade; um corte interessante da mesma; uma nova visão; uma crítica à um aspecto presente, passado ou até futuro. Só presumo. Esta peça não teve tal efeito em relação à mim. Os temas que ressaltei foram uma tentativa de recorte mas não posso dizer que tal tentativa foi bem feita. Esse envolvimento, essa comunhão, esse "passar algo", não conseguiu me atingir. Cavei raso. Para passar tudo aquilo seria extremamente necessário tal leitura sexual?
É isso que venho discutir. Não a relevância dos questionamentos pretensamente trazidos mas esse desastroso jeito de ver tais questionamentos. Porquê todo tipo de inovação artística polêmica tem de passar pelo sexo?
Para mim sexo não é mais tabu. Devo estar cometendo milhares de crimes psicológicos freudianos e de crítica teatral com este texto mas eu não me importo. Me revolto com a necessidade que têm-se por todo o lado de se falar sobre esse assunto. Tesão reprimido.
Bombardeam-nos pelo lado "pop" ou "de mercado" da cultura com os humps da Fergie e pelo lado underground dos teatros da praça Roosevelt.
E agora? Onde me esconderei? Num bunker? Que tal encenarmos "Sonho de uma noite de verão"? Nossa, mas que idéia, cara. Boa mesmo, filhão.

sábado, setembro 08, 2007

16.


Mas eu me divirto com esse blog, admito.
Acho engraçado algumas situações que você se vê tendo um blog e refletindo sobre a própria humildade que todos que escrevem deveriam ter. Bom, no final tudo se acerta, o justo acaba emergindo.
Uma das coisas mais chatas ou engraçadas (como preferirem) é contar para as pessoas que você possui, constrói, desenvolve, escreve ou tem um blog. No fundo no fundo não faz a mínima diferença. A pessoa vai, dá uma olhadinha, lê o último texto, solta um comentário e pronto, trabalho cumprido. É como jogar um peixinho pra aquela foca amestrada. Muito bem Floopsie, muito bem!
Falando isso fico com a seguinte impressão de mim mesmo: "mas esse cara é bem malandro, fala essas coisas e ainda esnoba quem entra naquele blog dele! Quem ele pensa que é? O Jabor? Mainardi? Simão? Bonner? Fica falando que não quer falar que tem blog e depois diz que tem que valorizar o que se escreve! Não faz nenhum sentido! Além de prepotente é burro!".
Não desautorizo estas acusações mas queria enfatizar que o sentido não é esse. Acredito profundamente no que escrevo, acredito que isto adiciona alguma coisa tanto para mim como para quem aqui acessa. Continuo crendo na dignidade do autor. No papel da humildade frente às críticas e comentários. Na discussão-construção espiral e em tudo o que já disse nos textos anteriores. O que aqui tento dizer é que venho desacreditando nessa propaganda oral que se faz. O que se ganha é um leitor instantâneo e fujão que vem uma única vez lhe fazer o favor de um comentário. Oras. Se eu precisasse de favores eu pediria. Tá, ok, tem a possibilidade da pessoa não curtir e ir embora - mas então porquê deixa comentários de que gostou? A única pessoa que faz críticas mais diretas e estruturais aos meus textos é o Márcio e ele está de prova que nunca estas críticas entraram-me por um ouvido e saíram-me pelo outro.
Não estou querendo falar mal dos leitores instatâneos também. Aqui faço crítica à propaganda verbal. Assintiva, pedinte, pedante, coercitiva. Propaganda essa que obriga, que lança mão do sujo recurso do "dá uma olhada". Todos temos direito de descobrir o que queremos ler sozinhos. Somos grandinhos e não precisamos de ajuda - certo? Certo? Não sei, de verdade.

Eu faço - ou fazia, agora - este tipo de coisa. Achava necessário justamente para as pessoas notarem a existência de PdO, por exemplo. Agora vou pensar duas, não, três, vezes para fazê-lo de novo.

quarta-feira, setembro 05, 2007


Por volta desta data os primeiros escritos do Palavras de Ordem completam 1 ano. O texto que já está em sua nona versão (e se encaminhando à décima) já não expressa mais completamente o que penso do Santa Cruz. Não que eu ache inútil, longe disso. A questão é que penso que as coisas são mais complexas do que eu as coloquei lá e não estou me dando por satisfeito com somente aquelas idéias. É preciso ir mais longe. Mais pesquisa, leitura, conversa. Não só para entender este colégio como a minha, a nossa, comunidade; essa classe média paulistana tão próxima, tão shoppinianamente próxima.
É evidente que volto um pouco mais agora aos assuntos da São Francisco mas isto não quer dizer que eu abandonei meu olhar ao Santa. Acho que dificilmente abandonaria. Acho importante este entendimento, esta compreensão, esta crítica. Algo que é tão intrínseco à mim não deve ser desprezado. É aquela etiqueta que colou já em mim: "Fez Santa Cruz", assim como eu disse em
PdO, no capítulo 2, "O problema, o hoje". E as coisas lá tem estado em constante mudança - cada vez num ritmo maior.
Talvez o que mais tenha me decepcionado a respeito do texto é que ele provocou muito menos discussões do que eu achara. Não estou falando de grandes debates ou enormes divergências de opinião entre centenas de pessoas, nada disso. Estou me referindo a conversas comigo, com os meus colaboradores. Não sei se estou sendo chato ou até mesmo cricri porém eu tenho a impressão que estas foram bastante insuficientes. Precisamos nos reunir e conversar. E uma conversa não se faz com só um lado gritando palavras de ordem, não é mesmo?
Apesar do nome faço tudo para este lugar seja um lugar de debates interessantes entre gente interessada. Obviamente acabo limitando bastante os temas devido ao meu caráter de autor do blog mas já disse e ressalto que qualquer pessoa que quiser aqui publicar qualquer coisa é só mandar no meu email (fbritocruz@gmail.com) que eu publico. Também é óbvio que passa por um filtro mas digo que este é quase-somente gramatical. Reforço então aqui o pedido: o espaço está aberto, o canal esta aberto.
Espero a participação ou, pelo menos, a leitura de vocês; já os considero amigos.

domingo, setembro 02, 2007

15.

Caros amigos,
Esse post vem falar sobre fatos que aconteceram em minha Faculdade nos últimos dias. Como eu já descrevi em post anteriores movimentos sociais (MST, Educafro entre outros) realizaram manifestação na Academia criando enorme rebuliço. A tropa de choque entrou e realizou a desocupação na mesma madrugada. Enormes debates e intensas discussões sobre tais acontecimentos começaram a ter lugar a partir deste momento e a direção do Centro Acadêmico XI de Agosto foi questionada se sabia ou não da manifestação e, se sabia, por que não havia avisado os estudantes. Ricardo Leite Ribeiro, o presidente do XI, em Conversa Aberta com os estudantes em conjunto com o diretor da Faculdade João Grandino Rodas, afirmou que os integrantes da gestão Fórum da Esquerda, que cumpre o mandato de 2007, sabiam dos planos de ocupação entretando não avisaram os alunos pela dificuldade do diálogo com os movimentos sociais e a possibilidade de que a notícia chegasse ao diretor que, sabendo de tudo, fecharia a São Francisco com o intuito de interromper a manifestação. Os motivos ou não de Ribeiro não ter avisado ao corpo discente tratarei em meu texto mas o fato é que membros da oposição à esta gestão começaram a organizar uma Assembléia para discutir as ações do Fórum da Esquerda e o resultado de tudo isto foi este. E é disso que pretendo tratar.


O que muito nos falta
Primeiramente devo expressar que não quero discutir fundamentalmente o fato do Fórum da Esquerda saber ou não da manifestação de 24 de agosto. Meu objetivo com este texto não é relevar as positividades ou negatividades da atitude deste grupo até porque em meu entendimento estes se encontraram numa verdadeira "sinuca de bico" e isso temos de considerar para analisar os fatos. Por um lado se a gestão avisasse os alunos cumpriria sua premissa de os representar plenamente discutindo assunto de capital importância dada a magnitude das manifestações planejadas e até talvez conseguindo importantes aliados neste movimento - mas correria sério risco de um aviso ao diretor João Grandino Rodas, que fecharia a Faculdade aos movimentos o que causaria uma traição direta à Carta-Programa da própria gestão Fórum da Esquerda que tem como uma de suas premissas essenciais o apoio àquele tipo de movimento. Por outro lado se a gestão não avisasse os alunos, o que de fato ocorreu, esta deixaria a manifestação adentrar a Faculdade sem obstáculos, de surpresa, assim cumprindo com o seu apoio já manifestado à tais movimentos - porém ferindo seriamente sua relação com o corpo discente que, evidentemente, entrou em fúria com o fato de ter sido pego de surpresa por um órgão que teoricamente os representaria. E esta relação, este vínculo, de fato feriu-se bastante. Temos de ter em mente que o Fórum tinha noção da dimensão política de seus atos e é óbvio que considerou que provavelmente a reeleição neste ano após a tomada desta decisão seria uma quimera. Além disso é preciso pensar que, apesar desta decisão em especial ter conseqüências tão peculiares e grandiosas, este grupo agiu de forma coerente com suas promessas incluídas em sua Carta-programa. O Fórum da Esquerda, eleito democraticamente em 2006, foi justamente colocado na posição que ocupa pelas promessas que fez e, pensando desta maneira, representou assim os alunos que o elegeram. Coerência e honestidade são qualidades que percebi nestes atos (além de uma espécie de suicídio político) e não traição e mau-caratismo e é nisso que fundarei meus argumentos em relação às atitudes que se seguiram dos grupos de oposição à gestão do XI encabeçada pelo presidente Ricardo Leite Ribeiro.
Disseram que a atitude do Fórum de Ribeiro foi antidemocrática, crápula e traidora em relação aos estudantes mas penso que a decisão da convocação da Assembléia Geral Extraordinária e as deliberações desta foram ainda mais antidemocráticas e arrisco dizer ilegítimas. Além das inúmeras ilegalidades que levam a Assembléia a ter de ser considerada nula e golpista não consigo conceber como o grupo de alunos se prostra de maneira tão ridícula, ingênua e submissa à grupos com interesses tão baixos.
A destituição do presidente Ribeiro por uma Assembléia extraordinária teria tudo para ser adequada se o próprio tivesse desviado verbas do XI ou se sua gestão não cumprisse nenhuma das promessas que fez - o que evidentemente não acontece. Para mim está claro que grupos de oposição ao Fórum da Esquerda estão explorando a fragilidade da decisão política do Fórum além da conta, além do razoável. É razoável apontar uma baixa representatividade na atitude desta gestão observando o fato da omissão de informações acerca da ocupação. É razoável criticar tal decisão. É razoável dentro de um debate transparente e adequado colocar diversos ataques à burrice ou não dos atos de Ribeiro. Destituí-lo por cumprir suas promessas não é nem um pouco razoável.
Nós estudantes de direito devíamos ser os primeiros a perceber os momentos que fazemos parte de uma manipulação. Não digo que esta seria uma manipulação descarada ou que o grupo X ou a chapa Y tem intenções de dominar o mundo e ficam freneticamente rindo enquanto seguram crânios. O que penso é que deveríamos refletir o que significa uma destituição de um presidente do XI que cumpriu (mesmo que de maneira duvidosa e, para muitos, burra) seu discurso. Significa que se quer por meio deste movimento massacrar a gestão Fórum da Esquerda. Não se contentam com uma justa e democrática vitória (que evidentemente acontecerá) nas urnas na próxima eleição que ocorrerá em outubro. Não, não, não é o bastante. É preciso esmigalhar a esquerda dentro da Faculdade - é preciso destruí-la com todos os métodos possíveis, mesmo que isso possa soar a alguns antidemocrático e golpista. Devemos varrer este grupo e este homem para fora do Largo para que nunca mais voltem.
A verdade é que seus opositores sentem medo da esquerda. Sentem medo justamente na força idealista a que ela remete, principalmente nos calouros. Sentem medo de muitas outras coisas que aqui não quero falar. Mas sentem tanto medo que apoiaram até a entrada de alguns homens vestido de preto no solo sagrado da Academia. Este medo e o desejo ardente por poder é o que faz a oposição recorrer à tais medidas absurdas e insensatas, na minha visão.
E o pior é que estes tem sido apoiados por muitos, muitos alunos, o que que me parece totalmente absurdo. Como não percebemos que estamos sendo utilizados para um açoiteamento político de um grupo que, por mais que tenha errado, merece e tem o direito de democraticamente cumprir seu mandato?
Como não nos entra na cabeça que este açoiteamento não é necessário e não é saudável para o debate político dentro da Academia?
O Fórum da Esquerda? Que sofram ou aproveitem as conseqüências de seus atos nas urnas.
A oposição? Que tome vergonha do que está fazendo profanando as Arcadas com discurso imoral e doentio se aproveitando do estado emocionalmente alterado pela presença do Choque no Largo.
O que nos falta? Olhar para dentro de nossa mente e em volta. Estamos participando de algo que realmente podemos nos arrepender. É necessário examinar as intenções dos envolvidos e perceber que nossos atos podem estar sendo conduzidos sem sabermos.

quinta-feira, agosto 30, 2007


Deve estar muito chato ultimamente ler o Palavras. Estes meus últimos posts sobre punhetas filosóficas, sobre bases axiomáticas, premissas e sobre como eu vejo uma boa discussão ficaram cansativos e diferentes dos outros aqui presentes - estes últimos sempre sobre algum assunto mais concreto, plausível, e, assim, com uma maior probabilidade de ficarem mais interessantes e melhor argumentados. Tem um grande problema em escrever estes textos com aquelas opiniões que neles estão.
Em parte causa uma reflexão interna um tanto corrosiva e um início de falta de motivação. Acho que excesso de humildade também é prejudicial, talvez vire uma espécie de sensação contínua e eterna de vexame, de medo da sua produção sempre sair péssima ou voltada à um outro objetivo que não a relevância daqueles aspectos da realidade. Pesar a humildade e a prepotência provavelmente é o caminho contudo é bastante delicada essa balança.
Continuarei aqui no Palavras, evidentemente. Agora muito mais malvado comigo mesmo. Espero que isso dê resultados interessantes.

Ah! E acatarei a sugestão do Marcio. Numerarei os textos a partir dos posteriores à março deste ano começando no primeiro texto sobre a bomba "Será mesmo o rebeldismo-sem-causa?". Não numerei nem os textos do Benjamin nem os recados, avisos e pequenas reflexos - a maioria feita em itálico como esta.
Creio que desta maneira fica mais fácil o acesso e a identificação dos textos.

Obrigado,
Chico.

terça-feira, agosto 28, 2007

Este é um post rápido de felicidade.
Hoje, às 00h40, o Palavras de Ordem acaba de receber o seu 500
º visitante diferente atingindo um número de pessoas que eu nunca imaginei antes.
Queria agradecer sinceramente a todos que prestigiaram a mim, ao Benjamin e à todos nossos contribuidores.
Obrigado pela atenção e grande abraço,
Chico.

sábado, agosto 25, 2007

14.


Amigos;
Me avisem se eu estiver errado nesta indagação, por favor - nesta eu realmente preciso da ajuda de vocês. Estou ciente do meu pedantismo com estes milhares de posts sobre a punheta filosófica - sobre o ter ou não base para se dizer algo e etc. É irritante mesmo para mim e como o Márcio meu amigo diz é um algo meio sem sal, sem polêmica. Talvez algo que nem realmente valha ser lido - ou escrito. É uma discussão em relação à um tipo de humildade que nem sei se chego a possuir. Tudo isso parece e provavelmente é uma tentativa desesperada de justificar todo o meu discurso, meio que adocicá-lo e torná-lo mais tragável, além de se tornar um ciclo de prepotência e "se achice" da minha parte. Gostaria que não fosse, sinceramente.

Num breve passeio que fiz hoje sozinho pensei bastante sobre um assunto que está em voga na minha Faculdade. De quarta para quinta movimentos sociais ocuparam a São Francisco para protestar e foram retirados pela tropa de choque na madrugada. Uma intensa discussão entre calouros está acontecendo por emails e milhares de pessoas dão suas opiniões relevando os mais diversos argumentos. É interessante, é sim, mas isto me incomoda justamente no que tange aquela discussão sobre a falta de bases e tal. Pensei o seguinte durante o passeio.
Supomos que a discussão sobre algo como isso deve ser construtiva, ou seja, o ideal é que falando e sendo ouvido eu possa clarificar minhas idéias e engradecer ou questionar minha própria opinião. Não há problema que esta opinião seja a mesma de outras pessoas contanto que eu pense nela e a tome com consciência. Se a discussão é uma construção como esta pode ficar se eu não tiver todos os tijolos, ou se estiver sem ferramentas, ou se os próprios construtores estiverem sem nenhum plano? Eu sempre preguei ardentemente a discussão aqui em PdO mas nunca tinha pensado na enorme importância de um bom silêncio.

Não sei se isto leva a alguma polêmica mas o fato é que percebi o quanto é necessário esse bom silêncio. Nós, os construtores, precisamos achar as ferramentas todas, procurar os bons materiais para o projeto - projetá-lo junto com o arquiteto - e concluí-lo observando a nós mesmos reparando se na nossa maneira de construir está incutido algum vício, algo impensado que possa fazer a construção sair pendendo para o lado e não para o alto.
Ok, ok, a metáfora é estúpida. Aí entram milhares de perguntas e indagações importantes como o fato de a construção sempre ter de ser para cima (existe uma verdade a ser buscada?) e a questão de realmente sermos diferentes uns dos outros implicando assim que as nossas características muitas vezes são indissociáveis de nós mesmos. Mas eu não estou querendo ir por aí. A construção é para cima não em direção à verdade mas em direção à uma reciprocidade verdadeira e reflexiva que adentra nos construtores. Não defendo também a abstração total da nossa individualidade mas sim a assimilação da humildade frente ao outro e frente à si mesmo. Antes de se dizer que o discurso de alguém é "vazio e cliché" penso que deveríamos ter a autocrítica para pensar se o nosso é e a coragem de - se o for - admiti-lo. Quando falo de vício penso não em coisas que podem ser curadas pois, como se diz, um alcóolatra nunca deixa de o ser, e sim penso no que temos em nossa cabeça e termos de ter consciência disso e saber a sua procedência. Controlar o vício e submetê-lo em relação à uma consciência razoável - não necessariamente racional.
Nossa; estas últimas duas frases não ficaram boas. Acho que adentro questões filosóficas superficialmente e se realmente o fiz peço perdão.
Esta que apresentei é a minha mais sincera opinião. Não justificarei que "é só um devaneio de sábado" ou "é só um rabisco neste caderno" pois estes escritos não o são. Tá lá é para ser lido e não devemos nos justificar diminuindo a importância do que escrevemos ou falando que é "só" um devaneio ou uma "frase solta". Ninguém escreve o que acha imbecil ou algo que não dá valor - não faria sentido eu gastar meu tempo tentando defender aqui algo que não julgo importante ou pertinente. Essa é uma hipocrisia que me irrita pois o que escrevemos tem valor, e muito. Não considero quando leio que "estes escritos são só uns sonhos e viagens" ou qualquer coisa do tipo. Se a pessoa resolveu sentar o traseiro e escrever no maldito computador é porquê tinha alguma motivação, é porquê acha que o que vier a escrever vai acrescentar ou algo a alguém ou algo a si mesmo. Então por quê estes trejeitos inúteis e floreadores de uma realidade inexistente? Para mim o texto mostra o que a pessoa acha e o que ela quer dizer sobre aquele determinado assunto. Todos eles tem compromisso diluído na essência. Creio que devemos admitir e assinar com sinceridade e dignidade nossos pensamentos. "Mas tem gente que não consegue passar o que quer escrevendo", diriam-me alguns. Eu pergunto: Então porquê raios resolveu escrever, filhão?
E que sofram as conseqüências.

domingo, agosto 19, 2007

13.

Bom, este é outro texto que eu resolvi escrever sobre aquela bomba do início do ano. Fora de hora? Talvez. Eu senti um pedantismo no meu texto e não fui capaz de retirar, por favor relevem esta consciência.

***

A hipótese do soluço cíclico do sistema

Soluço: ² (...) fenômeno reflexo que se manifesta por contração espasmódica e involuntária do diafragma, seguida de movimento de distensão e de relaxamento, pelo qual o pouco ar que a contração forçara a entrar no peito é expulso com ruído característico. (...)

Dicionário Houaiss

"As coisas precisam mudar para continuar as mesmas”

Personagem de Alan Delon em “O Leopardo” (Il Gattopardo) de Luchino Visconti (1963)

Devo admitir que tenho outra análise, outra hipótese de análise, para este caso da bomba. Esta que mostrarei neste texto se conecta e toca muitas vezes a análise feita no texto anterior, mas tem uma abordagem diferente que penso ser mais abstrata.
Tese?
"A bomba é como um soluço de um micro sistema ligado ao sistema capitalista pós-moderno – complexo? Nem tanto."
Sendo a escola, sistema doutrinário de controle e ensino, não mais que um micro-sistema, uma máquina burocrática que reproduz os princípios da ordem social capitalista pós-moderna a que serve, não vejo o dito atentado mais do que uma espécie de soluço da estrutura social que vivemos.

Um colégio é nada mais do que uma instituição que visa, de alguma maneira, preparar, moldar reproduzir um certo tipo social, que visa perpetuar nas novas gerações um determinado jeito de ver o mundo. O Santa Cruz não é diferente.

Não podemos perder de vista que o Colégio está inserido em algo e tem seu papel. Não acho que tenha gabarito para discorrer sobre o papel em si principalmente pois, como sabemos, tal texto não passa de uma mera punhetinha filosófica minha, algo que eu faço para demonstrar a vocês como eu sou bom em não agir, não fazer nada, uma postura bastante confortável de observador mas que me deixa num dilema que aqui tratei tantas vezes.

A maneira que o colégio tratou deste assunto que me fez pensar sobre tal conceito, um soluço. Dada a definição do Houaiss vemos “soluço” como um espasmo involuntário, um movimento de distensão e relaxamento que acontece sem controle para normalizar uma situação. E não é isso que vemos nesse caso? A bomba explode; uma brincadeira inconseqüente de jovens pertencentes à classe A da sociedade. A escola se vira indignada para resolver o problema dentro de si mesma usando dos aparelhos e artifícios que tem para tal matéria – desprezando formas externas à sua própria estrutura administrativa. A diretoria se recusa à discutir com os alunos (também membros da comunidade escolar) o ocorrido – feito realizado singular e voluntariamente por alguns professores independentes. Não proponho entretanto uma espécie de inquisição, uma “caça às bruxas”, este não é o ponto. O ponto é discutir com os alunos o porque um deles fez aqui não deixando isso cair em acusações chulas e totalmente desimportantes para a formação deles próprios. A realidade se põe à frente deste corpo social e me coloca uma pergunta na cabeça – seria melhor tratar isso como se não existisse e impor grades, barreiras, justamente à esta discussão? Logo essa? Esta conversa que pode, mais que tudo, começar ou continuar a construir um raciocínio de questionamento? A dúvida numa escola deve ser suprimida? Qual é o porquê disto tudo?

O Colégio trata assim por que lhe convém. É melhor tanto para o colégio reafirmar sua condição de autoridade quanto para toda a sociedade guiada pela elite paulistana continuar sendo guiada pela mesma na repetição da fórmula de sociedade que temos hoje no Brasil – desigual, injusta e maculada por uma total ausência de valores. Não interessa discutir e ensinar a criticar, muito menos se for por meio de um fato concreto, um que está perto, aqui do lado - não uma conquista lá perdida da História num século distante. Aprender a criticar e problematizar um incidente recente, um fato que se viveu, é parte do pensar pleno e humanista que a escola diz que ensina. Agora, se ela faz isso de fato é outra coisa. Já vimos em Palavras de Ordem que discurso e ação no Santa Cruz não dizem respeito à mesma coisa. Na verdade ultimamente venho pensando como definir isso e cheguei à uma boa frase: “o Santa Cruz é um colégio conservador em todos os aspectos mas tem uma complexa maquiagem de discurso que o deixa mais engolível pelas elites ‘intelectual’ e ‘econômica’”.

A bomba, reiterando, é como um soluço. Uma válvula de escape para energia do jovem que, punido eventualmente, não pensa e questiona a origem de seus atos - só muda de posição. Passa de culpado para futuro acusador. Acusador este que será pelo resto da vida – acusador de uma violência que este não percebe que faz parte. É-lhe estendido o que é certo e não há diálogo – utilizando um pouco do pensar de Paulo Freire. Neste caso há extensão e não comunicação.

É evidente que a diretoria não pensa maquiavelicamente: “hahaha, vamos manter o sistema” mas, como já diz a definição de soluço, esta se ajusta, distende e relaxa, involuntariamente, para retornar ao status quo. É bom que existam essas bombas pois trataremos elas sempre assim, desta maneira anti-dialógica e profundamente condizente com a supressão de liberdades que vemos neste aparentemente inocente colégio situado à margem do rio. Liberdade de fazer e de se engajar em qualquer ato com a carga da responsabilidade que este ato implicará. Esta liberdade verdadeira não é só a liberdade de poder matar aulas e sim a de ir e vir, de se discutir sem censura. A liberdade que vem com sinceridade e abertura frente à realidade – não com grades, físicas ou ideológicas.

Temos então, por esta hipótese de análise, a bomba como um ato benéfico para a própria elite que a critica - esta ajuda tanto a formar o papel tão importante de autoridade escolar (que por sua vez suprime o ensino dialógico e a atitude crítica) que a mesma usa para educar seus filhos (que buscarão manter a supremacia política e econômica do grupo) como por constituir uma válvula de escape para a energia transformadora do jovem – energia oriunda de suas transformações mais fisiológicas, mais anatômicas. A questão é que não quero entrar no mérito do “porquê alguém fez isso?” e sim “porque a escola veio a agir desta maneira?”.

E, assim, esperemos a próxima pois muito provavelmente ela virá.

segunda-feira, agosto 06, 2007

12.

E prossigo

Toda esta questão de base é também duvidosa na fonte. Até parece que tenho. O que coloco é que também me incluo nestas constatações podres do nosso círculo social. Enojo-me quando alguém se exclui disso e creio ser este o maior dos males. A visão distanciada, a observação blasé (que muitas vezes pratico), é só parte de uma arrogância que revela nossa ignorância do significado das coisas. Do significado do que é observar propriamente a realidade.

A distância com o mérito de crítica só é válida no plano científico ou acadêmico então? Não, creio que nem sempre. Não é preciso colocar sempre as opiniões numa monografia, tese ou estudo. Basta que o faça concatenando pontos que tenham pertinência e que criem unidade, autoridade e alguma idéia plausível.

Tenho ficado aficionado nos últimos dias por discutir os objetivos das coisas. É sintomática a vontade de passar por cima desta parte nos dias de hoje. É indicativo de que os objetivos seriam subentendidos? – ou que nós pensamos erroneamente que estes o são? Nunca acho suficiente o que falamos sobre estes aspectos de tudo o que fazemos e é por quê na explicação são usados conceitos que sem definição são vagos e replicam meramente o que o interlocutor, no caso eu, quereria ouvir. O problema é que quando se aponta algo desta maneira há necessidade de explicar o que para o tal indivíduo significa aquele conceito – e aí que reside o problema. Palavras como “sistema”, “sociedade”, “crítica”, “alienação” e muitas outras preenchem de vazio os nossos discursos mas na verdade pouco sabemos sobre seu real significado. É algo meio redação-da-Fuvest, creio eu. Decoramos uma fórmula pré-determinada de realizar apontamentos ou críticas e a replicamos muitas vezes de maneira totalmente patética.

Além de tudo isso ainda me irrita como valorizamos aquilo que carrega um lado outsider, “alternativo”, crítico, como pensamos que somos. É essencial para que algo tenha qualidade que isto tenha em si qualquer indício deste lado, mesmo que seja por uma relação fraca e tênue. O problema é que, ao meu ver, nem sempre é bom que as coisas carreguem este lado. Não sei se me faço claro mas quando alguém me diz que tal livro é bom por que mostra bem a nossa sociedade eu penso na seguinte pergunta em minha cabeça: “e por que é bom que se mostre a nossa sociedade?”. As coisas não têm qualidade por que fazem crítica ou retratam a realidade da vida do nosso país e sim por que fazem isto de alguma maneira. Às vezes esta maneira é não fazendo crítica. Outras vezes é utilizando um recorte e uma metodologia interessante. Em suma (lembrando uma conclusão fuvestiana), não creio e afasto a idéia de que as coisas que carregam, por exemplo, um ataque na essência da nossa elite sejam interessantes. Podem ser – ou não. Assim como um livro sobre a organização biossocial das abelhas pode ser interessante – ou não.

Depois continuo.