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segunda-feira, agosto 04, 2008

Gente, tenho certeza absoluta que tá bem chato "acompanhar" o Palavras. Isso é ruim por que depois que a gente desacostuma de acessar um blog acessá-lo de novo é muito difícil, é que nem retomar um hábito. De qualquer maneira lá vai o Chico, depois de alguns meses, retomar as postagens. Estou com a meta de pelo menos um texto, texto sim, por semana. Acho que eu consigo.

36.


Nossa satisfação quando eles são punidos
Prazer e degustação de algemas

Quando um cara pobre é preso pessoas existem aquelas pessoas que falam "bem feito, vagabundo", existem aquelas outras que agradecem a Deus, existem ainda outras que gritam "bandido", aquelas que ficam com pena e ainda outras que, numa análise da conjuntura do Brasil, pensam o quanto aquela prisão representa a criminalização da pobreza, o controle de massas, do proletariado urbano subempregado, independente de sua culpa. É, na minha opinião, uma análise coerente. Faz sentido pra mim. Além disso geralmente quem tem esse discurso fala em garantias, em direitos que aquela pessoa têm e que deve ser respeitados, sua dignidade etc.
A pergunta de hoje é: e quando um Daniel Dantas, corrupto-rico-branco-e-banqueiro, é preso? Não acho que a importância da situação do Daniel seja superior à do Fulano, do Cicrano ou do Beltrano que foram presos conforme o descrito no primeiro parágrado. As garantias devem ser as mesmas, isso eu não vou nem tocar. E também não vou nem entrar no debate de que o Daniel vai ser privilegiado no acesso à justiça e à essas garantias. Ele vai. Vai ser privilegiado, vai ser prioridade, vai ser julgado primeiro e inocente. Vai pedir um "abreoscorpus" e o presidente do Supremo Tribunal Federal, homem do Judiciário brasileiro, vai conceder e vai passar por cima de todo mundo pra isso. Isso, também não quero me alongar aqui, vai acontecer, por óbvio, por que o Dani é branco, rico e banqueiro.
Mas voltemos à pergunta. Quando o Dani é preso, o que sentimos? Se eu acho mais coerente fazer aquela análise sistêmica quando aquele outro é preso posso fazê-la também com o caso do nosso amigo aqui. Sim, ele é um banqueiro que aproveita de sua situação financeira para viver fora dos limites do insuficiente estado democrático burguês, burlando mesmo a lei que é feita para lhe privilegiar. Ele é um dos sócios do capital transnacional que está se lixando para a desigualdade social brasileira ou para nossa legislação ambiental. É bom que ele seja pego, que ele pare de fazer o que faz, mesmo que seja por alguns dias? É bom que ele seja impedido de ser 10% o que ele é? Na minha opinião sim.
Tá, mas até agora eu não falei nada que seja original ou que alguém já não houvesse falado antes. Calma, vou achar ainda o ponto.
Dadas as situações expostas eu irei além perguntar o que efetivamente sentimos e desejamos em relação aos dois personagens da nossa história, o amigo do primeiro parágrado e o Dani.
Pelo primeiro sinto, e falo por mim, um sentimento que acho que deriva daquela análise que eu falei. Não sinto pena, não, mas acho que indignação por conta do que a sua prisão representa no país onde vivemos, para sua família e para sua comunidade. Acho uma bosta que ele seja preso, ele ter tido uma vida que lhe deixou como opção dentre as suas escolhas uma ação que resultará em uma temporada de maus-tratos e a entrada para um mundo onde não existem direitos, onde ele não será nem de longe um cidadão. Para ele defendo um direito penal mínimo, que puna com o objetivo de fazer com que essa pessoa pense sobre seus atos e adquira consciência sobre o mal que fez, se é que ela efetivamente o fez. Além disso, é claro, esse direito penal mínimo incluído em todo um contexto onde o nosso amigo poderá voltar pra casa e ter em seus possíveis caminhos atalhos melhores e mais dignos dos que rumou.
E o Dani? O que sinto no fundo quando ele é preso? O que sentem as pessoas que partilham de minha análise? Feliz? Regojizo-me em ver o carequinha com algemas ou o Pitta saindo de sua casa de pijama? Para eles defendemos o direito penal mínimo? Admito que a primeira vez que eu vi ele sendo preso eu fiquei feliz, num tava nem aí. "Que bom que esse desgraçado que vive sem limites agora tem um, o da lei" - nessa hora eu parei subitamente esse meu pensamento e meta-pensei: "Calma, você viu/ouviu o que você acabou de pensar?".
"Esse desgraçado que vive sem limites agora tem um, o da lei". Se essa frase fosse dita para o cara do primeiro caso... se esse sentimento de vingança, de prazer, tivesse lugar na primeira situação e eu me visse dizendo ou pensando isso eu me acharia um dos seres mais cruéis ao sul do Equador - por que a recíproca não é verdadeira? Eu sei que as formas não são livres de seus conteúdos e que as duas situações são diferentes, mas no limite, são prisões. Quer dizer que a lei dura e que prende eu reservo só pra um dos segmentos da população, o mais privilegiado? Pior que isso, por que a lei é só o meio do caminho: será que a sede de sangue, a satisfação por ver algemas eu só tenho (de qualquer jeito, tenho) quando eu vejo as algemas nos pulsos ao lado de um Rolex? Eu não sou contra leis que criam desigualdades, não. Cotas, por exemplo, eu acho que fazem sentido, ou mesmo aquelas leis que protegem as mulheres, a diversidade sexual ou outras minorias oprimidas. A questão é se essa desigualdade faz sentido e se esse sentimento de vingança é saudável, compatível com a minha visão de mundo e com meu projeto de país e de sociedade.
Então, não é. Repensando percebi como pouco faz sentido um sentimento desses no mundo que eu quero, ou na construção do mundo que eu quero. A lei deve ser dura com o Daniel Dantas sim, não tenho dúvidas disso, mas ela não pode deixar de impedir ou lutar contra um sentimento desses, por que quem mais se aproveita dele não é o esfomeado da esquina, mas sim o bem-satisfeito do Fasano, srs. Frias, Marinho e Mesquita, que favorecem e protegem os srs. Setúbal, Ermínio de Moraes e, por que não, Dantas, que são sócios minoritários dos fundos ou consórcios transnacionais trilhardários sem nome. Esse sentimento não só faz vender o jornal, mas como desvia a noção do todo para a noção do particular, permite ao patrão reclamar da corrupção ao lado do empregado ao mesmo tempo que ele o manda sonegar algumas notinhas.
Esse desvio da atenção ao todo para a atenção ao particular é muito perigoso. Nos sentirmos felizes com a prisão do Daniel é, para além de bobo, infantil e meio cruel, uma enorme burrice porque depois de preso ele virará um ótimo exemplo de banqueiro corrupto, condenado pelos preocupados banqueiros bonzinhos, que sustentam os jornais-e-revistas-e-tvs-de circulação nacional que apontam-lhe o dedo e discutem se ele deve ou não ser submetido ao uso de algemas. Perde-se a noção que os bonzinhos são tão responsáveis pelo amigo do primeiro parágrafo ser preso e que ficar feliz e comemorar as algemas novas do Dani é esquecer que, além das algemas não serem uma coisa legal para se punir as pessoas, independente elas quem forem, os crimes que ele cometeu não são o cerne da questão social brasileira, da desigualdade, da miséria e da pobreza.
O que eu estou querendo dizer é que esse sentimento não tem ou não deve ter lugar quando pensamos o ideal e que as análises das situações, mesmo em mesas de bar, devem passar longe dele. Repetindo-o ou usando-o propagamos um senso comum manco que, além de anti-garantias, maqueará o verdadeiro problema, que existem Daniéis Dantas pelo Brasil que conseguem tudo o que ele consegue e não são presos e que ainda outros nem precisam fazer o que ele fez para explorar os trabalhadores que residem nos enormes bolsões de favelas nas periferias das grandes metrópoles.
O verdadeiro problema do Brasil, para ser percebido, passa por começarmos a falar mais do todo e menos do particular.

quinta-feira, junho 12, 2008

É claro que um dos meu grandes assuntos de ultimamente tem sido o do Fórum da Esquerda. Sim, eu tenho falado muito politico-estudantês nos últimos tempos, o que se é bom por um lado, é estranho por outro. Algumas palavras do jargão do movimento estudantil acabam pegando na gente, e pouco a pouco padronizando e homogeneizando as idéias e a linguagem de um grupo. Por isso as férias são boas, pra dar um frescor de individualidade quando o grupo volta e pra nós mesmos.
Já pensei em uns trocentos assuntos nesses últimos dois meses, a questão maior é que faltou tempo para escrever - sentar a bunda e escrever. E nem é preguiça!
Espero muito poder escrever mais agora em julho, explicitar algumas de minhas angústias. O XI, o centro de São Paulo, o Direito. Tudo isso fica orbitando minha cuca, mas acabo não falando de nada.
Boas férias, amigos.

quinta-feira, maio 22, 2008

Rápidas XIII

A. Uspiano de todo o mundo - uni-vos! (II)
O V Congresso da USP já é semana que vem - é hora de discutirmos a nossa Universidade. Não deixem de participar! É fundamental estar lá a par das discussões e se mobilizando se quiseremos realmente transformar a USP da elite cafeeira da década de 30 na USP popular do século XXI.
Aliás, o evento sobre Universidade Popular que anunciei no mural foi um sucesso; agradeço a todos que compareceram. Desde a palestra do profº Zé Geraldo, passando pelos GTs e finalizando no painel de movimentos sociais conseguimos iniciar a discussão sobre a "Universidade que queremos".
A chapa "Universidade em Pauta", da qual fiz parte, conseguiu 53% na São Francisco, levando, assim, 4 delegados para o Congresso.

B. Marasmo palavrasdeordeniano
É, eu sei, a produção do Palavras já foi mais intensa. Mas é questão de tempo. A vontade de escrever vai e vem sem motivo aparente.

quinta-feira, maio 08, 2008

Mural de Eventos PdO 1ªed.

Segue convite para evento organizado na Faculdade de Direito da USP. Qualquer coisa meu email, vocês sabem, é fbritocruz@gmail.com.


Universidade Popular

13 e 14 de maio na Faculdade de Direito USP

Um projeto diferente de Universidade

Perplexos com o quadro de extrema exclusão da universidade pública brasileira e esperançosos com a chegada do V Congresso da USP, não podemos deixar de nos perguntar: qual é a Universidade que queremos, afinal?
Na busca de contribuir para essa discussão, os coletivos Dandara, Fórum da Esquerda e SAJU trazem à FDUSP nos dias 13 e 14 de maio a defesa de um projeto popular de Universidade.
Como estudantes de uma Universidade pública, cabe a todos e todas nós realizar reflexões como essas e levá-las para momentos de construção e de luta, como o V Congresso da USP.
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13.05
19h: “O que é Universidade Popular?” – Palestra com o professor José Geraldo de Sousa Junior (Direito - UnB)
Debatedores: professores Celso Campilongo e Diogo Coutinho


Contando com a participação de José Geraldo de Sousa Junior, professor da UnB e membro do Núcleo de Estudos para a Paz e Direitos Humanos, este evento buscará pautar, a partir de um observador crítico de dentro da academia, a importância dos movimentos sociais como atores jurídico-políticos e o papel Universidade neste contexto.

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14.05
Grupos de trabalho
9h: “Ensino, pesquisa e extensão” com a professora Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer (FFLCH-USP)
11h: “Fundações e financiamento”

Neste momento, nos debruçaremos sobre dois dos temas eleitos como eixos do V Congresso.

19h: “Os movimentos sociais em defesa da Universidade Popular” contribuições do MST, Educafro e Universidade Zumbi de Palmares
Para a construção verdadeira desse projeto popular de universidade, não podemos deixar de dar voz àqueles que estão de fora, querem e têm o direito de entrar.

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Esse evento faz parte do calendário de preparação para o V Congresso da USP, momento em que funcionários, professores e estudantes pararão a USP para refletirem sobre “A Universidade que temos e a Universidade que queremos”.
Em representação paritária as categorias discutirão seis eixos temáticos, são eles:

1. Educação e Conjuntura
2. Ensino, pesquisa e exten­são
3. Fundações e financiamento
4. Estrutura de po­der/Democracia
5. Acesso, permanência e ex­pansão de vagas
6. Organização da luta unifi­cada após o Congresso

Local: Sala dos Estudantes da FDUSP – Largo São Francisco, 95

Coletivo Dandara Fórum da EsquerdaTransgredindo a Indiferença! Serviço de Assessoria Jurídica Universitária – SAJU USP

segunda-feira, abril 28, 2008

Rápidas XII

A.  Uspianos de todo o mundo - uni-vos!
O V Congresso da USP vem chegando aí para unir as lutas das 3 categorias da Universidade. Os eixos temáticos "Educação e conjuntura", "Fundações e financiamento", "Ensino, pesquisa e extensão", "Acesso, permanência e expansão de vagas", "Estrutura de poder e democracia" e "Organização das lutas unificadas após o Congresso" serão pauta do Movimento Estudantil da Universidade de São Paulo durante a última semana de maio.
Vamos ficar atentos! Logo mais começa o processo eleitoral para delegados e a criação de teses!

B. Mural de Eventos do PdO
Estarei a partir dessa semana inaugurando um "mural de eventos", que é basicamente publicar convites para eventos que possam ser considerados interessantes que rolarão por aí e que eu, por intermédio do Fórum da Esquerda, organize, ajude a organizar ou fique sabendo. Em breve já posto algumas coisas...

terça-feira, abril 08, 2008

35.


Uma grande falácia perigosa

Ou como estragar o Movimento Estudantil

É interessante que na Faculdade de Direito a gente ouve muita coisa, muitos discursos meio bizarros - especialmente na chamada "política acadêmica", que é o jeito que chamam o Movimento Estudantil (ME) lá pelas Arcadas. Tem gente que prega a monarquia, tem outros que alopram geral e soltam uma publicação racista pra fazer "piada" e ainda podemos observar aqueles outros que, não tendo mais o que fazer, vão nos debates e resolvem literalmente cuspir fogo.
Claro que existem outros lados desse prisma que são mais sérios (ou que tentam ser) e que apresentam para o corpo de alunos uma proposta minimamente coesa de representação, em especial no que diz respeito à disputa política pela entidade representativa dos alunos, a saber, o Centro Acadêmico "XI de Agôsto". É rala a compreensão de que se trata de uma briga por poder, pois o conflito transcende e deve transcender o carguismo ou o oportunismo (mesmo não transcendendo às vezes) e se coloca num embate de projetos de representação e ação política perante os espaços ocupados pelos estudantes (sociedade, discussão sobre educação, ME) de Direito (debates na e da Faculdade) na USP (logo, ME da USP).
Todos esses viéses de compreensão da política estudantil encontram resposta na e da Faculdade e a influenciam e transformam de maneiras e intensidades diferentes, com orientações evidentemente diferentes. Na minha opinião algumas dessas correntes são, no mínimo, mancas e enfadonhas e, verdadeiramente, completamente tacanhas, conservadoras e subservientes à projetos de Universidade e Brasil sem compromisso com a igualdade e com a emancipação popular.

Falo especificamente de um discurso muito comum nas Arcadas caracterizado pela idéia de que o Direito pode e deve passar a ser ferramenta essencial do ME para ele se renovar perante os a atualidade e que, sendo o XI o Centro Acadêmico da Facudade de Direito, nada mais natural que esse lidere o movimento nas suas ações que encontrariam ou tentariam encontrar espaço por e pelas normas. O Direito, em todos os sentidos que cabe a expressão, transformaria a realidade e nele se daria a luta política. As leis e os procedimentos adotariam roupagem progressista e a norma seria a forma da emancipação.
Aos que pensam assim faço um desafio: que me mostrem uma situação histórica onde a mudança legal, jurídica, foi mola propulsora do movimento e da luta política e social. Provavelmente por ignorância eu vejo pouquíssimos senão nenhum exemplo. Não é possível criar regra fatalista na História sem cair em simplismos, mas é possível identificarmos tendências. O Direito não é e nunca foi meio. Ele não é e nunca deve ser fim. Ele é conquista - e só é conquista verdadeira se existem mecanismos para assim se tornar eficaz. O Direito não transforma, ele é transformado. O Direito não é sujeito transformador da sociedade, muito menos seus operadores se eles não souberem responder às demandas que a realidade traz e não se colocarem como parte dela.
Lutar pelo Direito não é fazer política "nos termos corretos" pois a política não se dá nos termos do Direito quando tratamos de vontades materiais e concretas por conquistas reais, substantivas e substanciais. O que deve ser feito pelos estudantes em sua maneira de protestar e contestar um "Estado de Direito" que muitas vezes se apresenta opressor e aliado à explorações capitalistas não está no Direito. Ele não vai dizer para que rumo temos de seguir e não é nem deve ser pauta política do movimento se tivermos compromisso com a realidade. A liberdade e a igualdade não devem se apresentar numa lógica e roupagem formal e(ou) legalista, mas de uma maneira real - até porquê só são reais se aparecem dessa maneira.
Esse jeito de pensar coloca o papel do XI como assistente jurídico externo ao ME da própria Universidade que a FD faz parte de uma cultura de distanciamento da práxis política e de ruptura com agentes transformadores e de luta que atuam na sociedade tais como movimentos sociais dos mais diversos. Esse jeito de pensar introjeta nas cabeças dos franciscanos que não fazemos parte do conflito e da construção uspiana. Subestimamos a capacidade intelectual dos outros estudantes da USP de maneira ultrajante achando que eles não sabem o que fazem e o que devem fazer.
E ainda dizem as cabecinhas protojurídicas que devemos estar um passo a frente do ME - sintomático. Para tais devemos mesmo estar um passo a frente, de preferência sem olhar pra trás para ver se ele caiu. Triste. Devemos estar do lado, em volta, na luta, na briga, no debate - nunca esnobemente na frente.
Falar que a política estudantil da Cidade Universitária é anacrônica e retrógada é recorrente nesses hermeneutas peculiares, mas não consideram como tal prática "caduca" conseguiu conquistar diversos pontos de extensa pauta numa atitude que foi feita à sua revelia e eles tiveram que tolerar pela vitória - a Ocupação da Reitoria de Abril/Maio/Junho de 2007. Paradoxal declarar que uma coisa hoje não dá mais certo se ela deu a menos de um ano atrás.
É a velha discussão do retorno do "Onze Grande". É o desejo de voltar a ser "o" CA, de estar por cima da carniça. Do XI voltar a brilhar. O XI não tem que e nem vai brilhar por estudarmos Direito. Seremos burros ao ponto de perceber que o passo a ser dado na política estudantil da São Francisco não é nos enveredar pelo caminho inútil e obtuso do Direito e sim engajar-se na construção de uma USP mais democrática, inclusiva e que responda às demandas populares?

domingo, março 30, 2008

34.



Você não está mais lá?

Não sou cinéfilo e não gosto que filmes tenham mais do que 90 minutos. Reclamo, viro cricri. Tenho memória curta e quando o filme é muito longo para mim é muito difícil relembrar o começo e dar um nó de coesão no final. Acho que eu sou bastante leigo em cinema na verdade, bastante desentendido. De qualquer maneira isso não é motivo pra eu num ver filmes e, às vezes, quando metido à besta, não é motivo pra eu dar uma palavrinha sobre eles.
Não estou lá (I'm not there), o filme de Todd Haynes que fala sobre Bob Dylan, é a bola da vez. Fui vê-lo com expectativa na parte musical e com uma expectativa bastante grande pra tentar achar ali um Bob Dylan que eu não entendo, que faz no começo de carreira "fingerpoints songs"("canções de dedos em riste", de protesto) e depois as nega, se distancia do espaço músico-político diferentemente de Joan Baez, que continuou ativista até os dias de hoje e que continuou portanto acreditanto no potencial político de uma música.
"This machine kill facists" diz o gravado no violão da anacrônica faceta de Dylan Woody Guthrie, menininho que vive fora de seu tempo e tem o nome copiado de um cantor de Blues que apodrece no hospital. É esse o argumento do filme: a máquina que mata fascistas já não passa de um violão velho, a inscrição nada mais do que uma velha marca de caneta que prenuncia uma ilusão.
A relação íntima e latente em Dylan (no filme nas suas diversas facetas) entre músicas e luta política se divide em dois momentos - o primeiro, atrelado à figura de Joan Baez, mostra o Dylan do folk music simplório, humilde e engajado, o segundo o cantor incrédulo com a ligação possível entre música e luta. Numa fala muito interessante Jude Quinn, o Dylan-fantasma interpretado por Cate Blanchett, diz:
You know, I didn't come out of some cereal box. There's no one out there who's gonna be converted by a song.(...) The songs are acts of personal conscience (...) doesn't do a damn thing except disassociate you and your audience of all the evils of the world. I refuse to be disassociate from then.
Que fala genial. Ela traz uma questão seminal a respeito da arte e da política - a visão de músicas como atos de uma consciência pessoal e que elas de nada adiantam no campo político pois dissociam o cantor e a platéia dos males do mundo é valiosa para entendermos a postura desse Dylan quando ele rompe com a tradição folk e para de compor "fingerpoints songs".
Para que compor tais músicas, qual a sua função e utilidade? De fato são símbolos, mas até que ponto não passam de jeitos de nos proclamarmos revolucionários e anti-sistêmicos e estarmos, ao mesmo tempo, deixando de lado a vivência política concreta. As músicas são jeitos bonitos de vivermos a política, líricos e extremamente cults, mas seriam momentos reais de mobilização? Essa noção de dissociação ilusória dos males do mundo é emblemática e até certo ponto representa o quadro geral da geração que Dylan fez parte - essa geração que fez o barulho maior que o Universo, mas que deixou na mão da minha geração um mundo bem diferente do pregado. É uma geração cansada. Dá a impressão de que mergulharam tão cegamente num lago muito frio e que, por sentirem muito frio mesmo, saíram poucos segundos depois. Agora não querem deixar que os filhos coloquem o pé na água gelada. O único problema é que é nesse lago que estão os peixes mais importantes a serem pescados.
Muito interessante quando o filme propõe a visão de que a visão do artista sobre sua própria obra nem sempre é compreendida e o que é esperado dele muitas vezes é algo que seu gênio não quer responder.
Acho patético artistas quererem ser aquela coisa despirocada, furacões nonsense pós-modernos, mas como recusar o fato de que a produção artística transcende sim a política formal e se embrenha em linhas mais profundas do nosso ser, ser que é político e que está situado na história, mas ser que também tem reações, emoções, sentimentos complexos e que não é e nunca será uma maquininha ou uma coisa - seja uma maquininha de trabalhar, seja de militar; seja uma coisa de trocar, ter ou venerar.
É um filme que eu fui pensando que ia tomar mil vezes Blowin' in the wind na cabeça e saí com a mesma doendo por outros motivos - porque meu ídolo parou de acreditar nas coisas que eu acredito hoje? Ele não está mais lá.



quinta-feira, fevereiro 21, 2008

33.

Blogueiros e pretensiosos

Cada dia mais introjeto em minha mente a idéia de que ter um blog autônomo, de "se convidar a si próprio" para escrever numa página da web, é indissociável de uma energia pretensiosa, vulgar e em seu cerne, metida. Todos nós o somos.
Somo pretensiosos pois acreditamos tanto no nosso potencial de escrita que não temos medo de veicular nossos textos por todos os computadores lusófonos do mundo. Somos metidos pois cremos que o que escrevemos é válido para ser lido por todos os usuários dessas máquinas. Somos vulgares pois colocamos nosso pensamento estritamente pessoal no rio de informações bíticas que corre no espaço virtual público, sem formalidades.
Discordo a priori que isso seja um grande avanço. Não o é. Não adianta gritarmos ao quatro cantos do mundo se já houver um amigo no quarto canto que tem um vizinho que grita a mesma coisa. De nada serve expressarmos livremente e democraticamente nossas opiniões se essas são efetivamente vulgares, vulgatas, menores, pessoais.
Temos a ilusão, e já abordei isso quando falei do Xingu virtual, de que todos falamos a mesma língua, afinal todos nós somos índios da tribo dos blogueiros - mentira. Um índio ianomami é igual a um nativo aborígene? Um bororo é igual a um munduruku? Evidentemente não. As linguagens são completamente diferentes e por aí vai.
Tendo em vista essa ilusão e nossa pretensão e vulgaridade coloco a minha questão chave. Somos todos piruá. Ideólogos, escritores, jornalistas, cronistas etc - piruás disso. Sabem o que é piruá? É o milho que mesmo depois de passar pela panela não virou pipoca. Tinha tudo pra ser pipoca, mas não foi.
Blá-blá-blá. Mas isso é evidente, imbecil!
É eu sei que é. Só disse isso tudo pra falar uma coisa: "Baixemos a crista. Todos. Eu inclusive, e, talvez, principalmente". Não são só reflexões palavradeordenianas, são reflexões necessárias. Sem elas não conseguiria andar para frente.

terça-feira, janeiro 08, 2008

31.

Anexo-Balanço de Palavras de Ordem
Não o blog, mas sim o velho texto sobre o Santa Cruz

Já sinto a algum tempo uma vontade de revelar meus últimos pensamentos sobre a matéria originária desse blog - análise que faço (sem muita pompa nem mérito) do colégio que eu estudei. Todo o escrito do final de 2006 nomeado "Palavras de Ordem", que se encontra no andamento da 10ª versão na qual foram adicionados 2 "anexos-manifestos", um sobre o Grêmio e outro sobre as grades no colégio, e mais um punhado de anexos-imagens. Está uma obra relativamente grande, maior do que eu pensava quando iniciei as reflexões acerca do assunto, tão recorrente em alunos que estão saindo (ou entrando) do colégio e assim percebendo sua natureza.

Desta maneira creio ser importante colocar uma série de itens aqui sobre como está correndo o pensamento nesse sentido para, assim, dar satisfações a esse respeito e esclarecer novos leitores. Os pontos importantes são, então, a percepção da coletividade de pensamento semelhante, o declarar e o engajar característicos de uma tomada de posição política clara e o encaminhamento de um futuro sempre crescente e a criação de novos campos de análise. Adiante relevarei um por um para maior detalhismo, mesmo que com objetividade.

I.

A questão é que ao longo de conversas e debates obtive a percepção que a indignação em relação à controvérsia constante discurso-ato do Colégio que tive crescentemente desde 2006 não era de maneira nenhuma só minha ou de meus colaboradores no PdO original. Conversei com diversos pares, mais velhos e mais novos (mesmos que circunscritos na mesma geração), e a tentativa de diálogo com a instituição reincide já a algum tempo. É freqüente o envio de cartas que dizem respeito à insatisfação curricular ou de tratamento assim como outras, mais incisivas, que demonstram a insuficiência da prática progressista ou de vanguarda em relação ao discurso, o qual também é alvo de críticas. O aluno crítico, apesar de solitário em seus pensamentos, não é solitário na medida que faz parte de um coletivo velado que ele não sabe que participa.

Não acho que seja uma questão de raridade, isso seria muita arrogância. Resisto um pouco no idealismo de que uma grande parte dos alunos concluintes do Ensino Médio saem com uma cabeça razoável e aberta, mas a questão é que essa abertura é pouco aproveitada. A criticidade é atomizada pela instituição e a discussão, quando dada no foro oficial, é sempre constrangedora. É um completo exagero exigir um direito de "auto-organização" revolucionária do corpo discente também, claro, por duas razões - a primeira, óbvia, é a não-opressão tida por esse grupo, o que retira motivos para tal afirmação; a segunda, tão óbvia quanto a primeira, é a preservada liberdade de associação e de reunião. Assumindo que esse direito é consumado não faz sentido se exigir o outro. Passa longe dessa questão. O ponto é que o colégio se furta sempre de discutir a própria instituição com seus alunos, cada vez mais extendendo à eles um currículo, um tratamento, um método, um aprendizado, uma vivência, um caráter, uma posição.


II.

E aqui coloco outro ponto importante que complementa o citado acima. Essa posição é determinada - ela não varia. O antidialoguismo pedagógico que estrutura as vigas-mestras da instituição é um procedimento que contribui com o processo contínuo de aparelhamento e atrelamento de posições político-sociais dessa pela elite burguesa paulistana atrelada aos grandes bancos, empresas e meios de comunicação. Não é um complô, claro, mas sim um desenvolvimento dado em paralelo, simultâneo e estruturalmente ligado, construído.

Não discutir as demandas críticas à qualquer respeito e fazer questão de centralizar e mistificar as decisões enriquece o símbolo intocável da direção ao mesmo tempo que fortalece um modelo de currículo e de visão educacional rebocada pela força do vestibular e das tensões de classe presentíssimas em São Paulo e no Brasil. Discordo que qualquer crítica vá no sentido contrário, fortalecendo um projeto democrático em amplo sentido e crescentemente popular de país, mas a feita por este blog anda rumo a essa meta e a de muitos alunos também.

E é por isso que declaro que a continuação da observação do colégio construiu a minha posição política ainda em construção abrindo espaço para a percepção de um outro projeto de Brasil e de educação construída junto. Não compactuarei aqui com a privatização da educação em qualquer sentido e a colocação dessa ao interesse oposto ao popular e isso é resultado daquelas reflexões.

Porquê não falar? Porquê não discutir a escola na escola? Porquê o não questionar o próprio papel do jovem rico? Porquê não propôr um ensino cada vez mais dialogicamente crítico à uma sociedade cada vez mais excludente? Não bastam professores gritarem sozinhos, só os das ciências humanas enquanto o currículo vestibulárico cai sobre suas cabeças - a arte, a ciência natural, a arquitetura e os espaços, o lidar com as atualidades e a gerência interna de políticas do próprio colégio contribuem para tal construção tanto quanto alguns berreiros histórico-filosófico-geográficos.

III.

O futuro, por sua vez, vai se encaminhando.
Já declarei a alguns amigos próximos a vontade de constituir discussões crescentemente acadêmicas sobre a história e o processo de crescimento da instituição Santa Cruz.

Outro desejo é a construção de grupos de discussão a respeito da escola e do papel do aluno naquela escola especificamente, e isso vai sendo encaminhado.
O negócio é tocar tudo sem pressa e com um compromisso de importância renovada. Outros desafios sem ser o Santa Cruz se colocam em nossas vidas e muitas vezes se mostram mais importantes. Inicio um período novo agora e creio que as atenções nesse sentido serão inevitavelmente reduzidas - mas não esquecidas e sempre desenvolvidas.

Assim, mesmo reduzindo as atividades, criam-se frutíferos novos campos de análise, conseguidos com o contato cada vez mais diferenciado deste ex-aluno com a instituição e com a comunidade. A análise da obra teórica de Charbonneau e o contato pessoal-institucional é muito enriquecedor e traz boas conversas e pontos de reflexão.


Basicamente é isso. Espero ter colocado tudo em dia. Dúvidas serão respondidas prontamente.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

30.

Neste "texto" número 30 tentarei algo diferente, vamos ver no que dá.


Rand, Roark e a defesa do indivíduo I


Bom, primeiro de tudo eu preciso que o caro leitor assista esse vídeo. É de um filme chamado "The Fountainhead", de 1949. O filme é baseado num livro de 1943 com o mesmo título, escrito pela autora americana Ayn Rand. Vou contar a história para melhorar o entendimento.
Howard Roark (Gary Cooper) é um arquiteto idealista e visionário. Sua estética e seu método divergem dos tradicionais ensinados pelas academias de arquitetura e seus colegas caçoam dele. Roark não quer saber de frufus, de estilos copiados, de neobarroquismos, entre outros. É um homem com idéias próprias, novas. Com um pensamento certamente individualista é um profissional jovem e brilhante. Depois de diversas desventuras que não necessitam ser narradas um arquiteto colega de Roark o vê em necessidade e oferece um acordo. Peter Keating é um parasita, alguém que nunca consegue ter idéias próprias e copia modelos. O acordo consistia em Roark desenhar o Condomínio Cortland para Keating, que não conseguia ter idéias e, em troca, Keating faria o que seu colega quisesse.
Howard Roark aceita o acordo e desenha Cortland para Keating sem assinar o projeto e sem receber um tostão - a única coisa que ele exige é que o condomínio seja exatamente como ele projetou. Exatamente.
Depois de uma longa viagem de barco Roark vai observar seu projeto pronto e vê que, apesar do acordo, o desenho havia sido mudado; Keating havia cedido ao achaque de seu chefe e havia transformado o projeto em uma gororoba neoclássica. Louco com a mudança traiçoeira em seu projeto Roark dinamita Cortland com a ajuda de Dominique Francon, sua consorte. Ele confessa e vai a julgamento. O vídeo que segue é o julgamento de Roark, ele começa com uma fala breve do promotor e, após ela, o arquiteto Roark realiza sua defesa.


O discurso é a defesa do "Objetivismo", filosofia criada por Ayn Rand, a autora do livro. Devo confessar que me intriga bastante, essa defesa do indivíduo perante o todo, perante o coletivo. Ainda estou refletindo o que acho ou quais colocações são adequadas, mas de qualquer maneira peço a opinião de todos. Só digo que admito que é ridículo o momento que Roark fala sobre como seu país é o máximo, é o reino do respeito a si mesmo e às idéias do indivíduo. É muito duvidável conferir tantas qualidades a um país que foi construído sobre um solo cheio de sangue indígena. Os Estados Unidos são um país onde o homem é livre para buscar sua própria felicidade? Em que aspectos? Quais homens? É a defesa suja do liberalismo; o homem é livre para prosperar, não para viver na fome - contudo basta ser livre e querer para se prosperar? Valem esses e muitos outros questionamentos.
Ok, ok, eu explico o porquê tudo isso. Eu vi o filme recentemente e lembrei desse discurso. Lembrei que seria uma coisa muito legal pra se colocar no Palavras. Sempre achei que valia a pena essa discussão. A opinião de vocês é muito importante agora.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

29.

Como o prometido aqui está uma sinopse e uma breve resenha sobre o livro do Charbonneau. Acho importante principalmente a leitura dos que estudaram ou estudam no Santa. Pensei se não seria bobagem observar tão atentamente assim minha formação educacional e minha escola. Acho que não é tolice. Entender a cabeça do Padre é entender nossas fundações pedagógicas mais elementares e perceber com quais premissas o Santa Cruz surgiu. Acredito que compreendendo ele podemos ter uma discussão mais qualificada sobre um assunto que me toca bastante, como vocês já sabem. Discutimos mais ainda.


O padre e o comunismo
Considerações sobre uma obra de Paul-Eugène Charbonneau

"A escatologia marxista desemboca no inferno do socialismo real."
Padre Paul-Eugène Charbonneau in "Marxismo e socialismo real" (Loyola, São Paulo, 1984)

Sinopse
Espantei-me quando encontrei esse livro do ilustre Padre Charbonneau (1925-1987). O autor foi o ideólogo do Colégio Santa Cruz, onde estudei, lecionando lá filosofia durante 20 anos. Sua contribuição à pedagogia e ao entendimento da questão do jovem é significativa e suas posturas progressistas e seu carisma o destacavam. De personalidade forte o padre ficou famoso no Brasil pelo seu envolvimento com a educação, principalmente em São Paulo. Apesar de todo o estardalhaço feito ao redor de sua figura achei que ele tinha se furtado de escrever sobre assunto tão controverso, principalmente no meio católico. Suas posturas libertárias iriam até qual ponto? De qualquer maneira é um estudo curioso.
O objetivo de Charbonneau é dividir sua crítica aguda em dois momentos. No primeiro momento ele coloca os questionamentos à teoria marxista, à obra elaborada por Marx e Engels. Dessa maneira busca um primeiro momento de síntese no qual coloca as lacunas que preencherá depois com críticas. Na segunda parte o padre parte para uma análise do socialismo real, ou seja, das experiências socialistas do século XX que em sua realização buscavam reafirmar a teoria marxista. Entre as duas o autor tenta estabelecer um nexo causal bastante peculiar que se mostra o dogma principal do livro.
Na parte na qual observa a teoria Charbonneau reduz o pensamento de Karl Marx à contradição. Para o autor essa é a palavra que melhor representa as idéias bem-intencionadas, contudo ingênuas e paradoxais do pensador alemão do século XIX. Depois da síntese feita com cuidado e argúcia o objetivo é tentar reaver a crítica existencialista em relação ao marxismo principalmente ao seu aspecto materialista. Charbonneau lembra Sartre, Merleau-Ponty e muitos outros numa miscelânea que tenta provar a incompatibilidade de conceitos como marxismo e ciência, materialismo e dialética, materialismo e liberdade e dialética materialista e história. O ponto principal, fazendo um resumo pobre, é apontar o determinismo característico do materialismo e o ilogismo em acoplá-lo com a dialética, que, no sentido hegeliano, pressupõe o Espírito numa concepção idealista. Para o padre a dialética não existe se prescindir de um plano das idéias e por isso associá-la da maneira marxista ao materialismo seria incutir na teoria um "defeito congênito". Existe nesse ponto a ênfase constante na questão da liberdade tão abordada no pensamento sartriano e seu conflito com noções marxistas. Para Sartre, cita Charbonneau, a liberdade no universo marxista vem embrulhada no invólucro conceitual do "clérigo soviético que não mais acredita no livre-arbítrio". Outro ponto que levante o padre é a moral que, no pensamento marxista "centrado no dogma revolucionário" detém ao mesmo tempo uma moral maquiavélica, móvel, porém rígida: móvel pois "tudo vale para se chegar à revolução", mas rígida pois esse dogma não pode ser questionado. Questiona a questão dos fins justificarem os meios e faz críticas à um aspecto religioso do marxismo que se erige como igreja no socialismo real.
Na segunda parte o autor se concentra em descrever como a práxis socialista, em sua opinião, fracassou completamente e negou a teoria em todos os sentidos. Para ele a contradição marxista de nascimento se desenrola numa ideologia e posteriormente numa concretude que inegavelmente nega todos os pressupostos soerguidos pela cabeça do "profeta onírico", apelido de Marx dado pelo padre. Charbonneau coloca esse nexo causal de inevitabilidade como questão central de seu argumento e aí reside seu principal dogma, palavra que o autor usa frequentemente para descrever o "contraditório universo do socialismo existente". Diversas vezes afirma que a teoria marxista só poderia "dar naquilo" que, por sua vez, "causa aquilo outro". É uma cadeia de nexos que se colocam sem muita justificativa nem explicação, somente com elenco de fatos e relatos de marxistas e socialistas desapontados.
É fato que a segunda parte é bem mais agressiva que a primeira. Segundo Charbonneau existe em relação à ideologia marxista uma "cegueira" no Ocidente da qual vários intelectuais são vítimas. Não percebem, segundo ele, como a teoria contraditória "só poderia cair" no mundo "concentracionário" e "contra-revolucionário" do socialismo real soviético, cubano, chinês, vietnamita, entre outros. A práxis se coloca como negação da teoria marxista que seria completamente utópica e irrealizável dentro de suas premissas. A negação das classes, o fortalecimento e posterior extinção do Estado e a liberdade plena, a ausência de alienação não acontecem no plano real, só na aparência, na vulgata marxista atual. Entre o marxismo e o socialismo real, apesar do autor acreditar que existe uma relação de filiação entre eles, nasce um fosso intransponível e negador. O Estado burocrático e policial socialista é, para Charbonneau, como se fosse um grande capitalista que concentra em si todas as alienações. A sociedade socialista, e ele toma como exemplo a soviética, não abre mão de diversos pressupostos que deveria por serem próprios do capitalismo liberal, contudo joga fora toda a pequena liberdade que tinha o homem antes do advento comunista. O homem é oprimido por todos os lados e sua individualidade, seu subjetivo, é esmagada completamente pelo coletivo burocrático.
O socialismo real não seria então um desvio do marxismo, mas sim sua essência. Não há desvios - para Charbonneau as formas adotadas foram as inevitáveis. A liberdade é rompida e a teoria marxista prevê um Estado impossível que nunca engendrará sua própria extinção. A sociedade cai num paradoxal "capitalismo de Estado". A ditadura pressupõe uma hipertrofia do Estado e da burocracia controladora de todos os aspectos da vida no melhor estilo totalitário e incorre num terror tanto cultural como físico e psicológica. É a contra-revolução sutil mas inexpugnável, "um universo concentracionário tão vasto que não podemos atingir seus limites. A utopia marxista se torna uma práxis que renega tudo que ela havia idealizado. É verdade que como vimos na primeira parte, o marxismo trazia já em si suas contradições dilacerantes (...) elas não eram nada em comparação com as contradições trágicas que o socialismo existente carrega consigo".

Crítica
O livro é muito interessante. Apesar da leitura da teoria marxista sair até certo ponto capenga principalmente no ponto que concerne sua análise de O Capital a compilação da crítica dos existencialistas é bastante sagaz.
Marxismo e socialismo real tem os seguintes dizeres em sua segunda capa "com aprovação eclesiástica" e isso é surpreendente dado os avanços de Charbonneau em admitir atrocidade da Igreja e seu caráter de "ópio do povo" em muitos casos. Em surpreendente ponto o autor defende avanços muito interessante como em: "O capitalismo foi condenado pelos abusos que causou e por haver produzido uma iníqua ordem social. Diante dos problemas que daí surgiram, as respostas marxistas ou socialistas foram rejeitadas. Em que princípios se há de se basear então a ordem social cristã? É o que a Teologia da Libertação se esforça por definir contra ventos e marés. (...) Ela é, ao contrário, a mais pura expressão do Cristianismo que recusa incisivamente a Injustiça e a Opressão". Bastante interessante também é notar o tom que o padre adota quando disserta da relação entre marxismo e cristianismo admitindo pontos comuns e tolerando a colaboração até certo ponto.
Outro problema é que a análise se mostra contraditória a partir do momento que usa de diversas expressões em seu sentido marxista para legitimá-lo e para criticar o socialismo real. "Luta de classes", "alienação" e muitos outros, todos em seu sentido marxista, são usados para "revelar as contradições" mas são em si, em seu uso, contradições.
Não acho que devo continuar uma crítica extremamente alongada. O livro não é um lixo, como podem pensar alguns. Não é também uma obra-prima, todavia demonstra avanços e nuances progressistas muitas vezes obscurecidos por citações de autoridade nem sempre bem-vindas.
Charbonneau, pelo visto, não quer ser visto de maneira nenhuma como um comunista; ele é padre, dá aulas para a elite paulistana. Porém o padre não deixa de marcar posições interessantes. Sua postura crítica é de fato inteligente e sagaz, pena que é traída por um dogmatismo e uma falta de explicações recorrente. O determinismo que este tanto questiona junto com os existencialistas é ponto-chave em sua teoria.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Rápidas VI

A. Enxurrada
Desde que minha mãe colocou o link do meu último post em seu blog recebi uma torrencial tempestade de visitas e pageviews nunca antes vista. A minha média de visitas por dia (pessoas novas que acessam) é de 10 pessoas, aproximadamente - hoje, até o presente momento, recebi 45 visitas novas, quase 100 pageviews. É impressionante.

B. Charbonneaunianas
Anuncio que achei em um sebo uma raridade. "Marxismo e Socialismo Real" do ilustre Padre Paul-Eugène Charbonneau estão me dando uma dimensão que eu nunca tive sobre o pensamento do mais renomado ideólogo do Colégio que estudei. De fato ele tinha uma cultura extensa, era um erudito. Quando acabar a leitura, que será em breve, eu publico algo aqui, acho que há interesse, pelo menos numa sinopse do livro.

sábado, dezembro 01, 2007

26.


Todos nós idiotas
Comunicação livre e ego: contradições corrosivas
Os blogs são essas ferramentas poderosas de comunicação. Escrever um é como distribuir folhetos na rua só que só para quem quer ler. Eu acredito sim no poder disso. Claro que não um poder desproporcional e de fato reduzido, todavia fundamentalmente livre. Não há nada que pode ser censurado, tudo pode ser escrito, não há nada a perder, como disse um grande amigo de quem eu roubo as palavras.
Mesmo este poder se colocando como elemento essencial dos blogueiros contrapõe-se à ele uma difusão quase que individual de opiniões. A fragmentação se dá num plano que transcende o possível e esse poder (ilusório dado que nem todos têm acesso à tal ferramenta) deixa de ser realmente poder quando a blogosfera não passa de um feixe de monólogos inouvíveis e particulares. O blogueiro mostra-se por essência um egocêntrico pois num mundo em que todos tem a possibilidade de falarem sempre o que quiserem num plano de igualdade de maneira completamente livre todos acabam só se concentrando no que eles mesmos falam. A questão é que não compreendo como pode ser construído esse espaço pretensamente público se com essa fragmentação morre a possibilidade de foco e diálogo. Ser blogueiro é, ao mesmo tempo, ter o poder de comunicação livre já dito e, ao mesmo tempo, possuir o egocentrismo que corrói tal poder.
O diálogo e, principalmente, o debate e a formação de linhas de pensamento sobre o hoje é destruído conforme cada um interessa-se só com o seu fio. Os nós são dados sempre no mesmo fio, quase nunca com fios paralelos. O egoísmo e a concentração em si é tão colocada que os pensamentos virtuais são linhas paralelas que nunca conseguem se tocar.
Em que lugar o privado tem lugar nesse espaço fundamentalmente público dentro de uma lógica de construção de pensamento? O idiota, o voltado para o próprio
ide, é o blogueiro por excelência.
Em suma o Palavras entra numa fase complicada neste momento. Como posso afirmar a validade e a importância de manter um blog considerados todos esses problemas? A pretensão e o ego característicos de
bloguear atingiriam e destruiriam o cerne dos meus objetivos? Careço de companheiros que queiram construir junto e acho que talvez é esse o problema.

sábado, novembro 24, 2007

25.

Como podem ver dei uma remodelada no layout assim como tinha prometido já a algum tempo. Com quase um ano de "Palavras" já estava na hora de aposentar o gato e inventar qualquer outra coisa.


Heresia e modelos de simulações diplomáticas
A necessidade do questionamento do dogma estrutural

Quero escrever algo complementando o texto sobre simulações, o número 24. Concordo que foi um texto confuso mas de qualquer maneira tentei ressaltar que não há uma raison d'être destes eventos se a sua prática não for simultaneamente auto-crítica e ligada a noções concretas de práxis política. A alienação dita não é uma alienação de tornar o estudante um grande boboca desligado dos mais importantes fatos que acontecem a todo tempo em escala global. A alienação que tento indicar, e talvez usando um termo inadequado, é ligada a idéia de distanciamento em relação à esfera concreta e pública da vida política - a ágora. De qualquer maneira tenho consciência de que dizer isso tudo é re-repetir o já dito no prolixo texto anterior.
O que venho lembrar neste é a importância da auto-crítica que deve estar imbricada sobretudo no conteúdo, na parte acadêmica, dos modelos, e não só no ideário de seus organizadores. É evidente que o mundo não é entendido de uma forma só. Dizer isso não é só afirmar simplesmente que todos os pontos de vista de todos os focos emitidores de opinião são diferentes e respaldar a multilateralidade institucionalizada pois a própria institucionalização também é contraditória e é vista de maneira diferentes e muitas vezes conflitantes. Aí se coloca a necessidade de no conteúdo escolhido residirem sementes diversas de entendimentos diversos e principalmente de aceitações, confirmações, negações e desconfirmações diversas daquele espaço.
É fato que existe uma corrente principal, um mainstream, no pensamento das relações internacionais, contudo não é possível aceitar que este seja imposto como absoluto se o objetivo a ser alcançado nas simulações é um aprendizado pleno e plural. A estrutura tão cultuada das Nações Unidas e a sociedade global, a sociedade em rede de Manuel Castells, são dogmas que precisam cada vez mais serem desconstruídos criticamente pois fazem parte de um dos entendimentos da atualidade. Há de se buscar o entendimento do Real e da obscuridade de algumas construções feitas na pós-modernidade, no pós-11 de setembro.
O ponto é que é injusto não plantar a semente de um pensamento um tanto mais herético nas simulações. Afirmar que isso é impossível, que é complicar demais, é, para mim, fugir ao problema de tentar fazer o evento ser realmente edificante - não há sentido em fazê-lo se se busca se não se busca isso e sim um simples prestígio ou modismo. Uma afirmação de pluralidade e de encarnação simulatória de pontos de vista heterogêneos não fica completa se a estrutura de discussões é tratada como dogma e extendida, e não dialogada, aos simulantes. Acaba sendo feito aos modelistas pelos organizadores e não algo feito com ambos.
E como fazer? A princípio é possível entender que a pergunta desarma e joga o organizador dos modelos em uma situação de impotência. As simulações, nessa perspectiva, tornam-se inúteis, bobocas, ralas e superficiais, alienantes? A resposta pode ser negativa se tivermos em mente que não existem regras fixas para se construirem modelos. A simulação diplomática não é uma caixa que se compra hermeticamente fechada e nem um bolo feito com a receita secreta imutável da vovó. A vovó deixa mudar sim, e, se não deixar, dá mudar de qualquer jeito.
Uma das hipóteses de solução é a de trazer pessoas, palestrantes, para enriquecer a experiência, que tenham familiaridade com a crítica aos dogmas das relações internacionais atuais. Desta maneira os modelistas interagiriam com as idéias e a semente de certa forma seria plantada. E existem também outras maneiras. Um discurso de um dos diretores ao final das atividades que abordasse o assunto, por exemplo, poderia ser tão edificante quanto também colocado como uma pedra no sapato de todos os participantes e tal coisa é algo a ser contado - contudo nunca um obstáculo intransponível. Como o leitor bem sabe o inconveniente muitas vezes vale mais.
O importante é não deixar a peteca cair. Reconheço o valor das simulações e repito isso a quem quiser ouvir. Entretanto tal valor advém de esforços diversos e muitas vezes o anel de brilhante da vovó, ou suas revistas pornôs, estão tão próximos que nem imaginamos.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Rápidas IV

A. O imbróglio das grades (é, aquele mesmo)
E olha só! Acompanhando a evolução lenta das grades escolares santacruzenses! Nos tocos de 1 metro instalados como prolongamentos dos postes de sustentação das grades do entorno da escola agora já são preparados fios - uma instalação elétrica. O que podemos esperar?
Atualização (21.11):
Acho que descobri o que são! Nada de grades! Postes de luz! Se tudo der certo esse só foi um apuro ilusório!

B. Engajamento, cinema
Vi um filme hoje que coloca em questão o engajamento e acho interessante trazer aqui para enriquecer a discussão proposta pelo texto número 23, "A importância do engajamento". "Leões e Cordeiros" ("Lions for Lambs", EUA, 2007) de Robert Redford (é, o ator) lança de maneira perniciosa argumentos a favor de um determinado engajamento. É legal ver, mas não garanto satisfação. O problema é que a "luta" que o filme propõe é uma luta de certa maneira inglória.