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terça-feira, setembro 02, 2008

38.

Como já coloquei nas Rápidas anteriores acho esse debate sobre a revisão da interpretação da Lei da Anistia muito importante. É muito importante a composição da memória coletiva do brasileiro em rumos mais progressistas que esse debate seja feito e que sejam punidos e reconhecidos moralmente aqueles que em nome de todos nós torturaram, mataram e fizeram desparecer homens e mulheres que lutavam pela liberdade, munidos de um único direito, o de resistência contra um regime de exceção assassino.



Nossa Lei da Anistia
e a infame tentativa de esquecer feridas e igualar desiguais

No final do regime de exceção iniciado em 1964 no Brasil os militares, ainda no poder, gradualmente programam sua saída e concedem a todos os envolvidos em "crimes políticos" a anistia "ampla, geral e irrestrita" em lei que livrava tanto a cara daqueles por tanto perseguidos pelos fardados quanto dos próprios agentes da exceção, da tortura, da Ditadura. Hoje se debate pela revisão na interpretação dessa lei. A tortura, segundo alguns tratados internacionais que o Brasil assina, é um crime lesa-humanidade imprescritível, ou seja, deve ser punido mesmo 20 anos depois de ter acontecido.
Os lados se acirram e aqueles que defendem o tampão na memória seguem pelo argumento da segurança jurídica, da prescritibilidade do crime no sistema jurídico nacional e de uma pretensa eqüidade entre aqueles que cometeram os chamados "crimes políticos" pelo lado da Ditadura e aqueles que resistiram a ela, os tachados "terroristas", que praticaram atos como seqüestros, por exemplo. Nesse último recurso se coloca que se a lei for revista para o lado dos torturadores ela também deve ser flexibilizada àqueles que cometeram tais crimes, por estes também serem atos de violência igualáveis aos cometidos pelo Regime Militar, de mesma gravidade.
Esse assunto é muito importante pois nos lembra que nem sempre com a lei vem o que é mais certo ou o que é justo, e que muitas vezes dá pra ser perverso e completamente injusto seguindo e obedecendo a todos os diplomas legais. Todos esses institutos jurídicos, devemos lembrar, são invenções nossas - são abstrações que podem muito bem ser véus ilusórios se não nos atermos ao conflito de fato, ao que está em jogo não só no mundo jurídico como no mundo concreto. O direito não é nem nunca foi força-motriz de nada, dele, ou de dentro dele e de seu amado dogma do "estademocrátidedireito", não sai nem nunca sairá nenhuma das grandes conquistas que já foram alcançadas pelos movimentos sociais populares que lutam por direitos humanos e sociais. O direito, no limite, efetiva conquistas depois de muitas pressões sociais, e por isso aquelas argumentações que ficam só no plano do direito perdem o chão e se mostram completamente mancas pois não contam com a base essencial de uma análise completa das nervuras sociais afetadas pelo conflito e sobre o que cada um ganha e perde com a decisão X ou Y.
É evidente que a questão não é simples, se o fosse já teria sido resolvida, até porquê questões que envolvem o embate de forças reais que agem na sociedade nunca são simples. O porém é que muitas vezes é alegada uma complexidade para colocar os defensores da punição aos torturadores como ato de revanchismo e simplismo intelectual, reducionismo autoritário. Não é revanchismo, não é simplismo ou reducionismo e nem é complexo para aqueles que foram torturados barbaramente por se insurgirem contra um Estado que matava, censurava e calava em nome de todos nós, dizer que aqueles que os torturaram devem ser punidos por isso. A complexidade vai até o ponto em que pensamos em que existem diferenças qualitativas gritantes que afastam os argumentos da prescrição e principalmente aquele da "flexibilização" da Anistia para ambos os lados.
No que diz respeito à prescrição, entrando no mérito jurídico, pois apesar deste campo não ser o da discussão principal nem prover os elementos mais caros ao debate ele faz sem dúvida uma mediação importantíssima, ela é um instituto pensado conforme algumas problemáticas determinadas, óbvio que dentro do que são abstrações jurídicas típicas. Ela existe por conta de que: (1) depois de um bom tempo cessaria o interesse social na resolução daquele crime se nada se apurasse, e; (2) depois de um bom tempo a identidade do réu é transformada, ele não é mais aquela mesma pessoa que cometeu o crime. Nessa questão é essencial que pensemos que o interesse social nesses crimes cometidos pelos agentes da Ditadura é completamente excepcional comparado à daquele crime passional cometido na esquina - estamos tratando aqui de questões de Estado brasileiras, de crimes cometidos em nome de todo o nosso povo, e negar que existe um interesse social ainda latente nessa memória, e não de um grupo de lamuriadores solitários, é tapar o sol com a peneira. As manifestações de setores inteiros do Ministério da Justiça e da Secretaria Especial de Direitos Humanos provam que não é um grupelho que isso reinvindica, mas sim segmento importante da sociedade brasileira. Segunda questão sobre a prescrição é que os réus se beneficiaram grandemente com a conjuntura política no cenário da promulgação da lei, que foi feita ainda durante o Regime Militar, de cima para baixo. Será que as identidades mudaram tanto assim? Muitos, muitos mesmo, ainda continuam sustentados pelos impostos de milhões de brasileiros.
E, por fim, a triste tentativa de igualar e justapor como idênticas coisas completamente desiguais. É completamente descabida a colocação de que a flexibilização da interpretação da Lei da Anistia deveria servir aos ditos "terroristas" que cometeram "crimes políticos igualmente violentos". Devemos enumerar as diferenças qualitativas: (1) Não podemos chamar de "terroristas", meros criminosos, se pensamos que aqueles que resistiam agiam no único direito que lhes fazia sentido, um Direito de Insurgência contra um Estado Assassino de Direito, que caçou como um lobo faminto todos aqueles que se levantavam contra suas atitudes. Esse direito não é uma invenção e sim uma construção histórica que remonta os clássicos políticos - temos direito de nos rebelar contra um Estado que quebra o pacto e que se volta contra as nossas liberdades que ele deveria garantir, diz Rousseau; (2) É inegavelmente qualitativa a diferença daqueles que cometem atos de violência sob o manto do mando do Estado, em nome de todos, àqueles que agem com violência para resistir e lutar contra o mesmo - essa qualidade de estar revestido da autoridade do monopólio legal da força é crucial e esse mérito contribui para percebermos a incoerência de igualar o que é materialmente desigual; (3) Os membros da resistência, os ditos "terroristas", nós sabemos os nomes de todos. Não sei o nome de nenhum torturador-geral da república do Regime da Revolução de 1964. Isso representa que alguma coisa não é tão igual assim; (4) É muito diferente o fato que as medidas de violência do lado da resistência democrática foram exceção da regra e do lado da Ditadura foram a regra da exceção. É cruel e sem cabimento igualar a violência do opressor, ainda mais sendo ele o Estado, à resistência enérgica do oprimido.
A diferença nas qualidades das situações analisadas nos leva à discussão de mérito e coloca em xeque a tentativa de deixá-los aparentemente idênticos como simples atos de violência, que se equiparam e se anulam. São coisas diferentes no mérito e devem ser tratadas como diferentes. Lembremos que essa não é discussão técnico-jurídica, é discussão jurídico-Política, assim, com "P" maiúsculo.
Sempre fazem alarde com os princípios da democracia brasileira. Acho que um deles, importantíssimos para tanto saldar dívidas com o passado como para bem-resolver o futuro e condenar de vez momentos históricos lamentáveis, é um princípio do direito à memória, do direito à história. E é história de nosso país que houve Ditadura e que ela, por meio de seus agentes torturou Fulano, Beltrano e Sicrano que resistiam à idéia de um regime de exceção onde poucos decidiam por muitos rumando o Brasil numa trilha de desigualdade e fissura social. O medo e a falta de vontade em punir os torturadores é aliada do esquecimento e do tampão histórico e, comos disse Silas Cardoso, esquecimento tem lado claro determinado na correlação de forças sociais que agem em nosso país.
Rápidas XV

1. Catracasnasarcadas
A cruzada do diretor João Grandino Rodas para a aprovação do pacote de "medidas de segurança" na São Francisco vêm acompanhada de uma ânsia por "racionalizar" espaços estudantis, ou seja, utilizá-los para a promoção de uma marca, a saber, a Livraria Saraiva. Boatos rolam soltos por essas bandas que o diretor já selou um acordo com a Livraria para a utilização dos espaços do SAJU e da Atlética. É ver para crêr, lembrando que ano que vem tem eleição para reitor na USP e todo mundo sabe quem quer sair candidato.

2. Anistia?
Setores do governo se movimentam a favor da revisão da interpretação da chamada "Lei da Anistia", promulgada ainda no fim do regime militar brasileiro. Os ministros Tarso Genro (do Ministério da Justiça), por intermédio da Comissão de Anistia do MJ, e Paulo Vanucchi (Secretaria Especial de Direitos Humanos) promovem um debate acerca da punição dos agentes torturadores da Ditadura Militar, baseados nos inúmeros tratados de Direito Internacional dos quais o Brasil é signatário que colocam a tortura como crime lesa-humanidade imprescritível (no juridiquês aquele crime que não prescreve, ou seja, que sempre pode ser punido, independente quanto tempo passou desde sua consumação), que, portanto, não seria passível de Anistia. Do outro lado os militares e setores conservadores falam de revanchismo, de segurança jurídica e do fato que "bom, se vai flexibilizar tem que flexibilizar para aqueles 'terroristas' que cometeram crimes graves também, como seqüestro" (tentando equiparar a tortura cometida por agentes do Estado a crimes cometidos por grupos de resistência ao Regime Militar).
Esse debate é muito importante. Ele é o debate do direito de um país à memória e deve ser feito com muita atenção.

quinta-feira, agosto 28, 2008

37.

Grades, alambrados, câmeras e catracas sempre foram assunto recorrente aqui no Palavras, principalmente quando eu falava sobre meu ex-colégio. Primeiro tratei disso na parte três de "Palavras de Ordem", o texto, na seção "Arqu
itetura da destruição". Depois escrevi mais sobre grades em "Pedagogia do enjaulamento" e em diversos outros posts mais rápidos. O que eu nunca tinha pensado era que eu ia acabar escrevendo sobre as mesmas coisas, só que desta vez elas não estão presentes no meu passado cotidiano de colégio particular, mas no meu presente dia-dia de faculdade pública.


CatracasnasArcadas I

Angústia
Nesse mês chega à Congregação da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo para aprovação a proposta de permissão de "reforços na segurança" da dita Faculdade. Um pacote composto por catracas que controlariam as entradas, câmeras de vigilância e outras medidas aparece nesse momento com apoio veemente de muitos professores e visa combater "falhas na segurança do prédio", segundo eles evidenciadas por alguns fatos de violência como furtos, um assalto e algumas outros tipos de ocorrências. Essa proposta é encabeçada pelo diretor da Faculdade, o professor João Grandino Rodas, já notório por ter inaugurado a recente tradição de truculência no trato a estudantes e movimentos sociais.

Catracas
Uma catraca faz a mediação de uma decisão de quem entra e quem fica de fora. É uma máquina que lendo um código, um número ou uma identificação qualquer permite a entrada de alguns e barra outros. Decidir vem do latim decidere, que significava "cortar", "dividir". De fato - esse aparelho divide o espaço em dois - um público, a rua, e um menos público (eufemizando). Ele devidamente corta a realidade em dois pedaços e aliena uma das partes para um grupo restrito de pessoas que daquele local/aparelho urbano podem usufruir sem serem incomodadas pelo resto excluído.
Isso sem dúvida tem uma carga de violência pois é uma das representações físicas, arquitetônicas, de uma situação na qual se arranca de muitas pessoas até mesmo o pode pensar em entrar naquele lugar sem sofrer represálias. Não só o dito prédio mas toda uma comunidade, com o intuito de se proteger e de melhor se controlar, instala catracas para isso.
Então o debate sobre catracas e sua função se coloca então em dois planos de discussão, que se diferenciam apesar de fazer sentido tratá-los de maneira paralela pois não há aporia completa entre os dois campos. O primeiro é o conflito entre a segurança dos membros da comunidade-prédio e o seu caráter mais ou menos público. O segundo é sobre como reivindicamos a palavra controle - se ela somente significa eficiência ou se também pode ser identificada como dominação - pois evidentemente a função da catraca, o motivo alegado para aquele objeto lá estar, é essa palavra, controle.
O primeiro debate é levado de um lado a outro rapidamente conforme o caso concreto, conforme a comunidade-prédio que estamos analisando. Muda o valor da segurança e do caráter público para aquele edifício e na relação deste com o todo social que o circunda se ele é um lugar onde se realizam trocas comerciais, se ele é um prédio de apartamentos ou se nele se instala algum órgão da administração pública municipal por exemplo. Faz mais sentido que se dê mais valor à segurança mais do que à publicidade de um edifício residencial, dado que a casa das pessoas é um ambiente historicamente construído sob um invólucro de privacidade e aconchego. Sem fazermos juízos de valor se essa privacidade é positiva ou negativa o fato é que cada comunidade-prédio tem um signficado e sem reflexões sobre seu conteúdo fica difícil de dimensionarmos o que representa segurança para uma comunidade em abstrato. Entretanto é possível afirmar que se crescem o número de catracas (em abstrato, independente da qualidade dos prédios que elas foram implantadas) cresce o valor da segurança e diminui o do chamado caráter público.
Vale lembrar que esse caráter público congrega muito além do simples direito de circulação de pessoas por aquele prédio, mas como o seu direito de manifestação nele e seu convívio com os habitantes cotidianos que ali desempenham papéis ou funções. Se fazemos a escolha por determinar menos público um espaço a noção de exclusão daquela experiência está implícita, mesmo que a exclusão não seja propriamente sentida na mente do excluído (uma pessoa que não tem o crachá para entrar num prédio de escritórios está excluída da experiência de estar lá dentro, mesmo que não queira estar).
O debate sobre o controle tem genealogia acadêmica longuíssima e aqui não vale a pena lembrar todas as acepções teóricas dessa palavra; o que cabe expor nesse caso é que aumentando o controle queremos em alguma medida aumentar a eficiência de algum processo, especialmente de produção, e, em decorrência casada temos o aumento da dominação que se impõe dos condutores sobre os conduzidos dentro do próprio funcionamento da produção, por exemplo. Nem sempre a eficiência aumenta, mas é certo que a dominação sim. Dominação dos que tiveram o poder de decisão de instalar a catraca em relação àqueles que foram submetidos à ela; da vida que acontece naquele meio; dos papéis que ali são distribuídos; e, porquê não, dominação demonstrada e explícita de um pequeno território, privado do convívio do público. Aí localizamos uma relação de poder, de autoridade, apesar de todos estarem submetidos ao próprio controle.

Na universidade. Na faculdade.
Toda instituição de ensino é influenciada por sua arquitetura. O espaço físico, a disposição professor-aluno (ou educador-educando) media a educação tanto quanto a qualidade dos colegas de classe, a linguagem e a didática do professor e seus recursos, mesmo que de sua maneira peculiar. O ponto é que se pensarmos que numa arquitetura na qual, de alguma maneira, forma segue a função, uma faculdade que busca cumprir a função de produção do conhecimento de uma maneira determinada terá também a sua forma determinada por essa maneira de desempenho de sua função concedida por definição. Uma universidade que cumpre um papel de formação mais multidisciplinar será aquela que também consiga promover uma integração espacial entre os prédios dos cursos e que consiga que o corpo discente migre de um para o outro, montando seu próprio currículo, por exemplo. O espaço e seu uso não é determinante, mas ajuda, condiciona, revela e cria terrenos férteis para diversas atitudes pedagógicas. O contrário também ocorre - conseguimos muitas vezes diagnosticar no espaço tendências nas transformações destas atitudes.
Tendo isso em vista percebemos que o impacto da instalação de catracas numa faculdade (pública!), para além de trazer com força as reflexões particulares sobre o significado da catracalização (ironicamente tema da redação da FUVEST2005) dos espaços, nos deixa também o debate sobre a função da universidade pública e da produção do conhecimento científico e sobre o direito à educação.

prossegue no próximo post.

quinta-feira, maio 22, 2008

Rápidas XIII

A. Uspiano de todo o mundo - uni-vos! (II)
O V Congresso da USP já é semana que vem - é hora de discutirmos a nossa Universidade. Não deixem de participar! É fundamental estar lá a par das discussões e se mobilizando se quiseremos realmente transformar a USP da elite cafeeira da década de 30 na USP popular do século XXI.
Aliás, o evento sobre Universidade Popular que anunciei no mural foi um sucesso; agradeço a todos que compareceram. Desde a palestra do profº Zé Geraldo, passando pelos GTs e finalizando no painel de movimentos sociais conseguimos iniciar a discussão sobre a "Universidade que queremos".
A chapa "Universidade em Pauta", da qual fiz parte, conseguiu 53% na São Francisco, levando, assim, 4 delegados para o Congresso.

B. Marasmo palavrasdeordeniano
É, eu sei, a produção do Palavras já foi mais intensa. Mas é questão de tempo. A vontade de escrever vai e vem sem motivo aparente.

quinta-feira, maio 08, 2008

Mural de Eventos PdO 1ªed.

Segue convite para evento organizado na Faculdade de Direito da USP. Qualquer coisa meu email, vocês sabem, é fbritocruz@gmail.com.


Universidade Popular

13 e 14 de maio na Faculdade de Direito USP

Um projeto diferente de Universidade

Perplexos com o quadro de extrema exclusão da universidade pública brasileira e esperançosos com a chegada do V Congresso da USP, não podemos deixar de nos perguntar: qual é a Universidade que queremos, afinal?
Na busca de contribuir para essa discussão, os coletivos Dandara, Fórum da Esquerda e SAJU trazem à FDUSP nos dias 13 e 14 de maio a defesa de um projeto popular de Universidade.
Como estudantes de uma Universidade pública, cabe a todos e todas nós realizar reflexões como essas e levá-las para momentos de construção e de luta, como o V Congresso da USP.
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13.05
19h: “O que é Universidade Popular?” – Palestra com o professor José Geraldo de Sousa Junior (Direito - UnB)
Debatedores: professores Celso Campilongo e Diogo Coutinho


Contando com a participação de José Geraldo de Sousa Junior, professor da UnB e membro do Núcleo de Estudos para a Paz e Direitos Humanos, este evento buscará pautar, a partir de um observador crítico de dentro da academia, a importância dos movimentos sociais como atores jurídico-políticos e o papel Universidade neste contexto.

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14.05
Grupos de trabalho
9h: “Ensino, pesquisa e extensão” com a professora Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer (FFLCH-USP)
11h: “Fundações e financiamento”

Neste momento, nos debruçaremos sobre dois dos temas eleitos como eixos do V Congresso.

19h: “Os movimentos sociais em defesa da Universidade Popular” contribuições do MST, Educafro e Universidade Zumbi de Palmares
Para a construção verdadeira desse projeto popular de universidade, não podemos deixar de dar voz àqueles que estão de fora, querem e têm o direito de entrar.

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Esse evento faz parte do calendário de preparação para o V Congresso da USP, momento em que funcionários, professores e estudantes pararão a USP para refletirem sobre “A Universidade que temos e a Universidade que queremos”.
Em representação paritária as categorias discutirão seis eixos temáticos, são eles:

1. Educação e Conjuntura
2. Ensino, pesquisa e exten­são
3. Fundações e financiamento
4. Estrutura de po­der/Democracia
5. Acesso, permanência e ex­pansão de vagas
6. Organização da luta unifi­cada após o Congresso

Local: Sala dos Estudantes da FDUSP – Largo São Francisco, 95

Coletivo Dandara Fórum da EsquerdaTransgredindo a Indiferença! Serviço de Assessoria Jurídica Universitária – SAJU USP

segunda-feira, abril 28, 2008

Rápidas XII

A.  Uspianos de todo o mundo - uni-vos!
O V Congresso da USP vem chegando aí para unir as lutas das 3 categorias da Universidade. Os eixos temáticos "Educação e conjuntura", "Fundações e financiamento", "Ensino, pesquisa e extensão", "Acesso, permanência e expansão de vagas", "Estrutura de poder e democracia" e "Organização das lutas unificadas após o Congresso" serão pauta do Movimento Estudantil da Universidade de São Paulo durante a última semana de maio.
Vamos ficar atentos! Logo mais começa o processo eleitoral para delegados e a criação de teses!

B. Mural de Eventos do PdO
Estarei a partir dessa semana inaugurando um "mural de eventos", que é basicamente publicar convites para eventos que possam ser considerados interessantes que rolarão por aí e que eu, por intermédio do Fórum da Esquerda, organize, ajude a organizar ou fique sabendo. Em breve já posto algumas coisas...

terça-feira, abril 08, 2008

35.


Uma grande falácia perigosa

Ou como estragar o Movimento Estudantil

É interessante que na Faculdade de Direito a gente ouve muita coisa, muitos discursos meio bizarros - especialmente na chamada "política acadêmica", que é o jeito que chamam o Movimento Estudantil (ME) lá pelas Arcadas. Tem gente que prega a monarquia, tem outros que alopram geral e soltam uma publicação racista pra fazer "piada" e ainda podemos observar aqueles outros que, não tendo mais o que fazer, vão nos debates e resolvem literalmente cuspir fogo.
Claro que existem outros lados desse prisma que são mais sérios (ou que tentam ser) e que apresentam para o corpo de alunos uma proposta minimamente coesa de representação, em especial no que diz respeito à disputa política pela entidade representativa dos alunos, a saber, o Centro Acadêmico "XI de Agôsto". É rala a compreensão de que se trata de uma briga por poder, pois o conflito transcende e deve transcender o carguismo ou o oportunismo (mesmo não transcendendo às vezes) e se coloca num embate de projetos de representação e ação política perante os espaços ocupados pelos estudantes (sociedade, discussão sobre educação, ME) de Direito (debates na e da Faculdade) na USP (logo, ME da USP).
Todos esses viéses de compreensão da política estudantil encontram resposta na e da Faculdade e a influenciam e transformam de maneiras e intensidades diferentes, com orientações evidentemente diferentes. Na minha opinião algumas dessas correntes são, no mínimo, mancas e enfadonhas e, verdadeiramente, completamente tacanhas, conservadoras e subservientes à projetos de Universidade e Brasil sem compromisso com a igualdade e com a emancipação popular.

Falo especificamente de um discurso muito comum nas Arcadas caracterizado pela idéia de que o Direito pode e deve passar a ser ferramenta essencial do ME para ele se renovar perante os a atualidade e que, sendo o XI o Centro Acadêmico da Facudade de Direito, nada mais natural que esse lidere o movimento nas suas ações que encontrariam ou tentariam encontrar espaço por e pelas normas. O Direito, em todos os sentidos que cabe a expressão, transformaria a realidade e nele se daria a luta política. As leis e os procedimentos adotariam roupagem progressista e a norma seria a forma da emancipação.
Aos que pensam assim faço um desafio: que me mostrem uma situação histórica onde a mudança legal, jurídica, foi mola propulsora do movimento e da luta política e social. Provavelmente por ignorância eu vejo pouquíssimos senão nenhum exemplo. Não é possível criar regra fatalista na História sem cair em simplismos, mas é possível identificarmos tendências. O Direito não é e nunca foi meio. Ele não é e nunca deve ser fim. Ele é conquista - e só é conquista verdadeira se existem mecanismos para assim se tornar eficaz. O Direito não transforma, ele é transformado. O Direito não é sujeito transformador da sociedade, muito menos seus operadores se eles não souberem responder às demandas que a realidade traz e não se colocarem como parte dela.
Lutar pelo Direito não é fazer política "nos termos corretos" pois a política não se dá nos termos do Direito quando tratamos de vontades materiais e concretas por conquistas reais, substantivas e substanciais. O que deve ser feito pelos estudantes em sua maneira de protestar e contestar um "Estado de Direito" que muitas vezes se apresenta opressor e aliado à explorações capitalistas não está no Direito. Ele não vai dizer para que rumo temos de seguir e não é nem deve ser pauta política do movimento se tivermos compromisso com a realidade. A liberdade e a igualdade não devem se apresentar numa lógica e roupagem formal e(ou) legalista, mas de uma maneira real - até porquê só são reais se aparecem dessa maneira.
Esse jeito de pensar coloca o papel do XI como assistente jurídico externo ao ME da própria Universidade que a FD faz parte de uma cultura de distanciamento da práxis política e de ruptura com agentes transformadores e de luta que atuam na sociedade tais como movimentos sociais dos mais diversos. Esse jeito de pensar introjeta nas cabeças dos franciscanos que não fazemos parte do conflito e da construção uspiana. Subestimamos a capacidade intelectual dos outros estudantes da USP de maneira ultrajante achando que eles não sabem o que fazem e o que devem fazer.
E ainda dizem as cabecinhas protojurídicas que devemos estar um passo a frente do ME - sintomático. Para tais devemos mesmo estar um passo a frente, de preferência sem olhar pra trás para ver se ele caiu. Triste. Devemos estar do lado, em volta, na luta, na briga, no debate - nunca esnobemente na frente.
Falar que a política estudantil da Cidade Universitária é anacrônica e retrógada é recorrente nesses hermeneutas peculiares, mas não consideram como tal prática "caduca" conseguiu conquistar diversos pontos de extensa pauta numa atitude que foi feita à sua revelia e eles tiveram que tolerar pela vitória - a Ocupação da Reitoria de Abril/Maio/Junho de 2007. Paradoxal declarar que uma coisa hoje não dá mais certo se ela deu a menos de um ano atrás.
É a velha discussão do retorno do "Onze Grande". É o desejo de voltar a ser "o" CA, de estar por cima da carniça. Do XI voltar a brilhar. O XI não tem que e nem vai brilhar por estudarmos Direito. Seremos burros ao ponto de perceber que o passo a ser dado na política estudantil da São Francisco não é nos enveredar pelo caminho inútil e obtuso do Direito e sim engajar-se na construção de uma USP mais democrática, inclusiva e que responda às demandas populares?

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Rápidas X

1. Lembrete
O texto n°32, só para lembrar, é "bastante" antigo se comparado à todos os outros. Resolvi lembrar isso mais por achar que isso teria que ficar bem claro tal como o porquê de postá-lo. É um momento que o pensamento estava em sua fase de desenvolvimento mais inicial.

2. Novos rumos?
Chegou em mim a notícia que o colégio contratou um renomado arquiteto italiano para cuidar de sua programação visual-arquitetônica-espacial, depois dos seguidos golpes de picareta desferidos por engenheiros bem-intencionados contra a obra de Tibau.

3. De volta ao Largo em breve
E daqui a alguns dias voltarei às aulas com novo ânimo e com novos calouros. E com novíssimos assuntos.

quarta-feira, outubro 31, 2007

23.

Estava a algum tempo para escrever algo sobre o que vem acontecendo comigo na Faculdade. Durante todo este ano questionamentos profundos caíram sobre mim e recentemente tomei a decisão de entrar num grupo chamado
Fórum da Esquerda. Este texto é dedicado à este grupo e à minha decisão. Não é uma tentativa de justificativa e sim algo bem mais importante que isso. Espero que gostem.


A importância do engajamento

"Cuidado, Chico, muito cuidado com eles", era o que falavam todos os meus conselheiros sobre os membros de grupos de política acadêmica - em especial os de esquerda. O medo dos vermelhinhos foi fomentado em mim mesmo antes do dia da matrícula e por isso o meu relacionamento com este plano de espaço político já começou com um pé atrás. Por um lado existia a exaltação de uma ágora presente, latente e consistente na São Francisco mas por outro o alimento de um desdém, um desprezo em relação a atualidade deste espaço.
Pesando isso fui muito cauteloso. Não queria tomar nenhuma decisão errada, nenhuma que eu pudesse me arrepender. Não queria decepcionar as pessoas que mais me contavam da Faculdade, de suas histórias e tradições. Não podia desconsiderar seus conselhos afinal conheciam aquele ambiente a mais tempo que eu e sempre considerei seu bom senso e sua inteligência. E assim meu ano de calouro foi passando, passando, passando. Passou a ocupação, a greve, o primeiro semestre. Nem sei quantas vezes neste período minha visão mudou de lado e a complexidade das questões sobrevoava minha mente induzindo uma espécie de paralização de congelamento. Eu pouco sabia o que fazer e o que apoiar. Comecei a perder as bases. Ora criticava e ora elogiava as atitudes de ambos os lados das polêmicas. Acumulei bagagem e principalmente realizou-se em mim um começo de uma sedimentação política mais séria, claro que ainda meio manca.
E veio o segundo semestre e com ele uma carga muito mais intensa de vida acadêmica. A ocupação de 22 de agosto. A Assembléia Geral Extraordinária e a "destituição" do presidente do XI, Ricardo. O tanto de energia e razão que eu tinha recuperado nas férias eu perdi e num dia que buscava clareza sobre minhas opiniões e princípios escrevi um texto sobre tais fatos, publicado aqui mesmo neste blog. Creio que este texto foi o início não de uma clarificação propriamente dita, mas de um processo de exposição a mim mesmo de como algumas coisas mereciam sua devida atenção. Alguns integrantes daquele grupo do qual eu tinha medo mas de certa maneira defendia no texto leram aquilo que eu tinha escrito e gostaram. Comecei a considerar seriamente sobre eles, sobre as suas atitudes. Não que eu tenha colocado num pedestal as atitudes do Fórum da Esquerda este ano, muito pelo contrário, as coloquei sobre uma lente de pesada crítica pessoal. Neste momento despontou em mim um intenso sentimento de admiração. Sério e profundo este sentimento ajudou-me a verificar que via neste grupo qualidades que eu considero louváveis e essenciais na vida política; coragem, senso de justiça, ideais sólidos e acima de tudo um comportamento de projetar-se sobre algo, de tomar posição.
É neste ponto que quero me ater, no engajamento - porque de fato tomei a decisão de participar deste grupo, de vestir esta camisa.
Baseei-me tanto no ideário que percebi como também em atitudes individuais e coletivas deste grupo e disso posso tirar algumas conclusões. Não venho aqui me justificar como alguma criança que fez levadeza, malcriação, até porque não acho que o que fiz foi algo parecido com isso nem muito menos quero aqui adotar uma atitude prepotente de salvador da pátria de ter entrado numa equipe de anjos salvadores da Terra dos homens comuns. O que desejo é relevar a importância do meu questionamento e dizer que depois de ter o feito concluir que sim, eu fiz a escolha certa, e disso me orgulho. É claro que neste ponto cabe ressaltar a importância do uso da expressão "escolha certa" não como sendo algo dogmaticamente eterno mas sim como um importante passo num processo pessoal. Amiga minha disse-me que em seu processo de entrar no grupo foi aconselhada que talvez fosse mais difícil se travasse uma batalha consigo mesma ao invés de toda a Faculdade se não fizesse essa escolha e é justamente isso. O fazer, o engajar-se, para então poder questionar, criticar, levar porrada e construir junto. A crítica de fato é tão importante quanto propriamente a decisão pois é nela que o grupo cresce e é com o constante movimento interno que os sentimentos e as idéias amadurecem e se tornam cada vez mais sólidos, coesos e coerentes - e mais suscetíveis a mudanças também, claro.
Não me importa se ganhamos ou não estas eleições que disputamos. Para mim isso não é tão importante quanto o fato de neste momento eu ter percebido que minha vida nunca mais será a mesma. Esta semana una e poderosa conseguiu mudar toda a minha concepção da Faculdade e me fez perceber que por mais que tenha sido importante todo o processo de ruminar este alimento político engoli-lo é o momento crucial, foi o momento crucial.
Um veterano de outro partido me perguntou o porquê eu estava vestindo aquela camiseta vermelha em um dia de votação, caçoando de mim. Sério eu pensei e rapidamente todas estas questões me passaram pela cabeça: valia a pena bater de frente com pessoas que eu tinha aprendido a gostar para esses ideais e este programa defender? Valia levar inúmeras patadas e esforçar-se para não perder a postura após ser surrado numa roda de conhecidos por visões políticas irredutíveis e contrárias? Ponderei alguns segundos. Aquele veterano representava tudo o que me fazia ter receio de vestir a camiseta vermelha, todos os poréns e os contras que eu estava adotando e sofrendo. Depois de assim considerar soltei: "Visto pois prefiro tomar uma posição". Nesta afirmação respondi para mim mesmo que sim, valia sim a pena sofrer de tudo por aquilo. Era o que eu acreditava e acredito. O importante não é só pensar e se dizer algo e sim efetivamente entrar de cabeça e se projetar neste ideal, mesmo que a piscina seja rasa e possa doer.
Se eu começar a tentar explicar toda a importância existencialista do engajamento vou acabar fazendo uma paráfrase ridícula de Sartre mas tenho de afirmar (o menos pretenciosamente possível) que muito nele pensei durante as minhas ações desta semana passada. É nas ações e nas escolhas que o homem se constrói e quando escolhe para si algo escolhe para toda a Humanidade. Por mais chavão que isso pareça eu acredito. O lado que eu escolhi eu escolho para todo mundo, mesmo. Deste modo faço uma escolha e me engajo e é importante que essa escolha e esse engajamento não sejam cegos e creio que não o são. Considerando que pensei nesta possibilidade durante alguns meses não posso deixar de dizer que não foi uma decisão feita guiada pelo sentimento até por que é nas escolhas, nos atos praticados, na ação, segundo Sartre, que ele se constrói. Foi uma opção autenticamente genuína mas nem por isso burra, cegamente idealista ou perenemente teimosa, eterna.
Os vermelhinhos são perigosos como me diziam? O engajamento pode ser perigoso mas não é por isso que temos de ter medo ou receio dele e é isso que as pessoas que afirmam a invalidade da prática vermelha sentem. Medo, receio e egoísmo foram os sentimentos que levaram o Fórum a perder as eleições - não qualquer estratégia política. Medo de encarar o confronto que é perigoso sim, perigoso por destruir, desconstruir toda uma base política que trazemos de casa, de bagagem. Covardia reducionista de achar que a matrícula da Fuvest é uma escritura de propriedade da Faculdade. Receio de abrir uma porta que pode mostrar o que temos de mais podre, receio de fazer autocrítica. Hipocrisia de declarar-se muito partidário da justiça social e blábláblá, mas revelar em seu voto intenções de continuidade de opressões e omissões corrosivas. É evidente que temos de tomar cuidado com generalizações e considerar o processo pessoal de aceitação da idéia de cada um e o respeitar. Nem todos os que não se engajam o fazem por medo e existem questões e mais questões envolvidas nisso mas o que trato aqui é o impacto e o existente enorme valor que isso tem em uma vida, no caso, a minha. De qualquer maneira podemos confirmar que os vermelhinhos são perigosos e que isso é bom.
Lembro aqui só a questão da individualidade inserida na coletividade e como essas duas entidades andam juntas na construção de uma parceria vantajosa de ambos os lados. A balança nunca deve pesar demais para um dos lados que o outro é prejudicado e é importante lembrar que há momentos - uns para uma dedicação quase-exclusiva ao grupo e outros para uma instrospecção e reflexão também claramente importante até mesmo para uma saúde do coletivo.
Estou feliz no Fórum da Esquerda. Conheço muito pouco de todos os seus integrantes profundamente, é verdade, e muito pouco dos problemas que todo grupo tem. Não acho que estar desse lado é fazer parte de algum exército da perfeição ou algo parecido, longe disso. É saudável que um grupo se questione e que nele, dentro dele, haja constestação, questionamento e crítica - senão esse grupo não anda, nem para frente, nem para trás - e não andar é sinônimo de engajar-se em não engajar-se, certo? Sinônimo de optar por não escolher o que é também uma escolha que anda lado a lado com uma engajamento envergonhado maquiado de indiferença. Apesar disso percebo que faço parte de algo e este algo faz parte de mim. Não é carência ou modismo como podem acusar alguns e sim uma profunda identificação e admiração.
O acolhimento que tive é também motivante para um agradecimento. Sei que o sonho não irá acabar com uma derrota que no fundo eu sabia que era provável que sofrêssemos e sei que o mais importante não é isso. Vão me acusar de fazer juízos de valor mas respondo que em algum momento da vida quando definimos os nossos princípios algumas questões axiológicas vêm e não podem ser deixadas de lado. O importante é que, como eu já disse, escolhi por mim e por todos os homens algo que eu considero não só belo mas correto, justo, digno e bom. O importante é, também, que eu não estou sozinho. Obrigado, amigos, e, agora, companheiros.

segunda-feira, outubro 08, 2007

20.

Este texto foi reduzido para a a publicação n'O Pátio, o jornal acadêmico da São Francisco.

O caldeirão e sua vergonha

Lamento por esta situação limite que passou o colega Luciano Huck. Ilustre companheiro das Arcadas, Luciano não merece ser assaltado e assustado como foi, ninguém merece. É evidente que a atitude de seus algozes é criminosa e esse passa longe de ser o mérito deste texto. O problema é que o global “cansou” e decidiu “desabafar” na Folha de S. Paulo. Sinceramente achei triste - quiçá ridículo.

Começa sua análise imaginando o que ocorreria se o pior tivesse acontecido e depois dessa mórbida descrição começa a se questionar e se mostrar indignado, desesperado por soluções – aí começa o problema. É fatal quando faz a conexão "pago todos meus impostos, uma fortuna" com "como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa". Esta conexão argumentativa representa a chave para o entendimento do pensamento do apresentador. Seu raciocínio simplista e desesperado pára quando acaba seu interesse e este é estritamente pessoal. Bradando clichês e lugares comuns confunde cidadania com o simples ato de pagar "tudinho" de seus tributos - desprezando o resto das acepções da palavra. Como Luciano conseguiu realizar algumas matérias na faculdade com tanta dificuldade em definir conceitos básicos?

“A situação de São Paulo está ficando indefensável" diz ele em mais uma colocação indevida. Para Huck a situação de São Paulo não "está ficando indefensável" e sim ficou indefensável de uma hora para a outra devido a algo que lhe aconteceu. Este é indício da perspectiva individualista do pagador-de-impostos-cumpridor-de-seus-deveres Huck que tudo resolve com a cívica (ou seria cínica) pergunta clássica de um pretenso jogo de esconde: "onde está a segurança no nosso país? Onde está a polícia? Onde estão os heróis que tem de nos salvar?!". Não vem nenhum não, Luciano, não tem, não existe herói assim. Mas ele quer é a polícia mesmo, a "Tropa de Elite", para resolver seu problema do assalto de motocicleta nos Jardins agora, já, em 30 dias. Quer discutir segurança pública de verdade dizendo isto? Boa, filhão. Não sou nenhum perito no assunto mas imagino que a violência urbana não pode ser resolvida com seriedade em 30 dias a não ser que a idéia de Luciano seja cercar os Jardins com um imenso muro lotando o bairro de tanques de guerra e viaturas policiais. Não acho que ele acharia má idéia. De fato, Luciano: talvez seja a hora de construirmos o muro. Neste ponto é feliz a observação de um leitor da Folha que no dia seguinte da publicação do artigo que Huck afirmou que este poderia ter sido mais direto e perguntado estaria a Tropa da Elite.

Aí encontro um parágrafo cômico em meio a toda esta aguda e inteligente análise política do nosso complexo país. O amigo exacerba sua missão social de apresentador de tentar fazer este país se tornar mais “bacana” divertindo na TV e trabalhando na direção de uma ONG séria. Huck se diz alguém que não está indignado com a perda de seu rolex, mas sim como uma pessoa que "de certa maneira" dirigiu a sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais eqüilibrado e justo. Admira-me a maneira que este o faz. Seu programa realmente detém os aspectos mais maduros da TV brasileira e engrandece o povo tornando o Brasil mais bacana. Sinceramente. O "Caldeirão" é o que existe de mais imaturo na TV brasileira e representa a nossa ânsia de se alimentar com uma cultura que mais parece uma massa disforme verde-acinzentada que é amontoado de sexo, fofoca, sexo, música subformada, repetitiva e sem nenhum conteúdo, sexo, entretenimento importado americano, sexo, pernas e seios femininos, sexo e uma pitada de humor zorra-total. Triste que Huck ache mesmo que está construindo ou contribuindo para construir um cenário mais justo ou maduro no nosso país. Ele é provavelmente um visionário; ele e a Dani Bananinha.

Ah! Mas ele mantém uma ONG séria! Ah, ok, a cidadania não é só pagar impostos, é também ser obrigado a ter uma ONG-desencargo-de-consciência. Faço das palavras de Thiago Candido da Silva, diretor do DCE livre da USP, as minhas: "A solução não é a repressão, e sim a distribuição maior de renda e de oportunidades. E não é meia dúzia de pessoas em curso de cinegrafia que irá mudar a situação". Que eu saiba bailes ou leilões (d)e caridade nunca conseguiram resolver essencialmente qualquer problema social mesmo porque se o tivessem conseguido não teríamos mais uma dezena deles por semana nas colunas sociais. E fazer parte disso não te dá carteirinha cativa de cidadão.

Seguindo o global constata debilmente uma afirmação genuína: a existência de desigualdades no Brasil. Pergunto-me se não deveríamos conferir a este genial pensador alguma espécie de prêmio por constatar algo tão inédito. Parabéns Luciano, descobriu a América.

"Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia?". Luciano Huck está à procura de um salvador da pátria e isso me dá medo. Não imagino o que ele tem na cabeça quando diz isto. É o velho personalismo político brasileiro que desconsidera a existência da política das idéias e não das pessoas em sua acepção mais bela? Ou seria um neomessianismo estilo Canudos? Não vai ser um "salvador" que resolverá o problema de nossa pátria, caro amigo.

E não é só esta afirmação de Luciano Huck que me assusta. Ainda pergunta qual seria a lógica de algumas coisas dentre elas "um par de 'extraterrestres' fortemente armados desfilando pelos bairros nobres de São Paulo" e isso me parece a mais simbólica e forte afirmação do apresentador do "Caldeirão" no que diz respeito à natureza simplista e arrisco dizer elitistamente tapada (pois acredito que é possível talvez um pensamento elitista menos imbecil, sem entrar neste mérito) do seu ideário. Usar a expressão "extraterrestres" o denuncia completamente e mostra como Huck deseja que o muro seja construído o mais rápido possível e que os seus assaltantes fiquem bem enfiadinhos no barraco onde nasceram vendo seu programa e mandando cartinhas para terem o carro reformado. Em vez disso ficam “desfilando” fortemente armados pelos bairros que não os pertencem – crime! Que chamem a "Tropa de Elite” e seu fascista capitão Nascimento.

Nosso colega não deseja a solução mais justa, mais madura ou mais "bacana" para nosso país e sim a mais adequada e mais "bacana" para ele próprio, a mais rápida, o muro. O franciscano Huck está envergonhado de ser paulistano? Deveria estar, em vez disso, envergonhado por ser Luciano Huck depois de escrever tamanhas bobagens. A mistura deste caldeirão passou do ponto.

domingo, outubro 07, 2007

19.

O caldeirão não tem mais vergonha

"O apresentador Luciano Huck diz que as reações negativas a seu desabafo depois de um assalto partiram de quem não conhece a periferia" Subtítulo da entrevista de Luciano Huck à Veja deste sábado 6 de outubro de 2007.
Ele falou de novo, o Luciano Huck. Vocês desculpem a minha obcessão contudo não posso deixar de lado as palavras de um senhor que além de ter cursado pelo menos algum tempo da mesma faculdade que eu ainda esteve no mesmo colégio que eu. Espantoso.
Fiquei muito confuso quando li a entrevista de Huck à Veja neste sábado. O global falou bonito sobre a importância da educação para o país e que todos temos que fazer alguma coisa. Dissertou sobre a importância de não termos um estado penal e sim um com enfoque na educação, com enfoque em projeto para a educação. É o "Cristovam Buarque" do "Caldeirão" que não está nem aí para as bobagens que falaram. Disse já foi milhares de vezes mais para a periferia para gravar quadros de seu programa e passa de carro com vidro aberto na Rocinha. Ele afirmou que ouve, ouve muito, e conhece a realidade brasileira.
Não sei se vale a pena ficar falando sobre esse meu colega. Para mim é evidente que esse discurso não passa de uma bem-feita pasteurização das besteiras que Luciano Huck escreveu e nada mais porque continua fazendo uso de lugares comuns, de máximas, assim como todo entendedor-de-tudo. Se travestiu agora de justamente o que buscava no artigo, de salvador da pátria. Não acham? Olha a cara dele na foto que eu coloquei aqui para vocês verem.
Em vez de procurar respostas nessa entrevista o nosso herói nos dá, e é por isso que eu fiquei confuso. No lugar de perguntar ele responde e vejam só que instrutivo, responde com coisas que quem tem o mínimo de discernimento já sabe sobre o nosso país: é evidente que precisamos democratizar o acesso à educação. Claro que o filho do assaltante tem de ter oportunidade de entrar na faculdade que quiser, isso é óbvio. Huck agora quer posar de bom-moço, de bastião da razoabilidade. Para mim Luciano não passa de um hipócrita.
Como tem coragem em falar de educação conduzindo seu programa desta maneira? Como tem a panca de vir dizer que conhece mais da realidade brasileira do que qualquer um que o criticou? Este homem que trabalha para a Globo tem a pachorra de vir falar em mudança social?
Seu programa e suas atitudes como homem público só vem contribuir para o estado aleijado que nosso país se encontra, aleijado justamente do que ele pede, educação. Não cabe aqui descer a lenha no "Caldeirão" mais uma vez mas me indigna este vendedor, que é exatamente o que Huck é, um vendedor de produtos muito hábil, vir aqui dizer disso tudo.
Luciano você pode ouvir o quanto você quiser, não vai resolver o problema. Pode fazer quantas ONGs quiser, não vai resolver o problema. Enquanto você não perceber que trabalha para o contrário do que deseja estará remando com um cabo de vassoura, sem sair do lugar.
Das duas uma: ou Luciano Huck está no lugar errado e mal-instruído não passando de um ingênuo bem-intencionado ou tudo o que disse de fato é uma pasteurização e o que deseja realmente é um estado policial, que o cap. Nascimento de "Tropa de Elite" construa um muro em volta de sua sociedade perfeita.

Ainda estou sobre isso matutando. Não acho que este texto tenha ficado especialmente bom. Me sinto como um peixinho dourado que caiu fora do aquário - realmente sinto-me confuso com esta entrevista, me debatendo comigo mesmo para tentar verificar em ponto este colega me pegou, porque ele me pegou em algum ponto. Ainda me sinto driblado. Tento me sentir superior, é inútil, não o sou. Preciso de uma dose de autocrítica, talvez realmente eu seja um mané como ele disse.

terça-feira, outubro 02, 2007

18.

Acho que nunca escrevi aqui em PdO qualquer texto que tratasse de assuntos de ordem nacional. Todos os escritos que acabei de rever são sobre o cotidiano escolar, a juventude, a universidade - nunca seriamente sobre algo de importância e interesse comum a muita gente. É verdade que a greve e a ocupação de maio na USP ocuparam uma parte significativa dos noticiários mas tenho de dizer que era meu dia-dia; estava lá. Se eu nada falasse seria omisso, penso. Porém não me atrevi a dissertar sobre o Lula, sobre o Renan ou sobre qualquer tema da política nacional. Acho pretenciosa e ambiciosa tal tentativa e creio que sobraria leviandade se eu o fizesse. Deve ser medo e é bom que este aqui tenha lugar e eu seja contido de falar bobagens sobre assuntos que merecem ser tratados com um entendimento de uma complexidade que eu ainda não consigo apreender.
Entretanto surge algo nesta segunda-feira (1º/10/2007) que desperta profundamente meu interesse e minha vontade de escrever. É possível que seja algo ainda limitado mas de fato é o mais longe que me permito ir em análises de cunho externo (em relação ao toque do meu olhar). Um colega acadêmico do Largo sofreu uma situação limite em sua vida e em um jornal de grande tiragem fez um desabafo. Seu nome: Luciano Huck. A história foi essa. O desabafo está aqui (quem não conseguir acessar mande-me um email em fbritocruz@gmail.com que eu mando o texto na íntegra). Comentarei o texto de Huck - veremos do que ele e eu somos capazes.


O caldeirão e sua vergonha

Lamento muito por esta situação limite que passou o colega Luciano Huck. Companheiro das Arcadas, o apresentador paulistano não merece, assim como ninguém merece, ser de tal maneira achacado, roubado, importunado de maneira tão violenta e medonha. É evidente que a atitude de seus algozes é criminosa e esse passa longe de ser o mérito desta discussão. O problema é que o global decidiu escrever, desabafar, e, penso eu, cometeu alguns atos-falhos e pecou em diversos pontos de sua análise. Sinceramente achei triste - quiçá ridículo.

Começa sua análise imaginando o que ocorreria se o pior tivesse acontecido. De maneira mórbida narra o acontecimento e é evidente a carga emocional destas primeira passagens. O problema chega quando Huck se diz indignado e começa a clamar bordões e palavras de ordem clichês. É fatal quando faz a conexão "pago todos meus impostos, uma fortuna" com "como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa"; é o começo de todo um raciocínio simplista, desesperado e patético cheio de lugares comuns indevidos. Esta conexão argumentativa representa a chave para o entendimento do pensamento do apresentador. Ele paga todos os impostos; sua dívida está quitada com tudo. Ele paga para isto não acontecer. Paga e diz que o "resultado" de os pagar é um assalto que lhe ocorreu. Penso que deveria observar melhor se este assalto é mesmo o resultado disto ou de alguma outra coisa. Seu raciocínio para quando acaba seu interesse e este é estritamente pessoal. Confunde cidadania, ser cidadão, com o simples ato de pagar "tudinho" de seus tributos - despreza o resto das acepções da palavra. Pergunto-me aqui como conseguiu realizar algumas matérias na faculdade sem saber definir com o mínimo de razoabilidade tais conceitos.
Percebe em seguida que a situação de São Paulo "está ficando indefensável", justamente esta cidade que adora, que nasceu. A mim parece-me mais uma vez indevida tal colocação. A situação de São Paulo não "está ficando indefensável" para Huck e sim ficou indefensável de uma hora para a outra devido a algo que lhe aconteceu (ou "algos", no plural, pois, segundo ele foram três assaltos próximos do próprio na cidade no mesmo dia). Este é indício da perspectiva individualista do pagador-de-impostos-cumpridor-de-seus-deveres Huck que tudo resolve com a cívica pergunta clássica de um pretenso jogo de esconde: "onde está a segurança no nosso país? Onde está a polícia? Onde estão os heróis que tem de nos salvar?!". Não vem nenhum não, Luciano, não tem, não existe herói. Mas ele quer é a polícia mesmo, a "Tropa de Elite", para resolver seu problema, o problema de assalto de motocicleta nos Jardins em 30 dias - agora, já. Quer discutir segurança pública de verdade dizendo isto. Dizendo isto?
Não sou nenhum perito no assunto mas imagino que um problema como a violência urbana não pode ser resolvido com seriedade em 30 dias a não ser que a idéia de Luciano seja cercar os Jardins com um imenso muro anti-assaltantes lotando o bairro de tanques de guerra e viaturas policiais (ainda mais do que de costume e ainda mais das viaturas das empresas de segurança privada). Não acho que ele acharia má idéia. "Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito" diz ele. De fato, Luciano - vamos construir o nosso muro. É feliz a observação de um leitor chamado Fernando da Silveira que diz numa carta à Folha de São Paulo no dia seguinte que Huck poderia ter sido mais direto e perguntar em vez de "onde está a Tropa de Elite?" onde estaria a Tropa da Elite.
Aí encontro um parágrafo cômico em meio a toda esta aguda e inteligente análise política do nosso complexo país. O amigo neste e em outros pontos exacerba sua missão social de apresentador de tentar fazer este país se tornar mais bacana divertindo na TV e trabalhando na direção de uma ONG séria. Huck se diz alguém que não está indignado com a perda de seu rolex, mas sim como uma pessoa que "de certa maneira" "dirigiu a sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais eqüilibrado e justo". Admira-me a maneira que este o faz. Seu programa realmente detém os aspectos mais maduros da TV e da cultura brasileira e engrandece o povo tornando o Brasil mais bacana. Sinceramente. O "Caldeirão" (quem goste que me perdoe) é o que existe de mais imaturo na TV brasileira e representa a ânsia de se alimentar com uma cultura que mais parece uma massa disforme verde-acinzentada que é amontoado de sexo, informações supérfluas, sexo, fofoca, sexo, música subformada, repetitiva e sem conteúdo, sexo, entretenimento importado americano, sexo, pernas e seios femininos, sexo e uma pitada de humor zorra-total, aquele que suga seu cérebro e não te deixa pensar em mais nada. Triste que Huck ache mesmo que está construindo ou contribuindo para construir um cenário mais justo ou maduro no nosso país. Ele é um visionário provavelmente; ele e a Dani Bananinha.
Ah! Mas ele mantém uma ONG séria! Ah, ok, a cidadania não é só pagar impostos, é também ser obrigado a ter uma ONG-desencargo-de-consciência. Faço das palavras de Thiago Candido da Silva, diretor do DCE livre da USP, as minhas: "
É um pensamento típico: apenas quando somos diretamente afetados, nos movemos em gritos esparsos, em passeatas sem sentido ou apoiando políticas de repressão intensa. A solução não é a repressão, e sim a distribuição maior de renda e de oportunidades. E não é meia dúzia de pessoas em curso de cinegrafia que irá mudar a situação". Bailes (d)e caridade nunca conseguiram resolver realmente qualquer problema mesmo porque se tivessem conseguido não teríamos mais uma dezena deles por semana nas colunas sociais. E fazer parte disso não te dá carteirinha cativa de cidadão.
Seguindo o global constata debilmente uma afirmação genuína: a existência de desigualdades no Brasil. Pergunto-me se não deveríamos conferir a este genial pensador alguma espécie de prêmio por constatar algo tão inédito. Parabéns Luciano, descobriu a América. Ainda nisso sua análise apresenta problemas por aproximar situações completamente diversas que nada tem a ver uma com a outra a não ser como um recurso parco para tentar demonstrar uma idéia desesperada. A desigualdade observada por Huck é pateticamente superficial, uma desigualdade de acontecimentos, não de causas, e isso deixa sua observação simplista. Sua emoção também o toma a medida que relata que "assaltos a mão armada sendos executados em série nos bairros ricos" - "em série"? Sem querer desvalorizar esta verdadeiramente odiosa situação que Huck passou transformar isto num acontecimento em série é algo que lhe foge a competência, o faz por emoção, por achar que seu problema é o maior de todos - disso não o culpo, mas não acredito ser verdade.
"Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia?". Luciano Huck está à procura de um salvador da pátria e isso me dá medo. Não imagino o que ele tem na cabeça quando diz isto. É o velho personalismo político brasileiro que desconsidera a existência da política das idéias e não das pessoas em sua acepção mais bela? Ou seria um neomessianismo estilo Canudos? Isto abre espaço para idolatrias e defendo que estas nunca são muito boas, quando se tem um problema tão complexo quanto o Brasil, tão difícil quanto nossa realidade. Não vai ser um "salvador" que resolverá o problema de nossa pátria e sim todos nós se nos dermos conta de suas reais causas.
E não é só esta afirmação de Luciano Huck que me assusta. Ainda pergunta qual seria a lógica de algumas coisas dentre elas "um par de 'extraterrestres' fortemente armados desfilando pelos bairros nobres de São Paulo" e isso me parece talvez a mais simbólica e forte afirmação do apresentador do "Caldeirão" no que diz respeito à natureza simplista e arrisco dizer elitistamente tapada (pois acredito que é possível talvez um pensamento elitista menos imbecil, sem entrar neste mérito) do seu ideário. Usar a expressão "extraterrestres" o denuncia completamente e mostra como Huck deseja que o muro que eu idealizei seja construído o mais rápido possível. Ele quer dizer que aqueles não pertencem aquele local apesar da Rua Renato Paes de Barros ser pública, não deveriam estar lá, deveriam estar enfiados nos barracos onde nasceram. Em vez disso ficam desfilando (como verdadeiras madames) fortemente armados pelos bairros que não os pertencem - que chamem a "Tropa de Elite", do filme que atua Wagner Moura, como se esta fosse a solução mais adequada.
Percebe-se que nosso colega não deseja a solução mais adequada, mais justa, mais madura ou mais "bacana" para nosso país e sim a mais adequada e mais "bacana" para ele próprio, a mais imediatista, o muro (que equivale a nossas blindagens e aos nossos condomínios megafechados). O franciscano Huck está envergonhado de ser paulistano? Deveria estar, em vez disso, envergonhado por ser Luciano Huck depois de escrever tamanhas bobagens. A mistura deste caldeirão passou do ponto.

domingo, setembro 02, 2007

15.

Caros amigos,
Esse post vem falar sobre fatos que aconteceram em minha Faculdade nos últimos dias. Como eu já descrevi em post anteriores movimentos sociais (MST, Educafro entre outros) realizaram manifestação na Academia criando enorme rebuliço. A tropa de choque entrou e realizou a desocupação na mesma madrugada. Enormes debates e intensas discussões sobre tais acontecimentos começaram a ter lugar a partir deste momento e a direção do Centro Acadêmico XI de Agosto foi questionada se sabia ou não da manifestação e, se sabia, por que não havia avisado os estudantes. Ricardo Leite Ribeiro, o presidente do XI, em Conversa Aberta com os estudantes em conjunto com o diretor da Faculdade João Grandino Rodas, afirmou que os integrantes da gestão Fórum da Esquerda, que cumpre o mandato de 2007, sabiam dos planos de ocupação entretando não avisaram os alunos pela dificuldade do diálogo com os movimentos sociais e a possibilidade de que a notícia chegasse ao diretor que, sabendo de tudo, fecharia a São Francisco com o intuito de interromper a manifestação. Os motivos ou não de Ribeiro não ter avisado ao corpo discente tratarei em meu texto mas o fato é que membros da oposição à esta gestão começaram a organizar uma Assembléia para discutir as ações do Fórum da Esquerda e o resultado de tudo isto foi este. E é disso que pretendo tratar.


O que muito nos falta
Primeiramente devo expressar que não quero discutir fundamentalmente o fato do Fórum da Esquerda saber ou não da manifestação de 24 de agosto. Meu objetivo com este texto não é relevar as positividades ou negatividades da atitude deste grupo até porque em meu entendimento estes se encontraram numa verdadeira "sinuca de bico" e isso temos de considerar para analisar os fatos. Por um lado se a gestão avisasse os alunos cumpriria sua premissa de os representar plenamente discutindo assunto de capital importância dada a magnitude das manifestações planejadas e até talvez conseguindo importantes aliados neste movimento - mas correria sério risco de um aviso ao diretor João Grandino Rodas, que fecharia a Faculdade aos movimentos o que causaria uma traição direta à Carta-Programa da própria gestão Fórum da Esquerda que tem como uma de suas premissas essenciais o apoio àquele tipo de movimento. Por outro lado se a gestão não avisasse os alunos, o que de fato ocorreu, esta deixaria a manifestação adentrar a Faculdade sem obstáculos, de surpresa, assim cumprindo com o seu apoio já manifestado à tais movimentos - porém ferindo seriamente sua relação com o corpo discente que, evidentemente, entrou em fúria com o fato de ter sido pego de surpresa por um órgão que teoricamente os representaria. E esta relação, este vínculo, de fato feriu-se bastante. Temos de ter em mente que o Fórum tinha noção da dimensão política de seus atos e é óbvio que considerou que provavelmente a reeleição neste ano após a tomada desta decisão seria uma quimera. Além disso é preciso pensar que, apesar desta decisão em especial ter conseqüências tão peculiares e grandiosas, este grupo agiu de forma coerente com suas promessas incluídas em sua Carta-programa. O Fórum da Esquerda, eleito democraticamente em 2006, foi justamente colocado na posição que ocupa pelas promessas que fez e, pensando desta maneira, representou assim os alunos que o elegeram. Coerência e honestidade são qualidades que percebi nestes atos (além de uma espécie de suicídio político) e não traição e mau-caratismo e é nisso que fundarei meus argumentos em relação às atitudes que se seguiram dos grupos de oposição à gestão do XI encabeçada pelo presidente Ricardo Leite Ribeiro.
Disseram que a atitude do Fórum de Ribeiro foi antidemocrática, crápula e traidora em relação aos estudantes mas penso que a decisão da convocação da Assembléia Geral Extraordinária e as deliberações desta foram ainda mais antidemocráticas e arrisco dizer ilegítimas. Além das inúmeras ilegalidades que levam a Assembléia a ter de ser considerada nula e golpista não consigo conceber como o grupo de alunos se prostra de maneira tão ridícula, ingênua e submissa à grupos com interesses tão baixos.
A destituição do presidente Ribeiro por uma Assembléia extraordinária teria tudo para ser adequada se o próprio tivesse desviado verbas do XI ou se sua gestão não cumprisse nenhuma das promessas que fez - o que evidentemente não acontece. Para mim está claro que grupos de oposição ao Fórum da Esquerda estão explorando a fragilidade da decisão política do Fórum além da conta, além do razoável. É razoável apontar uma baixa representatividade na atitude desta gestão observando o fato da omissão de informações acerca da ocupação. É razoável criticar tal decisão. É razoável dentro de um debate transparente e adequado colocar diversos ataques à burrice ou não dos atos de Ribeiro. Destituí-lo por cumprir suas promessas não é nem um pouco razoável.
Nós estudantes de direito devíamos ser os primeiros a perceber os momentos que fazemos parte de uma manipulação. Não digo que esta seria uma manipulação descarada ou que o grupo X ou a chapa Y tem intenções de dominar o mundo e ficam freneticamente rindo enquanto seguram crânios. O que penso é que deveríamos refletir o que significa uma destituição de um presidente do XI que cumpriu (mesmo que de maneira duvidosa e, para muitos, burra) seu discurso. Significa que se quer por meio deste movimento massacrar a gestão Fórum da Esquerda. Não se contentam com uma justa e democrática vitória (que evidentemente acontecerá) nas urnas na próxima eleição que ocorrerá em outubro. Não, não, não é o bastante. É preciso esmigalhar a esquerda dentro da Faculdade - é preciso destruí-la com todos os métodos possíveis, mesmo que isso possa soar a alguns antidemocrático e golpista. Devemos varrer este grupo e este homem para fora do Largo para que nunca mais voltem.
A verdade é que seus opositores sentem medo da esquerda. Sentem medo justamente na força idealista a que ela remete, principalmente nos calouros. Sentem medo de muitas outras coisas que aqui não quero falar. Mas sentem tanto medo que apoiaram até a entrada de alguns homens vestido de preto no solo sagrado da Academia. Este medo e o desejo ardente por poder é o que faz a oposição recorrer à tais medidas absurdas e insensatas, na minha visão.
E o pior é que estes tem sido apoiados por muitos, muitos alunos, o que que me parece totalmente absurdo. Como não percebemos que estamos sendo utilizados para um açoiteamento político de um grupo que, por mais que tenha errado, merece e tem o direito de democraticamente cumprir seu mandato?
Como não nos entra na cabeça que este açoiteamento não é necessário e não é saudável para o debate político dentro da Academia?
O Fórum da Esquerda? Que sofram ou aproveitem as conseqüências de seus atos nas urnas.
A oposição? Que tome vergonha do que está fazendo profanando as Arcadas com discurso imoral e doentio se aproveitando do estado emocionalmente alterado pela presença do Choque no Largo.
O que nos falta? Olhar para dentro de nossa mente e em volta. Estamos participando de algo que realmente podemos nos arrepender. É necessário examinar as intenções dos envolvidos e perceber que nossos atos podem estar sendo conduzidos sem sabermos.