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terça-feira, setembro 02, 2008

38.

Como já coloquei nas Rápidas anteriores acho esse debate sobre a revisão da interpretação da Lei da Anistia muito importante. É muito importante a composição da memória coletiva do brasileiro em rumos mais progressistas que esse debate seja feito e que sejam punidos e reconhecidos moralmente aqueles que em nome de todos nós torturaram, mataram e fizeram desparecer homens e mulheres que lutavam pela liberdade, munidos de um único direito, o de resistência contra um regime de exceção assassino.



Nossa Lei da Anistia
e a infame tentativa de esquecer feridas e igualar desiguais

No final do regime de exceção iniciado em 1964 no Brasil os militares, ainda no poder, gradualmente programam sua saída e concedem a todos os envolvidos em "crimes políticos" a anistia "ampla, geral e irrestrita" em lei que livrava tanto a cara daqueles por tanto perseguidos pelos fardados quanto dos próprios agentes da exceção, da tortura, da Ditadura. Hoje se debate pela revisão na interpretação dessa lei. A tortura, segundo alguns tratados internacionais que o Brasil assina, é um crime lesa-humanidade imprescritível, ou seja, deve ser punido mesmo 20 anos depois de ter acontecido.
Os lados se acirram e aqueles que defendem o tampão na memória seguem pelo argumento da segurança jurídica, da prescritibilidade do crime no sistema jurídico nacional e de uma pretensa eqüidade entre aqueles que cometeram os chamados "crimes políticos" pelo lado da Ditadura e aqueles que resistiram a ela, os tachados "terroristas", que praticaram atos como seqüestros, por exemplo. Nesse último recurso se coloca que se a lei for revista para o lado dos torturadores ela também deve ser flexibilizada àqueles que cometeram tais crimes, por estes também serem atos de violência igualáveis aos cometidos pelo Regime Militar, de mesma gravidade.
Esse assunto é muito importante pois nos lembra que nem sempre com a lei vem o que é mais certo ou o que é justo, e que muitas vezes dá pra ser perverso e completamente injusto seguindo e obedecendo a todos os diplomas legais. Todos esses institutos jurídicos, devemos lembrar, são invenções nossas - são abstrações que podem muito bem ser véus ilusórios se não nos atermos ao conflito de fato, ao que está em jogo não só no mundo jurídico como no mundo concreto. O direito não é nem nunca foi força-motriz de nada, dele, ou de dentro dele e de seu amado dogma do "estademocrátidedireito", não sai nem nunca sairá nenhuma das grandes conquistas que já foram alcançadas pelos movimentos sociais populares que lutam por direitos humanos e sociais. O direito, no limite, efetiva conquistas depois de muitas pressões sociais, e por isso aquelas argumentações que ficam só no plano do direito perdem o chão e se mostram completamente mancas pois não contam com a base essencial de uma análise completa das nervuras sociais afetadas pelo conflito e sobre o que cada um ganha e perde com a decisão X ou Y.
É evidente que a questão não é simples, se o fosse já teria sido resolvida, até porquê questões que envolvem o embate de forças reais que agem na sociedade nunca são simples. O porém é que muitas vezes é alegada uma complexidade para colocar os defensores da punição aos torturadores como ato de revanchismo e simplismo intelectual, reducionismo autoritário. Não é revanchismo, não é simplismo ou reducionismo e nem é complexo para aqueles que foram torturados barbaramente por se insurgirem contra um Estado que matava, censurava e calava em nome de todos nós, dizer que aqueles que os torturaram devem ser punidos por isso. A complexidade vai até o ponto em que pensamos em que existem diferenças qualitativas gritantes que afastam os argumentos da prescrição e principalmente aquele da "flexibilização" da Anistia para ambos os lados.
No que diz respeito à prescrição, entrando no mérito jurídico, pois apesar deste campo não ser o da discussão principal nem prover os elementos mais caros ao debate ele faz sem dúvida uma mediação importantíssima, ela é um instituto pensado conforme algumas problemáticas determinadas, óbvio que dentro do que são abstrações jurídicas típicas. Ela existe por conta de que: (1) depois de um bom tempo cessaria o interesse social na resolução daquele crime se nada se apurasse, e; (2) depois de um bom tempo a identidade do réu é transformada, ele não é mais aquela mesma pessoa que cometeu o crime. Nessa questão é essencial que pensemos que o interesse social nesses crimes cometidos pelos agentes da Ditadura é completamente excepcional comparado à daquele crime passional cometido na esquina - estamos tratando aqui de questões de Estado brasileiras, de crimes cometidos em nome de todo o nosso povo, e negar que existe um interesse social ainda latente nessa memória, e não de um grupo de lamuriadores solitários, é tapar o sol com a peneira. As manifestações de setores inteiros do Ministério da Justiça e da Secretaria Especial de Direitos Humanos provam que não é um grupelho que isso reinvindica, mas sim segmento importante da sociedade brasileira. Segunda questão sobre a prescrição é que os réus se beneficiaram grandemente com a conjuntura política no cenário da promulgação da lei, que foi feita ainda durante o Regime Militar, de cima para baixo. Será que as identidades mudaram tanto assim? Muitos, muitos mesmo, ainda continuam sustentados pelos impostos de milhões de brasileiros.
E, por fim, a triste tentativa de igualar e justapor como idênticas coisas completamente desiguais. É completamente descabida a colocação de que a flexibilização da interpretação da Lei da Anistia deveria servir aos ditos "terroristas" que cometeram "crimes políticos igualmente violentos". Devemos enumerar as diferenças qualitativas: (1) Não podemos chamar de "terroristas", meros criminosos, se pensamos que aqueles que resistiam agiam no único direito que lhes fazia sentido, um Direito de Insurgência contra um Estado Assassino de Direito, que caçou como um lobo faminto todos aqueles que se levantavam contra suas atitudes. Esse direito não é uma invenção e sim uma construção histórica que remonta os clássicos políticos - temos direito de nos rebelar contra um Estado que quebra o pacto e que se volta contra as nossas liberdades que ele deveria garantir, diz Rousseau; (2) É inegavelmente qualitativa a diferença daqueles que cometem atos de violência sob o manto do mando do Estado, em nome de todos, àqueles que agem com violência para resistir e lutar contra o mesmo - essa qualidade de estar revestido da autoridade do monopólio legal da força é crucial e esse mérito contribui para percebermos a incoerência de igualar o que é materialmente desigual; (3) Os membros da resistência, os ditos "terroristas", nós sabemos os nomes de todos. Não sei o nome de nenhum torturador-geral da república do Regime da Revolução de 1964. Isso representa que alguma coisa não é tão igual assim; (4) É muito diferente o fato que as medidas de violência do lado da resistência democrática foram exceção da regra e do lado da Ditadura foram a regra da exceção. É cruel e sem cabimento igualar a violência do opressor, ainda mais sendo ele o Estado, à resistência enérgica do oprimido.
A diferença nas qualidades das situações analisadas nos leva à discussão de mérito e coloca em xeque a tentativa de deixá-los aparentemente idênticos como simples atos de violência, que se equiparam e se anulam. São coisas diferentes no mérito e devem ser tratadas como diferentes. Lembremos que essa não é discussão técnico-jurídica, é discussão jurídico-Política, assim, com "P" maiúsculo.
Sempre fazem alarde com os princípios da democracia brasileira. Acho que um deles, importantíssimos para tanto saldar dívidas com o passado como para bem-resolver o futuro e condenar de vez momentos históricos lamentáveis, é um princípio do direito à memória, do direito à história. E é história de nosso país que houve Ditadura e que ela, por meio de seus agentes torturou Fulano, Beltrano e Sicrano que resistiam à idéia de um regime de exceção onde poucos decidiam por muitos rumando o Brasil numa trilha de desigualdade e fissura social. O medo e a falta de vontade em punir os torturadores é aliada do esquecimento e do tampão histórico e, comos disse Silas Cardoso, esquecimento tem lado claro determinado na correlação de forças sociais que agem em nosso país.
Rápidas XV

1. Catracasnasarcadas
A cruzada do diretor João Grandino Rodas para a aprovação do pacote de "medidas de segurança" na São Francisco vêm acompanhada de uma ânsia por "racionalizar" espaços estudantis, ou seja, utilizá-los para a promoção de uma marca, a saber, a Livraria Saraiva. Boatos rolam soltos por essas bandas que o diretor já selou um acordo com a Livraria para a utilização dos espaços do SAJU e da Atlética. É ver para crêr, lembrando que ano que vem tem eleição para reitor na USP e todo mundo sabe quem quer sair candidato.

2. Anistia?
Setores do governo se movimentam a favor da revisão da interpretação da chamada "Lei da Anistia", promulgada ainda no fim do regime militar brasileiro. Os ministros Tarso Genro (do Ministério da Justiça), por intermédio da Comissão de Anistia do MJ, e Paulo Vanucchi (Secretaria Especial de Direitos Humanos) promovem um debate acerca da punição dos agentes torturadores da Ditadura Militar, baseados nos inúmeros tratados de Direito Internacional dos quais o Brasil é signatário que colocam a tortura como crime lesa-humanidade imprescritível (no juridiquês aquele crime que não prescreve, ou seja, que sempre pode ser punido, independente quanto tempo passou desde sua consumação), que, portanto, não seria passível de Anistia. Do outro lado os militares e setores conservadores falam de revanchismo, de segurança jurídica e do fato que "bom, se vai flexibilizar tem que flexibilizar para aqueles 'terroristas' que cometeram crimes graves também, como seqüestro" (tentando equiparar a tortura cometida por agentes do Estado a crimes cometidos por grupos de resistência ao Regime Militar).
Esse debate é muito importante. Ele é o debate do direito de um país à memória e deve ser feito com muita atenção.

quinta-feira, junho 12, 2008

É claro que um dos meu grandes assuntos de ultimamente tem sido o do Fórum da Esquerda. Sim, eu tenho falado muito politico-estudantês nos últimos tempos, o que se é bom por um lado, é estranho por outro. Algumas palavras do jargão do movimento estudantil acabam pegando na gente, e pouco a pouco padronizando e homogeneizando as idéias e a linguagem de um grupo. Por isso as férias são boas, pra dar um frescor de individualidade quando o grupo volta e pra nós mesmos.
Já pensei em uns trocentos assuntos nesses últimos dois meses, a questão maior é que faltou tempo para escrever - sentar a bunda e escrever. E nem é preguiça!
Espero muito poder escrever mais agora em julho, explicitar algumas de minhas angústias. O XI, o centro de São Paulo, o Direito. Tudo isso fica orbitando minha cuca, mas acabo não falando de nada.
Boas férias, amigos.

quinta-feira, maio 29, 2008

Rápidas XIV
A. Uspianos de todo o mundo - uni-vos! (III)
É, pessoal, o V Congresso da Universidade de São Paulo foi inviabilizado pelas manhas autoritárias da reitora. Deixando a decisão de liberar ou não os funcionários às unidades a altaburocracia universitária deu um tiro fatal no evento que pretendia discutir a "Universidade que Queremos". Por mais que seja possível criticar a posição irredutível do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP) de se retirar é necessário que nos solidarizemos com os funcionários, sacaneados, que ainda haviam se proposto a manter os serviços essenciais dos campi, como circular e bandeijão.
Também não é animadora a posição adotada pelo ME na Assembléia do dia 26/05, mas acho inútil colocarmos a culpa disso em grupo X, Y ou Z que é "aparelhado" por "partideco" A, B ou C - o problema foi do movimento, que dissolveu a estrutura montada para o Congresso e adotou um calendário confuso de uma tal "Jornada de Lutas". A questão é: se esse é a único espaço no qual a Universidade tá sendo discutida nós temos que participar.
B. Novidades
Acho que vou poder me dedicar mais à manutenção e à produção cá aqui no Palavras. Estou me demitindo do emprego, pra poder levar melhor a Faculdade.

quinta-feira, maio 22, 2008

Rápidas XIII

A. Uspiano de todo o mundo - uni-vos! (II)
O V Congresso da USP já é semana que vem - é hora de discutirmos a nossa Universidade. Não deixem de participar! É fundamental estar lá a par das discussões e se mobilizando se quiseremos realmente transformar a USP da elite cafeeira da década de 30 na USP popular do século XXI.
Aliás, o evento sobre Universidade Popular que anunciei no mural foi um sucesso; agradeço a todos que compareceram. Desde a palestra do profº Zé Geraldo, passando pelos GTs e finalizando no painel de movimentos sociais conseguimos iniciar a discussão sobre a "Universidade que queremos".
A chapa "Universidade em Pauta", da qual fiz parte, conseguiu 53% na São Francisco, levando, assim, 4 delegados para o Congresso.

B. Marasmo palavrasdeordeniano
É, eu sei, a produção do Palavras já foi mais intensa. Mas é questão de tempo. A vontade de escrever vai e vem sem motivo aparente.

quinta-feira, maio 08, 2008

Mural de Eventos PdO 1ªed.

Segue convite para evento organizado na Faculdade de Direito da USP. Qualquer coisa meu email, vocês sabem, é fbritocruz@gmail.com.


Universidade Popular

13 e 14 de maio na Faculdade de Direito USP

Um projeto diferente de Universidade

Perplexos com o quadro de extrema exclusão da universidade pública brasileira e esperançosos com a chegada do V Congresso da USP, não podemos deixar de nos perguntar: qual é a Universidade que queremos, afinal?
Na busca de contribuir para essa discussão, os coletivos Dandara, Fórum da Esquerda e SAJU trazem à FDUSP nos dias 13 e 14 de maio a defesa de um projeto popular de Universidade.
Como estudantes de uma Universidade pública, cabe a todos e todas nós realizar reflexões como essas e levá-las para momentos de construção e de luta, como o V Congresso da USP.
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13.05
19h: “O que é Universidade Popular?” – Palestra com o professor José Geraldo de Sousa Junior (Direito - UnB)
Debatedores: professores Celso Campilongo e Diogo Coutinho


Contando com a participação de José Geraldo de Sousa Junior, professor da UnB e membro do Núcleo de Estudos para a Paz e Direitos Humanos, este evento buscará pautar, a partir de um observador crítico de dentro da academia, a importância dos movimentos sociais como atores jurídico-políticos e o papel Universidade neste contexto.

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14.05
Grupos de trabalho
9h: “Ensino, pesquisa e extensão” com a professora Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer (FFLCH-USP)
11h: “Fundações e financiamento”

Neste momento, nos debruçaremos sobre dois dos temas eleitos como eixos do V Congresso.

19h: “Os movimentos sociais em defesa da Universidade Popular” contribuições do MST, Educafro e Universidade Zumbi de Palmares
Para a construção verdadeira desse projeto popular de universidade, não podemos deixar de dar voz àqueles que estão de fora, querem e têm o direito de entrar.

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Esse evento faz parte do calendário de preparação para o V Congresso da USP, momento em que funcionários, professores e estudantes pararão a USP para refletirem sobre “A Universidade que temos e a Universidade que queremos”.
Em representação paritária as categorias discutirão seis eixos temáticos, são eles:

1. Educação e Conjuntura
2. Ensino, pesquisa e exten­são
3. Fundações e financiamento
4. Estrutura de po­der/Democracia
5. Acesso, permanência e ex­pansão de vagas
6. Organização da luta unifi­cada após o Congresso

Local: Sala dos Estudantes da FDUSP – Largo São Francisco, 95

Coletivo Dandara Fórum da EsquerdaTransgredindo a Indiferença! Serviço de Assessoria Jurídica Universitária – SAJU USP

segunda-feira, abril 28, 2008

Rápidas XII

A.  Uspianos de todo o mundo - uni-vos!
O V Congresso da USP vem chegando aí para unir as lutas das 3 categorias da Universidade. Os eixos temáticos "Educação e conjuntura", "Fundações e financiamento", "Ensino, pesquisa e extensão", "Acesso, permanência e expansão de vagas", "Estrutura de poder e democracia" e "Organização das lutas unificadas após o Congresso" serão pauta do Movimento Estudantil da Universidade de São Paulo durante a última semana de maio.
Vamos ficar atentos! Logo mais começa o processo eleitoral para delegados e a criação de teses!

B. Mural de Eventos do PdO
Estarei a partir dessa semana inaugurando um "mural de eventos", que é basicamente publicar convites para eventos que possam ser considerados interessantes que rolarão por aí e que eu, por intermédio do Fórum da Esquerda, organize, ajude a organizar ou fique sabendo. Em breve já posto algumas coisas...

terça-feira, abril 08, 2008

35.


Uma grande falácia perigosa

Ou como estragar o Movimento Estudantil

É interessante que na Faculdade de Direito a gente ouve muita coisa, muitos discursos meio bizarros - especialmente na chamada "política acadêmica", que é o jeito que chamam o Movimento Estudantil (ME) lá pelas Arcadas. Tem gente que prega a monarquia, tem outros que alopram geral e soltam uma publicação racista pra fazer "piada" e ainda podemos observar aqueles outros que, não tendo mais o que fazer, vão nos debates e resolvem literalmente cuspir fogo.
Claro que existem outros lados desse prisma que são mais sérios (ou que tentam ser) e que apresentam para o corpo de alunos uma proposta minimamente coesa de representação, em especial no que diz respeito à disputa política pela entidade representativa dos alunos, a saber, o Centro Acadêmico "XI de Agôsto". É rala a compreensão de que se trata de uma briga por poder, pois o conflito transcende e deve transcender o carguismo ou o oportunismo (mesmo não transcendendo às vezes) e se coloca num embate de projetos de representação e ação política perante os espaços ocupados pelos estudantes (sociedade, discussão sobre educação, ME) de Direito (debates na e da Faculdade) na USP (logo, ME da USP).
Todos esses viéses de compreensão da política estudantil encontram resposta na e da Faculdade e a influenciam e transformam de maneiras e intensidades diferentes, com orientações evidentemente diferentes. Na minha opinião algumas dessas correntes são, no mínimo, mancas e enfadonhas e, verdadeiramente, completamente tacanhas, conservadoras e subservientes à projetos de Universidade e Brasil sem compromisso com a igualdade e com a emancipação popular.

Falo especificamente de um discurso muito comum nas Arcadas caracterizado pela idéia de que o Direito pode e deve passar a ser ferramenta essencial do ME para ele se renovar perante os a atualidade e que, sendo o XI o Centro Acadêmico da Facudade de Direito, nada mais natural que esse lidere o movimento nas suas ações que encontrariam ou tentariam encontrar espaço por e pelas normas. O Direito, em todos os sentidos que cabe a expressão, transformaria a realidade e nele se daria a luta política. As leis e os procedimentos adotariam roupagem progressista e a norma seria a forma da emancipação.
Aos que pensam assim faço um desafio: que me mostrem uma situação histórica onde a mudança legal, jurídica, foi mola propulsora do movimento e da luta política e social. Provavelmente por ignorância eu vejo pouquíssimos senão nenhum exemplo. Não é possível criar regra fatalista na História sem cair em simplismos, mas é possível identificarmos tendências. O Direito não é e nunca foi meio. Ele não é e nunca deve ser fim. Ele é conquista - e só é conquista verdadeira se existem mecanismos para assim se tornar eficaz. O Direito não transforma, ele é transformado. O Direito não é sujeito transformador da sociedade, muito menos seus operadores se eles não souberem responder às demandas que a realidade traz e não se colocarem como parte dela.
Lutar pelo Direito não é fazer política "nos termos corretos" pois a política não se dá nos termos do Direito quando tratamos de vontades materiais e concretas por conquistas reais, substantivas e substanciais. O que deve ser feito pelos estudantes em sua maneira de protestar e contestar um "Estado de Direito" que muitas vezes se apresenta opressor e aliado à explorações capitalistas não está no Direito. Ele não vai dizer para que rumo temos de seguir e não é nem deve ser pauta política do movimento se tivermos compromisso com a realidade. A liberdade e a igualdade não devem se apresentar numa lógica e roupagem formal e(ou) legalista, mas de uma maneira real - até porquê só são reais se aparecem dessa maneira.
Esse jeito de pensar coloca o papel do XI como assistente jurídico externo ao ME da própria Universidade que a FD faz parte de uma cultura de distanciamento da práxis política e de ruptura com agentes transformadores e de luta que atuam na sociedade tais como movimentos sociais dos mais diversos. Esse jeito de pensar introjeta nas cabeças dos franciscanos que não fazemos parte do conflito e da construção uspiana. Subestimamos a capacidade intelectual dos outros estudantes da USP de maneira ultrajante achando que eles não sabem o que fazem e o que devem fazer.
E ainda dizem as cabecinhas protojurídicas que devemos estar um passo a frente do ME - sintomático. Para tais devemos mesmo estar um passo a frente, de preferência sem olhar pra trás para ver se ele caiu. Triste. Devemos estar do lado, em volta, na luta, na briga, no debate - nunca esnobemente na frente.
Falar que a política estudantil da Cidade Universitária é anacrônica e retrógada é recorrente nesses hermeneutas peculiares, mas não consideram como tal prática "caduca" conseguiu conquistar diversos pontos de extensa pauta numa atitude que foi feita à sua revelia e eles tiveram que tolerar pela vitória - a Ocupação da Reitoria de Abril/Maio/Junho de 2007. Paradoxal declarar que uma coisa hoje não dá mais certo se ela deu a menos de um ano atrás.
É a velha discussão do retorno do "Onze Grande". É o desejo de voltar a ser "o" CA, de estar por cima da carniça. Do XI voltar a brilhar. O XI não tem que e nem vai brilhar por estudarmos Direito. Seremos burros ao ponto de perceber que o passo a ser dado na política estudantil da São Francisco não é nos enveredar pelo caminho inútil e obtuso do Direito e sim engajar-se na construção de uma USP mais democrática, inclusiva e que responda às demandas populares?

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Rápidas XI

1. Corra que a polícia vem aí
E como eu já disse os policiais da gramática, seres mais chatos do mundo, rondam o palavras e reclamam nas minhas costas que minha escrita é repleta de erros. É mesmo. Eu não faço revisão, não tenho saco, e também não tenho saco de ficar me policiando quando sei que isso não passa de frescura. Se alguém não entendesse o que eu quero dizer aqui por que tava errado é uma coisa - outra muito diferente é ficar de frescurite aguda tentando achar defeitinho no que os outros escrevem. Já estou um pouco farto dessa história. Sei que meus protestos são inúteis, mas não consigo calar-me.

2. Só Obama?
Muito interessante um candidato símbolo de resistência e vitória de um povo oprimido ganhar ou ter chances de ganhar as eleições estadunidenses. E não seria mais legal se o candidato(a) fosse símbolo de dois segmentos oprimidos?

3. Em breve
Notícias do Largo de São Francisco e o começo do ano político. Juro que sai algo do gênero.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Rápidas X

1. Lembrete
O texto n°32, só para lembrar, é "bastante" antigo se comparado à todos os outros. Resolvi lembrar isso mais por achar que isso teria que ficar bem claro tal como o porquê de postá-lo. É um momento que o pensamento estava em sua fase de desenvolvimento mais inicial.

2. Novos rumos?
Chegou em mim a notícia que o colégio contratou um renomado arquiteto italiano para cuidar de sua programação visual-arquitetônica-espacial, depois dos seguidos golpes de picareta desferidos por engenheiros bem-intencionados contra a obra de Tibau.

3. De volta ao Largo em breve
E daqui a alguns dias voltarei às aulas com novo ânimo e com novos calouros. E com novíssimos assuntos.

quarta-feira, outubro 31, 2007

23.

Estava a algum tempo para escrever algo sobre o que vem acontecendo comigo na Faculdade. Durante todo este ano questionamentos profundos caíram sobre mim e recentemente tomei a decisão de entrar num grupo chamado
Fórum da Esquerda. Este texto é dedicado à este grupo e à minha decisão. Não é uma tentativa de justificativa e sim algo bem mais importante que isso. Espero que gostem.


A importância do engajamento

"Cuidado, Chico, muito cuidado com eles", era o que falavam todos os meus conselheiros sobre os membros de grupos de política acadêmica - em especial os de esquerda. O medo dos vermelhinhos foi fomentado em mim mesmo antes do dia da matrícula e por isso o meu relacionamento com este plano de espaço político já começou com um pé atrás. Por um lado existia a exaltação de uma ágora presente, latente e consistente na São Francisco mas por outro o alimento de um desdém, um desprezo em relação a atualidade deste espaço.
Pesando isso fui muito cauteloso. Não queria tomar nenhuma decisão errada, nenhuma que eu pudesse me arrepender. Não queria decepcionar as pessoas que mais me contavam da Faculdade, de suas histórias e tradições. Não podia desconsiderar seus conselhos afinal conheciam aquele ambiente a mais tempo que eu e sempre considerei seu bom senso e sua inteligência. E assim meu ano de calouro foi passando, passando, passando. Passou a ocupação, a greve, o primeiro semestre. Nem sei quantas vezes neste período minha visão mudou de lado e a complexidade das questões sobrevoava minha mente induzindo uma espécie de paralização de congelamento. Eu pouco sabia o que fazer e o que apoiar. Comecei a perder as bases. Ora criticava e ora elogiava as atitudes de ambos os lados das polêmicas. Acumulei bagagem e principalmente realizou-se em mim um começo de uma sedimentação política mais séria, claro que ainda meio manca.
E veio o segundo semestre e com ele uma carga muito mais intensa de vida acadêmica. A ocupação de 22 de agosto. A Assembléia Geral Extraordinária e a "destituição" do presidente do XI, Ricardo. O tanto de energia e razão que eu tinha recuperado nas férias eu perdi e num dia que buscava clareza sobre minhas opiniões e princípios escrevi um texto sobre tais fatos, publicado aqui mesmo neste blog. Creio que este texto foi o início não de uma clarificação propriamente dita, mas de um processo de exposição a mim mesmo de como algumas coisas mereciam sua devida atenção. Alguns integrantes daquele grupo do qual eu tinha medo mas de certa maneira defendia no texto leram aquilo que eu tinha escrito e gostaram. Comecei a considerar seriamente sobre eles, sobre as suas atitudes. Não que eu tenha colocado num pedestal as atitudes do Fórum da Esquerda este ano, muito pelo contrário, as coloquei sobre uma lente de pesada crítica pessoal. Neste momento despontou em mim um intenso sentimento de admiração. Sério e profundo este sentimento ajudou-me a verificar que via neste grupo qualidades que eu considero louváveis e essenciais na vida política; coragem, senso de justiça, ideais sólidos e acima de tudo um comportamento de projetar-se sobre algo, de tomar posição.
É neste ponto que quero me ater, no engajamento - porque de fato tomei a decisão de participar deste grupo, de vestir esta camisa.
Baseei-me tanto no ideário que percebi como também em atitudes individuais e coletivas deste grupo e disso posso tirar algumas conclusões. Não venho aqui me justificar como alguma criança que fez levadeza, malcriação, até porque não acho que o que fiz foi algo parecido com isso nem muito menos quero aqui adotar uma atitude prepotente de salvador da pátria de ter entrado numa equipe de anjos salvadores da Terra dos homens comuns. O que desejo é relevar a importância do meu questionamento e dizer que depois de ter o feito concluir que sim, eu fiz a escolha certa, e disso me orgulho. É claro que neste ponto cabe ressaltar a importância do uso da expressão "escolha certa" não como sendo algo dogmaticamente eterno mas sim como um importante passo num processo pessoal. Amiga minha disse-me que em seu processo de entrar no grupo foi aconselhada que talvez fosse mais difícil se travasse uma batalha consigo mesma ao invés de toda a Faculdade se não fizesse essa escolha e é justamente isso. O fazer, o engajar-se, para então poder questionar, criticar, levar porrada e construir junto. A crítica de fato é tão importante quanto propriamente a decisão pois é nela que o grupo cresce e é com o constante movimento interno que os sentimentos e as idéias amadurecem e se tornam cada vez mais sólidos, coesos e coerentes - e mais suscetíveis a mudanças também, claro.
Não me importa se ganhamos ou não estas eleições que disputamos. Para mim isso não é tão importante quanto o fato de neste momento eu ter percebido que minha vida nunca mais será a mesma. Esta semana una e poderosa conseguiu mudar toda a minha concepção da Faculdade e me fez perceber que por mais que tenha sido importante todo o processo de ruminar este alimento político engoli-lo é o momento crucial, foi o momento crucial.
Um veterano de outro partido me perguntou o porquê eu estava vestindo aquela camiseta vermelha em um dia de votação, caçoando de mim. Sério eu pensei e rapidamente todas estas questões me passaram pela cabeça: valia a pena bater de frente com pessoas que eu tinha aprendido a gostar para esses ideais e este programa defender? Valia levar inúmeras patadas e esforçar-se para não perder a postura após ser surrado numa roda de conhecidos por visões políticas irredutíveis e contrárias? Ponderei alguns segundos. Aquele veterano representava tudo o que me fazia ter receio de vestir a camiseta vermelha, todos os poréns e os contras que eu estava adotando e sofrendo. Depois de assim considerar soltei: "Visto pois prefiro tomar uma posição". Nesta afirmação respondi para mim mesmo que sim, valia sim a pena sofrer de tudo por aquilo. Era o que eu acreditava e acredito. O importante não é só pensar e se dizer algo e sim efetivamente entrar de cabeça e se projetar neste ideal, mesmo que a piscina seja rasa e possa doer.
Se eu começar a tentar explicar toda a importância existencialista do engajamento vou acabar fazendo uma paráfrase ridícula de Sartre mas tenho de afirmar (o menos pretenciosamente possível) que muito nele pensei durante as minhas ações desta semana passada. É nas ações e nas escolhas que o homem se constrói e quando escolhe para si algo escolhe para toda a Humanidade. Por mais chavão que isso pareça eu acredito. O lado que eu escolhi eu escolho para todo mundo, mesmo. Deste modo faço uma escolha e me engajo e é importante que essa escolha e esse engajamento não sejam cegos e creio que não o são. Considerando que pensei nesta possibilidade durante alguns meses não posso deixar de dizer que não foi uma decisão feita guiada pelo sentimento até por que é nas escolhas, nos atos praticados, na ação, segundo Sartre, que ele se constrói. Foi uma opção autenticamente genuína mas nem por isso burra, cegamente idealista ou perenemente teimosa, eterna.
Os vermelhinhos são perigosos como me diziam? O engajamento pode ser perigoso mas não é por isso que temos de ter medo ou receio dele e é isso que as pessoas que afirmam a invalidade da prática vermelha sentem. Medo, receio e egoísmo foram os sentimentos que levaram o Fórum a perder as eleições - não qualquer estratégia política. Medo de encarar o confronto que é perigoso sim, perigoso por destruir, desconstruir toda uma base política que trazemos de casa, de bagagem. Covardia reducionista de achar que a matrícula da Fuvest é uma escritura de propriedade da Faculdade. Receio de abrir uma porta que pode mostrar o que temos de mais podre, receio de fazer autocrítica. Hipocrisia de declarar-se muito partidário da justiça social e blábláblá, mas revelar em seu voto intenções de continuidade de opressões e omissões corrosivas. É evidente que temos de tomar cuidado com generalizações e considerar o processo pessoal de aceitação da idéia de cada um e o respeitar. Nem todos os que não se engajam o fazem por medo e existem questões e mais questões envolvidas nisso mas o que trato aqui é o impacto e o existente enorme valor que isso tem em uma vida, no caso, a minha. De qualquer maneira podemos confirmar que os vermelhinhos são perigosos e que isso é bom.
Lembro aqui só a questão da individualidade inserida na coletividade e como essas duas entidades andam juntas na construção de uma parceria vantajosa de ambos os lados. A balança nunca deve pesar demais para um dos lados que o outro é prejudicado e é importante lembrar que há momentos - uns para uma dedicação quase-exclusiva ao grupo e outros para uma instrospecção e reflexão também claramente importante até mesmo para uma saúde do coletivo.
Estou feliz no Fórum da Esquerda. Conheço muito pouco de todos os seus integrantes profundamente, é verdade, e muito pouco dos problemas que todo grupo tem. Não acho que estar desse lado é fazer parte de algum exército da perfeição ou algo parecido, longe disso. É saudável que um grupo se questione e que nele, dentro dele, haja constestação, questionamento e crítica - senão esse grupo não anda, nem para frente, nem para trás - e não andar é sinônimo de engajar-se em não engajar-se, certo? Sinônimo de optar por não escolher o que é também uma escolha que anda lado a lado com uma engajamento envergonhado maquiado de indiferença. Apesar disso percebo que faço parte de algo e este algo faz parte de mim. Não é carência ou modismo como podem acusar alguns e sim uma profunda identificação e admiração.
O acolhimento que tive é também motivante para um agradecimento. Sei que o sonho não irá acabar com uma derrota que no fundo eu sabia que era provável que sofrêssemos e sei que o mais importante não é isso. Vão me acusar de fazer juízos de valor mas respondo que em algum momento da vida quando definimos os nossos princípios algumas questões axiológicas vêm e não podem ser deixadas de lado. O importante é que, como eu já disse, escolhi por mim e por todos os homens algo que eu considero não só belo mas correto, justo, digno e bom. O importante é, também, que eu não estou sozinho. Obrigado, amigos, e, agora, companheiros.