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quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Marcelo Coelho, blogueiro e colunista fa FOLHA queria escolher a escola do filho. Fala muito do Santa. Volto depois pra comentar e posto em seguida suas palavras retiradas de seu blog.

escolhendo a nova escola

Não fujo ao bom senso dizendo que escola tem de ser perto de casa; e que, por menos “elitista” que seja a nossa ideologia, na hora de escolher uma escola para os filhos seria tolo não procurar as mais conceituadas.

Meu filho de seis anos, depois de experiências ambíguas na sua educação pré-escolar, chega na idade de entrar no que antigamente se chamava primeiro ano do primário, e agora atende pelo nome de segundo ano do fundamental.

Deve entrar numa escola na qual ficará até o colegial, ou talvez até a faculdade.

Na minha região, e na minha faixa de renda, várias escolas poderiam, em tese, acolhê-lo. Há, por exemplo, o Vera Cruz, o Santa Cruz, o São Domingos e o Carlitos.

naliso brevemente alguns dos fatores em jogo.

Devo dizer, a título preliminar, que odeio todas as escolas. Sei o quanto há de burrice e violência em todas elas. Sofri muito com a opressão que a maioria dos alunos exerce sobre a minoria dos que querem acertar, dos que levam a sério as responsabilidades do estudo, dos que procuram se interessar pela matéria.

Fiz o quarto do ano do primário no Vera Cruz. Naquela época, o Vera Cruz não prolongava o ensino até o ginásio e o colegial.

Saído de uma escola fascista, o Dante Alighieri, surpreendi-me favoravelmente com o grau de liberdade que era concedido aos alunos do Vera Cruz.

Era uma vida mansa de funcionário público. Toda segunda-feira, havia uma série de liçõezinhas mimeografadas que a gente podia escolher numa espécie de escaninho ao lado da lousa.

Você fazia as lições, entregava, e estava com a vida feita. Aconteceu-me de terminar todas as lições numa manhã de quarta-feira. O resultado é que, nos dias seguintes, eu ganhava um recreio adiantado: duas horas e meia de lazer até ser chamado de novo para alguma prática de grupo –onde teria de tolerar, coisa que fazia mal, o atraso de meus coleguinhas.

A vantagem de um esquema liberal desse tipo é que você sente menos a opressão dos adultos. A desvantagem é que, quanto menos assustadores os adultos, mais violentos e invejosos se tornam os meninos de sua idade.

O Vera Cruz foi, em todo caso, um motivo de lembranças razoavelmente amenas para mim.

Decepciona-me, agora, o fato de que o sistema de apostilas se tornou cristalizado até a oitava série. Ou seja, antes do colegial, pelo que me informaram, nenhum livro didático é adotado na escola.

Como assim? Não existe coisa mais confiável e prazerosa do que um livro didático. Por mais que tenha falhas, e seja superficial, confere uma segurança ao aluno. Qualquer coisa mal-explicada pelo professor pode ser conferida ali. Se eu quiser me adiantar ao conteúdo das aulas, o livro me traz as informações de que necessito.

Um livro é sólido, objetual, encadernado. Apostilas se espandongam no meu fichário. Transmitem-me uma idéia de confusão, e de dependência perante o professor. Não, isso foi decisivo para que eu rejeitasse o Vera Cruz como escola de meu filho.

Continuo depois.

PS- Não gosto de usar o termo "fascista" a torto e a direito, só para caracterizar sistemas de pensamento que não aprovo. Como o Dante Alighieri tinha muitos italianos, acho que houve também um certo preconceito nessa adjetivação. Eraum colégio autoritário, massificante e atrasado, mas retiro o "fascista".


escolhendo a nova escola (2)

Estudei no Colégio Santa Cruz de 1971 a 1976, e imagino que, naqueles anos, alguma espécie de compromisso político tenha sido feito de modo a acomodar professores de esquerda dentro do corpo docente, abrindo concessões a direitistas em diversas disciplinas.

O resultado é que o ginásio, de modo geral, tendia para o apoio ao regime militar, e o colegial “abria a cabeça” dos alunos.

Na sétima e na oitava série, o professor de Geografia entregava-se a rasgados elogios ao presidente Médici. No colegial, os professores de Geografia nos ensinavam materialismo histórico, com esquemas sobre forças produtivas, relações de produção, etc., ou então passavam textos do jornal “Movimento”.

Um arranjo desse tipo é plenamente compreensível. Mas o preço, no que diz respeito à qualidade do ensino, tornou-se muito alto. No ginásio, os professores eram de modo geral fracos, inseguros ou corocos. Os que faziam mais sucesso, salvo duas honrosas exceções, em Ciências e História, eram autoritários, terroristas e covardes.

Covardia é o termo mais exato, na minha opinião, para a atitude de qualquer professor que pegue um menino de onze, doze ou treze anos, e pela violência verbal o faça chorar. Naturalmente, não são os tipos mais delinqüenciais que são submetidos a esse tipo de tratamento. Nem os bons alunos. Pega-se aquele tipo médio, meio obscuro, que por acaso se meteu em alguma enrascada ou que fez uma piada fora de hora. Havia exemplos disso mais ou menos uma vez por mês no Santa Cruz.

Fruto de um misto de ambigüidade e arrogância que faz parte, acho, do DNA daquele colégio.

O tempo todo os professores faziam propaganda da própria escola. “Estamos formando as elites do país”, “vocês são a elite”, é um privilégio estudar aqui, esse tipo de coisa se ouvia o tempo todo. Não é a mensagem mais saudável que se possa dar à quantidade de filhos de banqueiros, industriais, comerciantes, grandes advogados, etc., que estavam ouvindo tudo aquilo.

Não havia só ricaços. Mas estes, de modo geral, deixavam bem clara para os demais a sua condição. Cartas de cobrança de mensalidade atrasada eram entregues aos alunos do ginásio em plena sala de aula. Claro, ninguém dizia, mas todos sabiam, que era disso que se tratava.

Certa vez, o vice-diretor do ginásio entrou em classe com uma cartinha dessas. Todos os alunos se puseram a escarnecer do menino que a recebeu. No meio da confusão geral, um daqueles garotos obscuros, em quem ninguém prestava atenção, criou coragem e gritou “caloteiro”!

Foi a deixa para o vice-diretor dar a sua liçãozinha de moral. Investiu contra o garoto xingador, sob o silêncio aterrorizado da classe. “Mesmo que ele fosse caloteiro, coisa que ele não é, ele seria melhor do que você está sendo agora!”

O menino, que simplesmente seguira a onda da classe inteira, tornou-se bode expiatório da mesma classe que pensava exatamente como ele.

Gostaria de ter levantado a mão e dito: “por que não entregam a carta no endereço dele, em vez de fazer isso em público?” E por que dar uma lição importante de moral usando o terror, de modo a responsabilizar apenas uma pessoa por uma canalhice coletiva?

Não era eu o caloteiro, nem fui eu quem o xingou. Eu ficava em silêncio nesse tipo de manifestações coletivas. Fiquei demais em silêncio naquele colégio. Gostaria de ter estudado num lugar que não premiasse a covardia moral; desta, tínhamos exemplos quase diários no Santa Cruz, dados por professores e alunos. Continuo depois; quem sabe escrever sobre isso tudo me tire um pouco do rancor, do qual peço desculpas a quem me leu até aqui.


escolhendo a nova escola (3)

Continuo a falar das “escolas de elite”. Apesar de ter grandes professores no colegial, o Santa Cruz (onde estudei de 1971 a 1976) era muito falho numa área em que, teoricamente, deveria ser ótimo. Refiro-me ao curso de Filosofia.

Embora eu fosse bom aluno, o fato é que cheguei à faculdade ignorando tudo o que de fato é relevante nessa matéria. Isso se deve à orientação religiosa do colégio, que fez do curso de Filosofia uma espécie de “trajeto” que saía da angústia existencialista para chegar à fé de Teilhard de Chardin. Jogavam-se nas mãos dos alunos livros de Kafka e de Sartre, alimentando o ego pretensioso dos que se julgavam “elite”, para depois impor uma suposta “solução”, que ninguém nunca entendeu direito, em torno das concepções católico-científicas de Teilhard de Chardin.

Isso podia ser apenas idiossincrasia do “filósofo” de plantão, o Padre Charbonneau, que de vez em quando aparecia para dar conferências a que todos assistiam boquiabertos. Duvido que entendessem alguma coisa; eu pelo menos, que era dos mais cdfs, nunca retive daquelas ocasiões mais do que a imagem de um rosto que se avermelhava, avermelhava, chamando Sartre de “raposa velha”. Como se aqueles padres não o fossem.

Mas o problema não é a idiossincrasia, é a ambiguidade de um colégio que se dizia liberal mas não era, e que era de padres mas não era. Tínhamos, assim, aulas de religião todos os anos do ginásio, só que sob o nome de “Animação Espiritual”. Tínhamos um sistema rígido de avaliações, só que se usava conceitos em vez de notas numéricas. Líamos, supostamente cultos, Sartre e Kafka, para depois escrever em cima das coxas trabalhos criticando os dois autores a partir de uma obscura filosofia cristã.

Tínhamos a propaganda de que o colégio era liberal, enquanto professores bons ou ruins impunham terror na classe, e um professor de ginástica era adepto de castigos fisicos para quem chegasse atrasado ou com a blusa para fora da calça.

Uma vez, os alunos se revoltaram contra o famoso “corredor polonês” que iniciava toda aula de Educação Física. Recusaram-se a bater nos colegas. O efeito foram cinquenta minutos de abdominais, flexões e polichinelos, o que dissuadiu para sempre a classe de qualquer resistência ao sistema anterior.

No colegial, isso terminou; supostamente mais “adultos”, os meus colegas se dedicavam a intimidar os alunos menores. Certa vez, promoveram uma festa do ovo, na qual um menino de sete anos mais ou menos foi atingido sistematicamente. Nessas ocasiôes, ninguém mais do que eu aprovaria uma reação das mais autoritárias e terroristas contra esse tipo de molecagem. Houve um sermãozinho espantosamente compreensivo e só.

Talvez fosse esse mesmo o objetivo: é com essa hipocrisia que se aprende a ser elite, no Brasil ou em qualquer outro lugar.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Rápidas X

1. Lembrete
O texto n°32, só para lembrar, é "bastante" antigo se comparado à todos os outros. Resolvi lembrar isso mais por achar que isso teria que ficar bem claro tal como o porquê de postá-lo. É um momento que o pensamento estava em sua fase de desenvolvimento mais inicial.

2. Novos rumos?
Chegou em mim a notícia que o colégio contratou um renomado arquiteto italiano para cuidar de sua programação visual-arquitetônica-espacial, depois dos seguidos golpes de picareta desferidos por engenheiros bem-intencionados contra a obra de Tibau.

3. De volta ao Largo em breve
E daqui a alguns dias voltarei às aulas com novo ânimo e com novos calouros. E com novíssimos assuntos.

terça-feira, janeiro 08, 2008

31.

Anexo-Balanço de Palavras de Ordem
Não o blog, mas sim o velho texto sobre o Santa Cruz

Já sinto a algum tempo uma vontade de revelar meus últimos pensamentos sobre a matéria originária desse blog - análise que faço (sem muita pompa nem mérito) do colégio que eu estudei. Todo o escrito do final de 2006 nomeado "Palavras de Ordem", que se encontra no andamento da 10ª versão na qual foram adicionados 2 "anexos-manifestos", um sobre o Grêmio e outro sobre as grades no colégio, e mais um punhado de anexos-imagens. Está uma obra relativamente grande, maior do que eu pensava quando iniciei as reflexões acerca do assunto, tão recorrente em alunos que estão saindo (ou entrando) do colégio e assim percebendo sua natureza.

Desta maneira creio ser importante colocar uma série de itens aqui sobre como está correndo o pensamento nesse sentido para, assim, dar satisfações a esse respeito e esclarecer novos leitores. Os pontos importantes são, então, a percepção da coletividade de pensamento semelhante, o declarar e o engajar característicos de uma tomada de posição política clara e o encaminhamento de um futuro sempre crescente e a criação de novos campos de análise. Adiante relevarei um por um para maior detalhismo, mesmo que com objetividade.

I.

A questão é que ao longo de conversas e debates obtive a percepção que a indignação em relação à controvérsia constante discurso-ato do Colégio que tive crescentemente desde 2006 não era de maneira nenhuma só minha ou de meus colaboradores no PdO original. Conversei com diversos pares, mais velhos e mais novos (mesmos que circunscritos na mesma geração), e a tentativa de diálogo com a instituição reincide já a algum tempo. É freqüente o envio de cartas que dizem respeito à insatisfação curricular ou de tratamento assim como outras, mais incisivas, que demonstram a insuficiência da prática progressista ou de vanguarda em relação ao discurso, o qual também é alvo de críticas. O aluno crítico, apesar de solitário em seus pensamentos, não é solitário na medida que faz parte de um coletivo velado que ele não sabe que participa.

Não acho que seja uma questão de raridade, isso seria muita arrogância. Resisto um pouco no idealismo de que uma grande parte dos alunos concluintes do Ensino Médio saem com uma cabeça razoável e aberta, mas a questão é que essa abertura é pouco aproveitada. A criticidade é atomizada pela instituição e a discussão, quando dada no foro oficial, é sempre constrangedora. É um completo exagero exigir um direito de "auto-organização" revolucionária do corpo discente também, claro, por duas razões - a primeira, óbvia, é a não-opressão tida por esse grupo, o que retira motivos para tal afirmação; a segunda, tão óbvia quanto a primeira, é a preservada liberdade de associação e de reunião. Assumindo que esse direito é consumado não faz sentido se exigir o outro. Passa longe dessa questão. O ponto é que o colégio se furta sempre de discutir a própria instituição com seus alunos, cada vez mais extendendo à eles um currículo, um tratamento, um método, um aprendizado, uma vivência, um caráter, uma posição.


II.

E aqui coloco outro ponto importante que complementa o citado acima. Essa posição é determinada - ela não varia. O antidialoguismo pedagógico que estrutura as vigas-mestras da instituição é um procedimento que contribui com o processo contínuo de aparelhamento e atrelamento de posições político-sociais dessa pela elite burguesa paulistana atrelada aos grandes bancos, empresas e meios de comunicação. Não é um complô, claro, mas sim um desenvolvimento dado em paralelo, simultâneo e estruturalmente ligado, construído.

Não discutir as demandas críticas à qualquer respeito e fazer questão de centralizar e mistificar as decisões enriquece o símbolo intocável da direção ao mesmo tempo que fortalece um modelo de currículo e de visão educacional rebocada pela força do vestibular e das tensões de classe presentíssimas em São Paulo e no Brasil. Discordo que qualquer crítica vá no sentido contrário, fortalecendo um projeto democrático em amplo sentido e crescentemente popular de país, mas a feita por este blog anda rumo a essa meta e a de muitos alunos também.

E é por isso que declaro que a continuação da observação do colégio construiu a minha posição política ainda em construção abrindo espaço para a percepção de um outro projeto de Brasil e de educação construída junto. Não compactuarei aqui com a privatização da educação em qualquer sentido e a colocação dessa ao interesse oposto ao popular e isso é resultado daquelas reflexões.

Porquê não falar? Porquê não discutir a escola na escola? Porquê o não questionar o próprio papel do jovem rico? Porquê não propôr um ensino cada vez mais dialogicamente crítico à uma sociedade cada vez mais excludente? Não bastam professores gritarem sozinhos, só os das ciências humanas enquanto o currículo vestibulárico cai sobre suas cabeças - a arte, a ciência natural, a arquitetura e os espaços, o lidar com as atualidades e a gerência interna de políticas do próprio colégio contribuem para tal construção tanto quanto alguns berreiros histórico-filosófico-geográficos.

III.

O futuro, por sua vez, vai se encaminhando.
Já declarei a alguns amigos próximos a vontade de constituir discussões crescentemente acadêmicas sobre a história e o processo de crescimento da instituição Santa Cruz.

Outro desejo é a construção de grupos de discussão a respeito da escola e do papel do aluno naquela escola especificamente, e isso vai sendo encaminhado.
O negócio é tocar tudo sem pressa e com um compromisso de importância renovada. Outros desafios sem ser o Santa Cruz se colocam em nossas vidas e muitas vezes se mostram mais importantes. Inicio um período novo agora e creio que as atenções nesse sentido serão inevitavelmente reduzidas - mas não esquecidas e sempre desenvolvidas.

Assim, mesmo reduzindo as atividades, criam-se frutíferos novos campos de análise, conseguidos com o contato cada vez mais diferenciado deste ex-aluno com a instituição e com a comunidade. A análise da obra teórica de Charbonneau e o contato pessoal-institucional é muito enriquecedor e traz boas conversas e pontos de reflexão.


Basicamente é isso. Espero ter colocado tudo em dia. Dúvidas serão respondidas prontamente.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

29.

Como o prometido aqui está uma sinopse e uma breve resenha sobre o livro do Charbonneau. Acho importante principalmente a leitura dos que estudaram ou estudam no Santa. Pensei se não seria bobagem observar tão atentamente assim minha formação educacional e minha escola. Acho que não é tolice. Entender a cabeça do Padre é entender nossas fundações pedagógicas mais elementares e perceber com quais premissas o Santa Cruz surgiu. Acredito que compreendendo ele podemos ter uma discussão mais qualificada sobre um assunto que me toca bastante, como vocês já sabem. Discutimos mais ainda.


O padre e o comunismo
Considerações sobre uma obra de Paul-Eugène Charbonneau

"A escatologia marxista desemboca no inferno do socialismo real."
Padre Paul-Eugène Charbonneau in "Marxismo e socialismo real" (Loyola, São Paulo, 1984)

Sinopse
Espantei-me quando encontrei esse livro do ilustre Padre Charbonneau (1925-1987). O autor foi o ideólogo do Colégio Santa Cruz, onde estudei, lecionando lá filosofia durante 20 anos. Sua contribuição à pedagogia e ao entendimento da questão do jovem é significativa e suas posturas progressistas e seu carisma o destacavam. De personalidade forte o padre ficou famoso no Brasil pelo seu envolvimento com a educação, principalmente em São Paulo. Apesar de todo o estardalhaço feito ao redor de sua figura achei que ele tinha se furtado de escrever sobre assunto tão controverso, principalmente no meio católico. Suas posturas libertárias iriam até qual ponto? De qualquer maneira é um estudo curioso.
O objetivo de Charbonneau é dividir sua crítica aguda em dois momentos. No primeiro momento ele coloca os questionamentos à teoria marxista, à obra elaborada por Marx e Engels. Dessa maneira busca um primeiro momento de síntese no qual coloca as lacunas que preencherá depois com críticas. Na segunda parte o padre parte para uma análise do socialismo real, ou seja, das experiências socialistas do século XX que em sua realização buscavam reafirmar a teoria marxista. Entre as duas o autor tenta estabelecer um nexo causal bastante peculiar que se mostra o dogma principal do livro.
Na parte na qual observa a teoria Charbonneau reduz o pensamento de Karl Marx à contradição. Para o autor essa é a palavra que melhor representa as idéias bem-intencionadas, contudo ingênuas e paradoxais do pensador alemão do século XIX. Depois da síntese feita com cuidado e argúcia o objetivo é tentar reaver a crítica existencialista em relação ao marxismo principalmente ao seu aspecto materialista. Charbonneau lembra Sartre, Merleau-Ponty e muitos outros numa miscelânea que tenta provar a incompatibilidade de conceitos como marxismo e ciência, materialismo e dialética, materialismo e liberdade e dialética materialista e história. O ponto principal, fazendo um resumo pobre, é apontar o determinismo característico do materialismo e o ilogismo em acoplá-lo com a dialética, que, no sentido hegeliano, pressupõe o Espírito numa concepção idealista. Para o padre a dialética não existe se prescindir de um plano das idéias e por isso associá-la da maneira marxista ao materialismo seria incutir na teoria um "defeito congênito". Existe nesse ponto a ênfase constante na questão da liberdade tão abordada no pensamento sartriano e seu conflito com noções marxistas. Para Sartre, cita Charbonneau, a liberdade no universo marxista vem embrulhada no invólucro conceitual do "clérigo soviético que não mais acredita no livre-arbítrio". Outro ponto que levante o padre é a moral que, no pensamento marxista "centrado no dogma revolucionário" detém ao mesmo tempo uma moral maquiavélica, móvel, porém rígida: móvel pois "tudo vale para se chegar à revolução", mas rígida pois esse dogma não pode ser questionado. Questiona a questão dos fins justificarem os meios e faz críticas à um aspecto religioso do marxismo que se erige como igreja no socialismo real.
Na segunda parte o autor se concentra em descrever como a práxis socialista, em sua opinião, fracassou completamente e negou a teoria em todos os sentidos. Para ele a contradição marxista de nascimento se desenrola numa ideologia e posteriormente numa concretude que inegavelmente nega todos os pressupostos soerguidos pela cabeça do "profeta onírico", apelido de Marx dado pelo padre. Charbonneau coloca esse nexo causal de inevitabilidade como questão central de seu argumento e aí reside seu principal dogma, palavra que o autor usa frequentemente para descrever o "contraditório universo do socialismo existente". Diversas vezes afirma que a teoria marxista só poderia "dar naquilo" que, por sua vez, "causa aquilo outro". É uma cadeia de nexos que se colocam sem muita justificativa nem explicação, somente com elenco de fatos e relatos de marxistas e socialistas desapontados.
É fato que a segunda parte é bem mais agressiva que a primeira. Segundo Charbonneau existe em relação à ideologia marxista uma "cegueira" no Ocidente da qual vários intelectuais são vítimas. Não percebem, segundo ele, como a teoria contraditória "só poderia cair" no mundo "concentracionário" e "contra-revolucionário" do socialismo real soviético, cubano, chinês, vietnamita, entre outros. A práxis se coloca como negação da teoria marxista que seria completamente utópica e irrealizável dentro de suas premissas. A negação das classes, o fortalecimento e posterior extinção do Estado e a liberdade plena, a ausência de alienação não acontecem no plano real, só na aparência, na vulgata marxista atual. Entre o marxismo e o socialismo real, apesar do autor acreditar que existe uma relação de filiação entre eles, nasce um fosso intransponível e negador. O Estado burocrático e policial socialista é, para Charbonneau, como se fosse um grande capitalista que concentra em si todas as alienações. A sociedade socialista, e ele toma como exemplo a soviética, não abre mão de diversos pressupostos que deveria por serem próprios do capitalismo liberal, contudo joga fora toda a pequena liberdade que tinha o homem antes do advento comunista. O homem é oprimido por todos os lados e sua individualidade, seu subjetivo, é esmagada completamente pelo coletivo burocrático.
O socialismo real não seria então um desvio do marxismo, mas sim sua essência. Não há desvios - para Charbonneau as formas adotadas foram as inevitáveis. A liberdade é rompida e a teoria marxista prevê um Estado impossível que nunca engendrará sua própria extinção. A sociedade cai num paradoxal "capitalismo de Estado". A ditadura pressupõe uma hipertrofia do Estado e da burocracia controladora de todos os aspectos da vida no melhor estilo totalitário e incorre num terror tanto cultural como físico e psicológica. É a contra-revolução sutil mas inexpugnável, "um universo concentracionário tão vasto que não podemos atingir seus limites. A utopia marxista se torna uma práxis que renega tudo que ela havia idealizado. É verdade que como vimos na primeira parte, o marxismo trazia já em si suas contradições dilacerantes (...) elas não eram nada em comparação com as contradições trágicas que o socialismo existente carrega consigo".

Crítica
O livro é muito interessante. Apesar da leitura da teoria marxista sair até certo ponto capenga principalmente no ponto que concerne sua análise de O Capital a compilação da crítica dos existencialistas é bastante sagaz.
Marxismo e socialismo real tem os seguintes dizeres em sua segunda capa "com aprovação eclesiástica" e isso é surpreendente dado os avanços de Charbonneau em admitir atrocidade da Igreja e seu caráter de "ópio do povo" em muitos casos. Em surpreendente ponto o autor defende avanços muito interessante como em: "O capitalismo foi condenado pelos abusos que causou e por haver produzido uma iníqua ordem social. Diante dos problemas que daí surgiram, as respostas marxistas ou socialistas foram rejeitadas. Em que princípios se há de se basear então a ordem social cristã? É o que a Teologia da Libertação se esforça por definir contra ventos e marés. (...) Ela é, ao contrário, a mais pura expressão do Cristianismo que recusa incisivamente a Injustiça e a Opressão". Bastante interessante também é notar o tom que o padre adota quando disserta da relação entre marxismo e cristianismo admitindo pontos comuns e tolerando a colaboração até certo ponto.
Outro problema é que a análise se mostra contraditória a partir do momento que usa de diversas expressões em seu sentido marxista para legitimá-lo e para criticar o socialismo real. "Luta de classes", "alienação" e muitos outros, todos em seu sentido marxista, são usados para "revelar as contradições" mas são em si, em seu uso, contradições.
Não acho que devo continuar uma crítica extremamente alongada. O livro não é um lixo, como podem pensar alguns. Não é também uma obra-prima, todavia demonstra avanços e nuances progressistas muitas vezes obscurecidos por citações de autoridade nem sempre bem-vindas.
Charbonneau, pelo visto, não quer ser visto de maneira nenhuma como um comunista; ele é padre, dá aulas para a elite paulistana. Porém o padre não deixa de marcar posições interessantes. Sua postura crítica é de fato inteligente e sagaz, pena que é traída por um dogmatismo e uma falta de explicações recorrente. O determinismo que este tanto questiona junto com os existencialistas é ponto-chave em sua teoria.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Rápidas VI

A. Enxurrada
Desde que minha mãe colocou o link do meu último post em seu blog recebi uma torrencial tempestade de visitas e pageviews nunca antes vista. A minha média de visitas por dia (pessoas novas que acessam) é de 10 pessoas, aproximadamente - hoje, até o presente momento, recebi 45 visitas novas, quase 100 pageviews. É impressionante.

B. Charbonneaunianas
Anuncio que achei em um sebo uma raridade. "Marxismo e Socialismo Real" do ilustre Padre Paul-Eugène Charbonneau estão me dando uma dimensão que eu nunca tive sobre o pensamento do mais renomado ideólogo do Colégio que estudei. De fato ele tinha uma cultura extensa, era um erudito. Quando acabar a leitura, que será em breve, eu publico algo aqui, acho que há interesse, pelo menos numa sinopse do livro.

sábado, dezembro 01, 2007

Rápidas V

A. Não são grades
É, eu estava enganado. São postes de luz mesmo. Creio que são vantajosos no saldo, apesar de servirem majoritariamente para as câmeras que vigiam as calçadas poderem focalizar à noite mais adequadamente.

B. Fim de ano
2008 se aproxima e com ele também vêm vindo diversas novidades, tanto franciscanas como, hm, charbonneaunianas. É ver para crer!

quarta-feira, novembro 21, 2007

Rápidas IV

A. O imbróglio das grades (é, aquele mesmo)
E olha só! Acompanhando a evolução lenta das grades escolares santacruzenses! Nos tocos de 1 metro instalados como prolongamentos dos postes de sustentação das grades do entorno da escola agora já são preparados fios - uma instalação elétrica. O que podemos esperar?
Atualização (21.11):
Acho que descobri o que são! Nada de grades! Postes de luz! Se tudo der certo esse só foi um apuro ilusório!

B. Engajamento, cinema
Vi um filme hoje que coloca em questão o engajamento e acho interessante trazer aqui para enriquecer a discussão proposta pelo texto número 23, "A importância do engajamento". "Leões e Cordeiros" ("Lions for Lambs", EUA, 2007) de Robert Redford (é, o ator) lança de maneira perniciosa argumentos a favor de um determinado engajamento. É legal ver, mas não garanto satisfação. O problema é que a "luta" que o filme propõe é uma luta de certa maneira inglória.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Rápidas III

A. O imbróglio das grades (o de sempre)
De fato aqueles semipostes que eu descrevi infestam todo o perímetro do Santa Cruz. Por mais inútil que isso pareça é como se fosse uma constante vozinha dentro da minha cabeça dizendo algo como: "você tinha razão". Não que eu me ache um oráculo, óbvio que não, até porquê era evidente que isso ia acontecer. Fico pensando qual será o próximo passo - talvez uma via subterrãnea para os pais não terem que abrir a porta em espaço público para pegar os filhos; câmeras nas salas de aula; melhor, nos banheiros, claro. Sei não - para mim isso tudo fica cada vez mais cheirando a peixe podre.

B. Prévia
Talvez, mais para o final do ano, eu solte algum(s) texto(s) de balanço de 2007. Acho que deve ser uma boa idéia - só preciso ter uma inspiração. Além disso acho que ainda em novembro remodelo o layout deste blog.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Rápidas II

A.
Não consigo encontrar adjetivos para descrever a satisfação que tive quando li o artigo de Zeca Baleiro de hoje (segunda-feira dia 29 de outubro) sobre o a polêmica huckiana. Que beleza! Maravilha. E é arrebatador como Baleiro trata Reinaldo Azevedo e seu conceito infeliz e desumano de democracia. Simples e indispensável. Palavras batidas mas não vazias quando descrevem a atitude do cantor-compositor maranhense.

B.
Ainda não sei se os semi-postes colocados nas grades do Santa se desenvolverão como grades ou como qualquer outra coisa. De qualquer maneira me parece suspeito e cada vez mais papador da liberdade querida por Charbonneau. A "segunda casa dos meninos", arejada, verde e recheada com um sentimento de liberdade e vanguarda que o padre falava quando concebia o colégio está virando algo como "o segundo condomínio fechado dos meninos". Realidade mais compatível com a realidade paralela, vil e falsa em que os "meninos" vivem e viverão.

C.
Peço desculpas pela ausência na passada semana. Discorro depois sobre os motivos do ocorrido.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Rápidas I

A.
Reinaldo Azevedo, o não-idiota, resolveu publicar um outro artigo na
Veja desta semana que me fez rir. Digo que ele até conseguiu captar sim alguma coisa do filme Tropa de Elite e, pelo menos, não resolveu heroicizar o capitão Nascimento - é, até certo ponto. Bandido é bandido Como este cidadão tem a pachorra de chamar de lixo Michel Foucault por puro orgulho de posição política? É mesmo, esse sociólogo francês de meia-tigela deve ser só outro idiota sem-valor. Eu pensava que este tipo de direita, ops, perdão, que a Veja e seus colaboradores eram menos mal-informados. Sociologia vagabunda, devolvendo a acusação do Tio Rei, é o que Azevedo faz traduzindo e "entendendo" o pensamento de Foucault.

B.
Passei perto do Colégio Santa Cruz e vi indícios de algo que eu já imaginava que iria acontecer quando escrevi o Anexo-Manifesto I de "Palavras de Ordem", "Pedagogia do enjaulamento". As grades que separam a escola do "mundo exterior" estão, pelo visto, sendo aumentadas mais um metro e, por mais cri-cri que isto seja, não posso deixar de manifestar meu repúdio, meu asco por esta atitude. Atitude que provoca fisicamente um aumento do enorme abismo entre o "mundo maravilhoso" do Santa Cruz e o resto do Brasil. Feitos como esse só demonstram a decadência dos valores humanistas de Charbonneau e como os pais finalmente conseguiram dobrar o Colégio na sua ânsia por proteger predatoriamente os seus filhos e suas frágeis e puras mentes.

domingo, outubro 07, 2007

19.

O caldeirão não tem mais vergonha

"O apresentador Luciano Huck diz que as reações negativas a seu desabafo depois de um assalto partiram de quem não conhece a periferia" Subtítulo da entrevista de Luciano Huck à Veja deste sábado 6 de outubro de 2007.
Ele falou de novo, o Luciano Huck. Vocês desculpem a minha obcessão contudo não posso deixar de lado as palavras de um senhor que além de ter cursado pelo menos algum tempo da mesma faculdade que eu ainda esteve no mesmo colégio que eu. Espantoso.
Fiquei muito confuso quando li a entrevista de Huck à Veja neste sábado. O global falou bonito sobre a importância da educação para o país e que todos temos que fazer alguma coisa. Dissertou sobre a importância de não termos um estado penal e sim um com enfoque na educação, com enfoque em projeto para a educação. É o "Cristovam Buarque" do "Caldeirão" que não está nem aí para as bobagens que falaram. Disse já foi milhares de vezes mais para a periferia para gravar quadros de seu programa e passa de carro com vidro aberto na Rocinha. Ele afirmou que ouve, ouve muito, e conhece a realidade brasileira.
Não sei se vale a pena ficar falando sobre esse meu colega. Para mim é evidente que esse discurso não passa de uma bem-feita pasteurização das besteiras que Luciano Huck escreveu e nada mais porque continua fazendo uso de lugares comuns, de máximas, assim como todo entendedor-de-tudo. Se travestiu agora de justamente o que buscava no artigo, de salvador da pátria. Não acham? Olha a cara dele na foto que eu coloquei aqui para vocês verem.
Em vez de procurar respostas nessa entrevista o nosso herói nos dá, e é por isso que eu fiquei confuso. No lugar de perguntar ele responde e vejam só que instrutivo, responde com coisas que quem tem o mínimo de discernimento já sabe sobre o nosso país: é evidente que precisamos democratizar o acesso à educação. Claro que o filho do assaltante tem de ter oportunidade de entrar na faculdade que quiser, isso é óbvio. Huck agora quer posar de bom-moço, de bastião da razoabilidade. Para mim Luciano não passa de um hipócrita.
Como tem coragem em falar de educação conduzindo seu programa desta maneira? Como tem a panca de vir dizer que conhece mais da realidade brasileira do que qualquer um que o criticou? Este homem que trabalha para a Globo tem a pachorra de vir falar em mudança social?
Seu programa e suas atitudes como homem público só vem contribuir para o estado aleijado que nosso país se encontra, aleijado justamente do que ele pede, educação. Não cabe aqui descer a lenha no "Caldeirão" mais uma vez mas me indigna este vendedor, que é exatamente o que Huck é, um vendedor de produtos muito hábil, vir aqui dizer disso tudo.
Luciano você pode ouvir o quanto você quiser, não vai resolver o problema. Pode fazer quantas ONGs quiser, não vai resolver o problema. Enquanto você não perceber que trabalha para o contrário do que deseja estará remando com um cabo de vassoura, sem sair do lugar.
Das duas uma: ou Luciano Huck está no lugar errado e mal-instruído não passando de um ingênuo bem-intencionado ou tudo o que disse de fato é uma pasteurização e o que deseja realmente é um estado policial, que o cap. Nascimento de "Tropa de Elite" construa um muro em volta de sua sociedade perfeita.

Ainda estou sobre isso matutando. Não acho que este texto tenha ficado especialmente bom. Me sinto como um peixinho dourado que caiu fora do aquário - realmente sinto-me confuso com esta entrevista, me debatendo comigo mesmo para tentar verificar em ponto este colega me pegou, porque ele me pegou em algum ponto. Ainda me sinto driblado. Tento me sentir superior, é inútil, não o sou. Preciso de uma dose de autocrítica, talvez realmente eu seja um mané como ele disse.