quinta-feira, maio 29, 2008
quinta-feira, maio 22, 2008
quinta-feira, maio 08, 2008
Segue convite para evento organizado na Faculdade de Direito da USP. Qualquer coisa meu email, vocês sabem, é fbritocruz@gmail.com.

13 e 14 de maio na Faculdade de Direito USP
Um projeto diferente de Universidade
Perplexos com o quadro de extrema exclusão da universidade pública brasileira e esperançosos com a chegada do V Congresso da USP, não podemos deixar de nos perguntar: qual é a Universidade que queremos, afinal?
Na busca de contribuir para essa discussão, os coletivos Dandara, Fórum da Esquerda e SAJU trazem à FDUSP nos dias 13 e 14 de maio a defesa de um projeto popular de Universidade.
Como estudantes de uma Universidade pública, cabe a todos e todas nós realizar reflexões como essas e levá-las para momentos de construção e de luta, como o V Congresso da USP.
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13.05
19h: “O que é Universidade Popular?” – Palestra com o professor José Geraldo de Sousa Junior (Direito - UnB)
Debatedores: professores Celso Campilongo e Diogo Coutinho
Contando com a participação de José Geraldo de Sousa Junior, professor da UnB e membro do Núcleo de Estudos para a Paz e Direitos Humanos, este evento buscará pautar, a partir de um observador crítico de dentro da academia, a importância dos movimentos sociais como atores jurídico-políticos e o papel Universidade neste contexto.
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14.05
Grupos de trabalho
9h: “Ensino, pesquisa e extensão” com a professora Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer (FFLCH-USP)
11h: “Fundações e financiamento”
Neste momento, nos debruçaremos sobre dois dos temas eleitos como eixos do V Congresso.
19h: “Os movimentos sociais em defesa da Universidade Popular” contribuições do MST, Educafro e Universidade Zumbi de Palmares
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Esse evento faz parte do calendário de preparação para o V Congresso da USP, momento em que funcionários, professores e estudantes pararão a USP para refletirem sobre “A Universidade que temos e a Universidade que queremos”.
Em representação paritária as categorias discutirão seis eixos temáticos, são eles:
1. Educação e Conjuntura
2. Ensino, pesquisa e extensão
3. Fundações e financiamento
4. Estrutura de poder/Democracia
5. Acesso, permanência e expansão de vagas
6. Organização da luta unificada após o Congresso
Local: Sala dos Estudantes da FDUSP – Largo São Francisco, 95
Coletivo Dandara Fórum da Esquerda – Transgredindo a Indiferença! Serviço de Assessoria Jurídica Universitária – SAJU USP
segunda-feira, abril 28, 2008
terça-feira, abril 08, 2008
Uma grande falácia perigosa
Ou como estragar o Movimento Estudantil
Claro que existem outros lados desse prisma que são mais sérios (ou que tentam ser) e que apresentam para o corpo de alunos uma proposta minimamente coesa de representação, em especial no que diz respeito à disputa política pela entidade representativa dos alunos, a saber, o Centro Acadêmico "XI de Agôsto". É rala a compreensão de que se trata de uma briga por poder, pois o conflito transcende e deve transcender o carguismo ou o oportunismo (mesmo não transcendendo às vezes) e se coloca num embate de projetos de representação e ação política perante os espaços ocupados pelos estudantes (sociedade, discussão sobre educação, ME) de Direito (debates na e da Faculdade) na USP (logo, ME da USP).
Todos esses viéses de compreensão da política estudantil encontram resposta na e da Faculdade e a influenciam e transformam de maneiras e intensidades diferentes, com orientações evidentemente diferentes. Na minha opinião algumas dessas correntes são, no mínimo, mancas e enfadonhas e, verdadeiramente, completamente tacanhas, conservadoras e subservientes à projetos de Universidade e Brasil sem compromisso com a igualdade e com a emancipação popular.
Falo especificamente de um discurso muito comum nas Arcadas caracterizado pela idéia de que o Direito pode e deve passar a ser ferramenta essencial do ME para ele se renovar perante os a atualidade e que, sendo o XI o Centro Acadêmico da Facudade de Direito, nada mais natural que esse lidere o movimento nas suas ações que encontrariam ou tentariam encontrar espaço por e pelas normas. O Direito, em todos os sentidos que cabe a expressão, transformaria a realidade e nele se daria a luta política. As leis e os procedimentos adotariam roupagem progressista e a norma seria a forma da emancipação.
Aos que pensam assim faço um desafio: que me mostrem uma situação histórica onde a mudança legal, jurídica, foi mola propulsora do movimento e da luta política e social. Provavelmente por ignorância eu vejo pouquíssimos senão nenhum exemplo. Não é possível criar regra fatalista na História sem cair em simplismos, mas é possível identificarmos tendências. O Direito não é e nunca foi meio. Ele não é e nunca deve ser fim. Ele é conquista - e só é conquista verdadeira se existem mecanismos para assim se tornar eficaz. O Direito não transforma, ele é transformado. O Direito não é sujeito transformador da sociedade, muito menos seus operadores se eles não souberem responder às demandas que a realidade traz e não se colocarem como parte dela.
Lutar pelo Direito não é fazer política "nos termos corretos" pois a política não se dá nos termos do Direito quando tratamos de vontades materiais e concretas por conquistas reais, substantivas e substanciais. O que deve ser feito pelos estudantes em sua maneira de protestar e contestar um "Estado de Direito" que muitas vezes se apresenta opressor e aliado à explorações capitalistas não está no Direito. Ele não vai dizer para que rumo temos de seguir e não é nem deve ser pauta política do movimento se tivermos compromisso com a realidade. A liberdade e a igualdade não devem se apresentar numa lógica e roupagem formal e(ou) legalista, mas de uma maneira real - até porquê só são reais se aparecem dessa maneira.
Esse jeito de pensar coloca o papel do XI como assistente jurídico externo ao ME da própria Universidade que a FD faz parte de uma cultura de distanciamento da práxis política e de ruptura com agentes transformadores e de luta que atuam na sociedade tais como movimentos sociais dos mais diversos. Esse jeito de pensar introjeta nas cabeças dos franciscanos que não fazemos parte do conflito e da construção uspiana. Subestimamos a capacidade intelectual dos outros estudantes da USP de maneira ultrajante achando que eles não sabem o que fazem e o que devem fazer.
E ainda dizem as cabecinhas protojurídicas que devemos estar um passo a frente do ME - sintomático. Para tais devemos mesmo estar um passo a frente, de preferência sem olhar pra trás para ver se ele caiu. Triste. Devemos estar do lado, em volta, na luta, na briga, no debate - nunca esnobemente na frente.
Falar que a política estudantil da Cidade Universitária é anacrônica e retrógada é recorrente nesses hermeneutas peculiares, mas não consideram como tal prática "caduca" conseguiu conquistar diversos pontos de extensa pauta numa atitude que foi feita à sua revelia e eles tiveram que tolerar pela vitória - a Ocupação da Reitoria de Abril/Maio/Junho de 2007. Paradoxal declarar que uma coisa hoje não dá mais certo se ela deu a menos de um ano atrás.
É a velha discussão do retorno do "Onze Grande". É o desejo de voltar a ser "o" CA, de estar por cima da carniça. Do XI voltar a brilhar. O XI não tem que e nem vai brilhar por estudarmos Direito. Seremos burros ao ponto de perceber que o passo a ser dado na política estudantil da São Francisco não é nos enveredar pelo caminho inútil e obtuso do Direito e sim engajar-se na construção de uma USP mais democrática, inclusiva e que responda às demandas populares?
domingo, março 30, 2008

Não estou lá (I'm not there), o filme de Todd Haynes que fala sobre Bob Dylan, é a bola da vez. Fui vê-lo com expectativa na parte musical e com uma expectativa bastante grande pra tentar achar ali um Bob Dylan que eu não entendo, que faz no começo de carreira "fingerpoints songs"("canções de dedos em riste", de protesto) e depois as nega, se distancia do espaço músico-político diferentemente de Joan Baez, que continuou ativista até os dias de hoje e que continuou portanto acreditanto no potencial político de uma música.
"This machine kill facists" diz o gravado no violão da anacrônica faceta de Dylan Woody Guthrie, menininho que vive fora de seu tempo e tem o nome copiado de um cantor de Blues que apodrece no hospital. É esse o argumento do filme: a máquina que mata fascistas já não passa de um violão velho, a inscrição nada mais do que uma velha marca de caneta que prenuncia uma ilusão.
A relação íntima e latente em Dylan (no filme nas suas diversas facetas) entre músicas e luta política se divide em dois momentos - o primeiro, atrelado à figura de Joan Baez, mostra o Dylan do folk music simplório, humilde e engajado, o segundo o cantor incrédulo com a ligação possível entre música e luta. Numa fala muito interessante Jude Quinn, o Dylan-fantasma interpretado por Cate Blanchett, diz:
You know, I didn't come out of some cereal box. There's no one out there who's gonna be converted by a song.(...) The songs are acts of personal conscience (...) doesn't do a damn thing except disassociate you and your audience of all the evils of the world. I refuse to be disassociate from then.Que fala genial. Ela traz uma questão seminal a respeito da arte e da política - a visão de músicas como atos de uma consciência pessoal e que elas de nada adiantam no campo político pois dissociam o cantor e a platéia dos males do mundo é valiosa para entendermos a postura desse Dylan quando ele rompe com a tradição folk e para de compor "fingerpoints songs".
Para que compor tais músicas, qual a sua função e utilidade? De fato são símbolos, mas até que ponto não passam de jeitos de nos proclamarmos revolucionários e anti-sistêmicos e estarmos, ao mesmo tempo, deixando de lado a vivência política concreta. As músicas são jeitos bonitos de vivermos a política, líricos e extremamente cults, mas seriam momentos reais de mobilização? Essa noção de dissociação ilusória dos males do mundo é emblemática e até certo ponto representa o quadro geral da geração que Dylan fez parte - essa geração que fez o barulho maior que o Universo, mas que deixou na mão da minha geração um mundo bem diferente do pregado. É uma geração cansada. Dá a impressão de que mergulharam tão cegamente num lago muito frio e que, por sentirem muito frio mesmo, saíram poucos segundos depois. Agora não querem deixar que os filhos coloquem o pé na água gelada. O único problema é que é nesse lago que estão os peixes mais importantes a serem pescados.
Muito interessante quando o filme propõe a visão de que a visão do artista sobre sua própria obra nem sempre é compreendida e o que é esperado dele muitas vezes é algo que seu gênio não quer responder.
Acho patético artistas quererem ser aquela coisa despirocada, furacões nonsense pós-modernos, mas como recusar o fato de que a produção artística transcende sim a política formal e se embrenha em linhas mais profundas do nosso ser, ser que é político e que está situado na história, mas ser que também tem reações, emoções, sentimentos complexos e que não é e nunca será uma maquininha ou uma coisa - seja uma maquininha de trabalhar, seja de militar; seja uma coisa de trocar, ter ou venerar.
É um filme que eu fui pensando que ia tomar mil vezes Blowin' in the wind na cabeça e saí com a mesma doendo por outros motivos - porque meu ídolo parou de acreditar nas coisas que eu acredito hoje? Ele não está mais lá.
domingo, março 23, 2008
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Cada dia mais introjeto em minha mente a idéia de que ter um blog autônomo, de "se convidar a si próprio" para escrever numa página da web, é indissociável de uma energia pretensiosa, vulgar e em seu cerne, metida. Todos nós o somos.
Somo pretensiosos pois acreditamos tanto no nosso potencial de escrita que não temos medo de veicular nossos textos por todos os computadores lusófonos do mundo. Somos metidos pois cremos que o que escrevemos é válido para ser lido por todos os usuários dessas máquinas. Somos vulgares pois colocamos nosso pensamento estritamente pessoal no rio de informações bíticas que corre no espaço virtual público, sem formalidades.
Discordo a priori que isso seja um grande avanço. Não o é. Não adianta gritarmos ao quatro cantos do mundo se já houver um amigo no quarto canto que tem um vizinho que grita a mesma coisa. De nada serve expressarmos livremente e democraticamente nossas opiniões se essas são efetivamente vulgares, vulgatas, menores, pessoais.
Temos a ilusão, e já abordei isso quando falei do Xingu virtual, de que todos falamos a mesma língua, afinal todos nós somos índios da tribo dos blogueiros - mentira. Um índio ianomami é igual a um nativo aborígene? Um bororo é igual a um munduruku? Evidentemente não. As linguagens são completamente diferentes e por aí vai.
Tendo em vista essa ilusão e nossa pretensão e vulgaridade coloco a minha questão chave. Somos todos piruá. Ideólogos, escritores, jornalistas, cronistas etc - piruás disso. Sabem o que é piruá? É o milho que mesmo depois de passar pela panela não virou pipoca. Tinha tudo pra ser pipoca, mas não foi.
Blá-blá-blá. Mas isso é evidente, imbecil!
É eu sei que é. Só disse isso tudo pra falar uma coisa: "Baixemos a crista. Todos. Eu inclusive, e, talvez, principalmente". Não são só reflexões palavradeordenianas, são reflexões necessárias. Sem elas não conseguiria andar para frente.
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
1. Corra que a polícia vem aí
E como eu já disse os policiais da gramática, seres mais chatos do mundo, rondam o palavras e reclamam nas minhas costas que minha escrita é repleta de erros. É mesmo. Eu não faço revisão, não tenho saco, e também não tenho saco de ficar me policiando quando sei que isso não passa de frescura. Se alguém não entendesse o que eu quero dizer aqui por que tava errado é uma coisa - outra muito diferente é ficar de frescurite aguda tentando achar defeitinho no que os outros escrevem. Já estou um pouco farto dessa história. Sei que meus protestos são inúteis, mas não consigo calar-me.
2. Só Obama?
Muito interessante um candidato símbolo de resistência e vitória de um povo oprimido ganhar ou ter chances de ganhar as eleições estadunidenses. E não seria mais legal se o candidato(a) fosse símbolo de dois segmentos oprimidos?
3. Em breve
Notícias do Largo de São Francisco e o começo do ano político. Juro que sai algo do gênero.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
segunda-feira, janeiro 21, 2008
1. Lembrete
O texto n°32, só para lembrar, é "bastante" antigo se comparado à todos os outros. Resolvi lembrar isso mais por achar que isso teria que ficar bem claro tal como o porquê de postá-lo. É um momento que o pensamento estava em sua fase de desenvolvimento mais inicial.
2. Novos rumos?
Chegou em mim a notícia que o colégio contratou um renomado arquiteto italiano para cuidar de sua programação visual-arquitetônica-espacial, depois dos seguidos golpes de picareta desferidos por engenheiros bem-intencionados contra a obra de Tibau.
3. De volta ao Largo em breve
E daqui a alguns dias voltarei às aulas com novo ânimo e com novos calouros. E com novíssimos assuntos.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Antiguidades I
A Ruína do CSC
Eu e o Santa Cruz
Há 10 anos eu estudo no colégio que todos estamos. Desde a primeira série do Ensino Fundamental 1 o Santa Cruz é a minha casa, minha rotina. É engraçado quando se olha para trás e tudo o que já se fez se passa no mesmo cenário, absolutamente tudo – os primeiros amigos, os melhores amigos, as maiores emoções, as maiores tristezas, as mais profundas angústias e as mais incríveis alegrias – tudo no mesmo palco, o Colégio Santa Cruz.
Acho que é por isso que, similarmente com diversas pessoas, o Santa não é só um colégio, aliás, é um colégio que não é só para estudar. Nosso colégio é e sempre foi um local de discussão e de formação em todos os sentidos de uma elite, sim elite, pensante e preocupada com o nosso país, o Brasil. Aqui o desafio é, como informa o Plano Diretor de 2005, formar um ser humano integralmente. E o que seria um ser humano formado integralmente? Alguém com Inteligência, tanto emocional quanto racional? Ética? Lealdade? Caráter? Alguém religioso? Espiritual? Feliz? Ou talvez tudo isso junto? De acordo com o que está no que podemos chamar de bíblia santa-cruzense, o Plano Diretor, um homem integralmente formado é aquele que é educado com um conceito generalizador e um ideal de humanidade.
Seguindo mais adiante no texto que expõe o ideário da escola, na página 7 do PD 2005, o autor prossegue: “A formação humanista ainda hoje pressupõe o homem integral: a educação deve-se dirigir ao conhecimento, á conduta ética e à atitude interior. Nenhuma dessas dimensões nasce ao acaso: são produtos de uma orientação coerente por parte do educador e de uma disciplina consciente por parte do educando”.Mais adiante ainda diz que essa estrutura pedagógica, rotulada como humanismo, vem se ajustando desde a fundação do colégio há 54 anos nos moldes das mudanças sociais e temporais que essas décadas proporcionam.
Mas aonde quero chegar citando o PD e a minha história no Colégio Santa Cruz? Agora sou um aluno que começa a acabar o curso completo do colégio. Já passei por todas as etapas e já me foi dito, principalmente no ano do aniversário de 50 anos do Santa, que a filosofia do Pde. Charbonneau e do Pde. Corbeil, a filosofia chamada humanista, continuava, se perpetuava. A criação de um espaço de desenvolvimento das todas as potencialidades positivas humanas, como é dito no início do PD era certa, estava ali, nos gramados, nas salas de aula e no mundo que é o Colégio.
O(s) Problema(s)
O problema, e é aí que eu quero chegar, é que coisas vem acontecendo que não são propriamente corretas e interessantes a esse cenário, a esse espaço de idéias e a esse espaço físico, arquitetônico. Uma série de fatores me faz tirar tal conclusão, e digo com a propriedade de quem já viu o Santa Cruz dos campinhos de terra, sem o CEI, com a antiga biblioteca e sem o teatro. O que digo não pode ser encarado como uma análise pedagógica tanto do curso como do colégio em si, até porque eu não tenho diploma nem cacife para bancar tal análise, nem mesmo as pessoas a quem critico devem achar que duvido da capacidade ou do jeito certamente superior com que lidam e lideram a instituição. Analisarei fatos recentes, pressões recentes, atitudes, e tirarei algumas conclusões sobre tais itens, sem encarar os pedagogicamente, até por que penso que não é de maneira alguma no corpo docente que reside o problema.
1º.
Além da questão da interpretação do algo físico me vem a simples questão do “para que serve?” Que realmente faz sentido. Ninguém até agora conseguiu explicar-me os motivos de instalação do toldo – me deram algumas hipóteses – como o som, a chuva entre outros. Mas digo, existem outras soluções além daquilo, com absoluta certeza, pois os toldos não passam de uma espécie de remendo, uma intervenção no mínimo barulhenta e espalhafatosa – no mínimo. Por que o colégio não contrata um arquiteto para pensar nesses espaços? E se contrata – sem questionar a capacidade – mas por que não um grande arquiteto, ideologicamente compatível com a escola e de peso tanto no meio dos profissionais quanto fora. É de não se entender, de se lamentar. O Colégio Santa Cruz, renomado e dito um dos melhores do país, ter um espaço tão formidável sendo depravado com obras no estilo “serve e é barato”. “A forma segue a função” alguns também dizem – se é assim, qual é a função dos toldos? Nenhum aluno, ou até mesmo professor, sabe.
Já citei que este é um exemplo de degradação, ou propriamente decadência, do espaço do colégio. O que vem por trás disso?
O próximo tema é bem recente: a proibição sumária do truco. Antes de expor minhas idéias gostaria de mencionar que nunca participei de nenhum campeonato de recreio de truco e nunca fui um jogador assíduo. Eu não sei quais foram as razões para tal proibição de verdade, mas o problema não está aí.
O colégio sempre teve a política de discutir com os alunos os problemas, como numa relação familiar saudável. Nas aulas de OE discutimos por diversas vezes drogas, sexo e escolha profissional, além de diversos problemas aluno-escola, e creio que demos resposta à maioria dos problemas. E então, praticamente do nada, a escola proíbe uma atividade lícita, recreativa e inofensiva. O que ocorreu? Foi nos dito que a situação tenha perdido o controle, que a direção achou melhor cortar o mal pela raiz pois este jogo – o baralho – é uma atividade de azar. Mas então pensei eu: onde estão as antigas discussões? Qual é o papel do aluno nessa situação (que é nova, pois estamos acostumados a debater as nossas idéias)? Devemos parar e obedecer cegamente sem questionar o por que? Não falo de liberdade e sim de coesão. Se a escola escolhe proibir jogos de azar devia também suspender atividades como o bingo e a rifa em suas festas beneficentes, não deveria?
A atitude que a escola tomou, pela primeira vez, foi a de um pai autoritário, totalitário e, sobretudo, dominador. Se faz tanto sentido retirar o baralho da lista de atividades permitidas acho que todos, pelo menos uma parcela, entenderia, compreenderia que a atitude é necessária. E então, mais uma vez, me pergunto: de onde saiu essa mudança de conduta? Quem ou o que efetivamente causou a proibição do baralho?
Prosseguindo em meus temas agora abordarei algo muito maior do que um fato interno como a tal proibição de jogos de baralho. Algo que vem de certa maneira se aproximando. A nova unidade do Colégio Santa Cruz já estava para sair faz alguns anos e nesses últimos meses vimos no jornal uma matéria estampada com o projeto arquitetônico do local, assinado pelo renomado escritório UNA. A unidade será bilíngüe as aulas em período integral – estilo americano ou britânico, dependendo da visão.
Vemos então que claramente a tal escola seguirá os moldes de outros colégios bilíngües elitistas que vemos por aí. Colégios estes que primam a sua qualidade e capacitam os jovens dessa elite para esse novo mundo globalizado. Lá pode-se aprender tudo que é necessário para fazer a graduação universitária ou a carreira fora do nosso país, ganhando novas fronteiras. Enfim, aprende-se a lidar com o capitalismo financeiro globalizado, despontar nele.
Mas aí vemos a contradição, mais uma vez. Como desenvolver uma elite extremamente ligada a uma cultura estrangeira e individualmente capitalista que fosse ao mesmo tempo voltada também ao nosso país? Como pensar como um grande empresário multinacional e individualista e simultaneamente como um membro de uma elite consciente e, sobretudo, próxima aos problemas do próprio país? É impossível. As idéias do “novo” Santa Cruz não se encaixam com as do “antigo”. É tudo completamente diferente, contrastante: uma elite extremamente preparada para a prática do capitalismo financeiro de maneira global (ou até mesmo essencialmente primeiro-mundista) e outra, teoricamente desenvolvida para além de ser elite também pensar sobre em que as suas ações podem implicar, fundamentalmente também considerando o resto da população de seu país – que, sinto dizer, é muito necessitada.
Esse confronto de idéias de duas elites resulta numa impossibilidade desse novo Santa Cruz existir sem a modificação do antigo. Porque a nova unidade será “Santa Cruz” se tem idéias tão diferentes das da antiga unidade? A Congregação, órgão dono de ambos as instituições (ou seria uma só) poderia dar outro nome a esse novo colégio, pensado de maneira e em situação tão diferente – como existem outros colégios da própria que levam, junto a uma estrutura pedagógica diferente, um nome diferente também.
O que ocorre neste caso é que “Santa Cruz” não é mais um simples nome. “Santa Cruz” agora é uma marca, uma marca a ser vendida. A nova unidade leva o nome do antigo colégio fundado por Charbonneau pois esse agora é um ícone das elites paulistanas e um objeto de desejo.
Planejada exatamente para um setor da população – essa mega-elite que deseja exportar suas mentes em troca de primeiro mundo – a nova unidade tem um excelente planejamento, tanto de marketing como de todos os fatores para desenvolver um negócio, uma empresa, com segurança e rentabilidade. Projeto moderninho, estrutura bilíngüe e integral – copiando estruturas estrangeiras, nome. Todas essas coisas fazem dessa nova unidade um sucesso certo. O colégio terá a fusão de uma estrutura intelectual (a da antiga unidade) com uma mais “preparada” para a vida. Sucesso profissional certo para o aluno – preenchimento certo de vaga para a escola, que cobrará o que quiser, pois que não quer que o filho desponte nesse competitivo mundo?
Tudo isso me incomoda muito. A capitalização, sim, capitalização do nome do Colégio Santa Cruz certamente não seria muito apreciada pelos seus fundadores. Essa instituição não visa lucro, a princípio, mas então o que ela visa? De onde veio tudo isso? Perguntas como essas se multiplicam de várias maneiras: para aonde vai o lucro da nova unidade? Quem teve a idéia? Por que isso agora? O que acontecerá com a antiga unidade? Tudo isso e muito mais – questões essas que ficarão em minha mente. Aonde o Colégio Santa Cruz vai parar?
Os pais certamente têm todo o direito de tomar a dianteira na educação dos filhos, mas acho que daí para fazer o seu próprio colégio distorcendo toda uma estrutura planejada previamente é de certa forma uma atitude extremamente negativa. Quem são esses pais e quais são seus objetivos quanto ao colégio?
Busco respostas ou ao menos alguém para continuar pensando comigo. Quem sairá do colégio pode pensar “mas eu já estou saindo mesmo...” mas então penso: “em que tipo de escola você quer que seu filho estude?”.
terça-feira, janeiro 08, 2008
Anexo-Balanço de Palavras de Ordem
Não o blog, mas sim o velho texto sobre o Santa Cruz
Desta maneira creio ser importante colocar uma série de itens aqui sobre como está correndo o pensamento nesse sentido para, assim, dar satisfações a esse respeito e esclarecer novos leitores. Os pontos importantes são, então, a percepção da coletividade de pensamento semelhante, o declarar e o engajar característicos de uma tomada de posição política clara e o encaminhamento de um futuro sempre crescente e a criação de novos campos de análise. Adiante relevarei um por um para maior detalhismo, mesmo que com objetividade.
I.
A questão é que ao longo de conversas e debates obtive a percepção que a indignação em relação à controvérsia constante discurso-ato do Colégio que tive crescentemente desde 2006 não era de maneira nenhuma só minha ou de meus colaboradores no PdO original. Conversei com diversos pares, mais velhos e mais novos (mesmos que circunscritos na mesma geração), e a tentativa de diálogo com a instituição reincide já a algum tempo. É freqüente o envio de cartas que dizem respeito à insatisfação curricular ou de tratamento assim como outras, mais incisivas, que demonstram a insuficiência da prática progressista ou de vanguarda em relação ao discurso, o qual também é alvo de críticas. O aluno crítico, apesar de solitário em seus pensamentos, não é solitário na medida que faz parte de um coletivo velado que ele não sabe que participa.
Não acho que seja uma questão de raridade, isso seria muita arrogância. Resisto um pouco no idealismo de que uma grande parte dos alunos concluintes do Ensino Médio saem com uma cabeça razoável e aberta, mas a questão é que essa abertura é pouco aproveitada. A criticidade é atomizada pela instituição e a discussão, quando dada no foro oficial, é sempre constrangedora. É um completo exagero exigir um direito de "auto-organização" revolucionária do corpo discente também, claro, por duas razões - a primeira, óbvia, é a não-opressão tida por esse grupo, o que retira motivos para tal afirmação; a segunda, tão óbvia quanto a primeira, é a preservada liberdade de associação e de reunião. Assumindo que esse direito é consumado não faz sentido se exigir o outro. Passa longe dessa questão. O ponto é que o colégio se furta sempre de discutir a própria instituição com seus alunos, cada vez mais extendendo à eles um currículo, um tratamento, um método, um aprendizado, uma vivência, um caráter, uma posição.
II.
E aqui coloco outro ponto importante que complementa o citado acima. Essa posição é determinada - ela não varia. O antidialoguismo pedagógico que estrutura as vigas-mestras da instituição é um procedimento que contribui com o processo contínuo de aparelhamento e atrelamento de posições político-sociais dessa pela elite burguesa paulistana atrelada aos grandes bancos, empresas e meios de comunicação. Não é um complô, claro, mas sim um desenvolvimento dado em paralelo, simultâneo e estruturalmente ligado, construído.
Não discutir as demandas críticas à qualquer respeito e fazer questão de centralizar e mistificar as decisões enriquece o símbolo intocável da direção ao mesmo tempo que fortalece um modelo de currículo e de visão educacional rebocada pela força do vestibular e das tensões de classe presentíssimas em São Paulo e no Brasil. Discordo que qualquer crítica vá no sentido contrário, fortalecendo um projeto democrático em amplo sentido e crescentemente popular de país, mas a feita por este blog anda rumo a essa meta e a de muitos alunos também.
E é por isso que declaro que a continuação da observação do colégio construiu a minha posição política ainda em construção abrindo espaço para a percepção de um outro projeto de Brasil e de educação construída junto. Não compactuarei aqui com a privatização da educação em qualquer sentido e a colocação dessa ao interesse oposto ao popular e isso é resultado daquelas reflexões.
Porquê não falar? Porquê não discutir a escola na escola? Porquê o não questionar o próprio papel do jovem rico? Porquê não propôr um ensino cada vez mais dialogicamente crítico à uma sociedade cada vez mais excludente? Não bastam professores gritarem sozinhos, só os das ciências humanas enquanto o currículo vestibulárico cai sobre suas cabeças - a arte, a ciência natural, a arquitetura e os espaços, o lidar com as atualidades e a gerência interna de políticas do próprio colégio contribuem para tal construção tanto quanto alguns berreiros histórico-filosófico-geográficos.
III.
O futuro, por sua vez, vai se encaminhando.
Já declarei a alguns amigos próximos a vontade de constituir discussões crescentemente acadêmicas sobre a história e o processo de crescimento da instituição Santa Cruz.
Outro desejo é a construção de grupos de discussão a respeito da escola e do papel do aluno naquela escola especificamente, e isso vai sendo encaminhado.
O negócio é tocar tudo sem pressa e com um compromisso de importância renovada. Outros desafios sem ser o Santa Cruz se colocam em nossas vidas e muitas vezes se mostram mais importantes. Inicio um período novo agora e creio que as atenções nesse sentido serão inevitavelmente reduzidas - mas não esquecidas e sempre desenvolvidas.
Assim, mesmo reduzindo as atividades, criam-se frutíferos novos campos de análise, conseguidos com o contato cada vez mais diferenciado deste ex-aluno com a instituição e com a comunidade. A análise da obra teórica de Charbonneau e o contato pessoal-institucional é muito enriquecedor e traz boas conversas e pontos de reflexão.
Basicamente é isso. Espero ter colocado tudo em dia. Dúvidas serão respondidas prontamente.
domingo, janeiro 06, 2008
1. Aniversário
Primeiro de tudo: obrigado. O Palavras comemora hoje um ano de existência graças a vocês. Um ano é bastante coisa - fico pensando como eu cheguei nisso. Fico pensando se é um mérito ou se eu devia pensar se é um mérito.
2. Idéias, assuntos: retomada
Bom, de qualquer maneira é hora de retomar alguns assuntos e todo o funcionamento regular do Palavras pós-férias. Ainda não possuo nenhuma coisa que seja nova e interessante mas prometo buscar e postar em breve.
sexta-feira, dezembro 21, 2007
Neste "texto" número 30 tentarei algo diferente, vamos ver no que dá.

Rand, Roark e a defesa do indivíduo I
Howard Roark (Gary Cooper) é um arquiteto idealista e visionário. Sua estética e seu método divergem dos tradicionais ensinados pelas academias de arquitetura e seus colegas caçoam dele. Roark não quer saber de frufus, de estilos copiados, de neobarroquismos, entre outros. É um homem com idéias próprias, novas. Com um pensamento certamente individualista é um profissional jovem e brilhante. Depois de diversas desventuras que não necessitam ser narradas um arquiteto colega de Roark o vê em necessidade e oferece um acordo. Peter Keating é um parasita, alguém que nunca consegue ter idéias próprias e copia modelos. O acordo consistia em Roark desenhar o Condomínio Cortland para Keating, que não conseguia ter idéias e, em troca, Keating faria o que seu colega quisesse.
Howard Roark aceita o acordo e desenha Cortland para Keating sem assinar o projeto e sem receber um tostão - a única coisa que ele exige é que o condomínio seja exatamente como ele projetou. Exatamente.
Depois de uma longa viagem de barco Roark vai observar seu projeto pronto e vê que, apesar do acordo, o desenho havia sido mudado; Keating havia cedido ao achaque de seu chefe e havia transformado o projeto em uma gororoba neoclássica. Louco com a mudança traiçoeira em seu projeto Roark dinamita Cortland com a ajuda de Dominique Francon, sua consorte. Ele confessa e vai a julgamento. O vídeo que segue é o julgamento de Roark, ele começa com uma fala breve do promotor e, após ela, o arquiteto Roark realiza sua defesa.
O discurso é a defesa do "Objetivismo", filosofia criada por Ayn Rand, a autora do livro. Devo confessar que me intriga bastante, essa defesa do indivíduo perante o todo, perante o coletivo. Ainda estou refletindo o que acho ou quais colocações são adequadas, mas de qualquer maneira peço a opinião de todos. Só digo que admito que é ridículo o momento que Roark fala sobre como seu país é o máximo, é o reino do respeito a si mesmo e às idéias do indivíduo. É muito duvidável conferir tantas qualidades a um país que foi construído sobre um solo cheio de sangue indígena. Os Estados Unidos são um país onde o homem é livre para buscar sua própria felicidade? Em que aspectos? Quais homens? É a defesa suja do liberalismo; o homem é livre para prosperar, não para viver na fome - contudo basta ser livre e querer para se prosperar? Valem esses e muitos outros questionamentos.
Ok, ok, eu explico o porquê tudo isso. Eu vi o filme recentemente e lembrei desse discurso. Lembrei que seria uma coisa muito legal pra se colocar no Palavras. Sempre achei que valia a pena essa discussão. A opinião de vocês é muito importante agora.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
A. Policiais da gramática 2
Já falei tudo o que devia sobre eles, mas não consigo parar de pensar o quão repugnante é tomar essa função para si. Deslegitimar um autor segundo tais atitudes me parece tão sujo. E por isso convido todos os policiais para comentar, em vez de meus erros gramaticais, sintáticos, sinfléxicos, ortofiláticos ou de ressonância, os meus erros de pensamento. Acho que assim cresceremos um pouco.
B. Boas festas
Um bom final de ano para todos os leitores, se é que esse plural existe efetivamente.
quarta-feira, dezembro 12, 2007
Fiquei satisfeito com o post anterior, o texto de número 29, e comprometo-me aqui em buscar mais livros do padre para levá-los à conhecimento das gerações mais novas. Embrenharei-me em sebos para garimpar obras de Charbonneau; acho que dessa maneira conseguiremos, pouco a pouco, ir tirando a grossa casca de poeira que repousa por cima da pedagogia santa-cruzense.

B. Banksy
Descobri recentemente um artista realmente instigante. Banksy é um artista plástico inglês extremamente crítico e de uma estética, que, na minha opinião, é uma das mais legais que eu já vi. A imagem acima é dele, de uma de suas intervenções urbanas. Legal ver o site.
C. Polícia da gramática
Não podia deixar de manifestar algo a respeito dos "policiais da gramática" que estão rondando o Palavras. Meus escritos e também escritos de comentaristas são escrutinizados em exame cada dia mais atento e afiado. Se eu acho importante escrever certo? Claro. Se eu começasse a escrever em "internetês" aqui minha credibilidade ia para o brejo, certamente. Entretanto não posso deixar de falar que quando esses exames chegam à um nível quase-policial a coisa começa a ficar chata. Nunca disse que alguém não era bem vindo por aqui, nem tenho essa moral toda, nem adianta. A questão é que a crítica gramatical sempre é a mais fácil e, descobrindo um pouco o véu da modéstia, nunca vi um erro por aqui que comprometesse o texto, sua compreensão ou tese. Meu maior desejo é que os policiais da gramática larguem mão dessa chatice.
sexta-feira, dezembro 07, 2007

Considerações sobre uma obra de Paul-Eugène Charbonneau
Padre Paul-Eugène Charbonneau in "Marxismo e socialismo real" (Loyola, São Paulo, 1984)
Espantei-me quando encontrei esse livro do ilustre Padre Charbonneau (1925-1987). O autor foi o ideólogo do Colégio Santa Cruz, onde estudei, lecionando lá filosofia durante 20 anos. Sua contribuição à pedagogia e ao entendimento da questão do jovem é significativa e suas posturas progressistas e seu carisma o destacavam. De personalidade forte o padre ficou famoso no Brasil pelo seu envolvimento com a educação, principalmente em São Paulo. Apesar de todo o estardalhaço feito ao redor de sua figura achei que ele tinha se furtado de escrever sobre assunto tão controverso, principalmente no meio católico. Suas posturas libertárias iriam até qual ponto? De qualquer maneira é um estudo curioso.
O objetivo de Charbonneau é dividir sua crítica aguda em dois momentos. No primeiro momento ele coloca os questionamentos à teoria marxista, à obra elaborada por Marx e Engels. Dessa maneira busca um primeiro momento de síntese no qual coloca as lacunas que preencherá depois com críticas. Na segunda parte o padre parte para uma análise do socialismo real, ou seja, das experiências socialistas do século XX que em sua realização buscavam reafirmar a teoria marxista. Entre as duas o autor tenta estabelecer um nexo causal bastante peculiar que se mostra o dogma principal do livro.
Na parte na qual observa a teoria Charbonneau reduz o pensamento de Karl Marx à contradição. Para o autor essa é a palavra que melhor representa as idéias bem-intencionadas, contudo ingênuas e paradoxais do pensador alemão do século XIX. Depois da síntese feita com cuidado e argúcia o objetivo é tentar reaver a crítica existencialista em relação ao marxismo principalmente ao seu aspecto materialista. Charbonneau lembra Sartre, Merleau-Ponty e muitos outros numa miscelânea que tenta provar a incompatibilidade de conceitos como marxismo e ciência, materialismo e dialética, materialismo e liberdade e dialética materialista e história. O ponto principal, fazendo um resumo pobre, é apontar o determinismo característico do materialismo e o ilogismo em acoplá-lo com a dialética, que, no sentido hegeliano, pressupõe o Espírito numa concepção idealista. Para o padre a dialética não existe se prescindir de um plano das idéias e por isso associá-la da maneira marxista ao materialismo seria incutir na teoria um "defeito congênito". Existe nesse ponto a ênfase constante na questão da liberdade tão abordada no pensamento sartriano e seu conflito com noções marxistas. Para Sartre, cita Charbonneau, a liberdade no universo marxista vem embrulhada no invólucro conceitual do "clérigo soviético que não mais acredita no livre-arbítrio". Outro ponto que levante o padre é a moral que, no pensamento marxista "centrado no dogma revolucionário" detém ao mesmo tempo uma moral maquiavélica, móvel, porém rígida: móvel pois "tudo vale para se chegar à revolução", mas rígida pois esse dogma não pode ser questionado. Questiona a questão dos fins justificarem os meios e faz críticas à um aspecto religioso do marxismo que se erige como igreja no socialismo real.
Na segunda parte o autor se concentra em descrever como a práxis socialista, em sua opinião, fracassou completamente e negou a teoria em todos os sentidos. Para ele a contradição marxista de nascimento se desenrola numa ideologia e posteriormente numa concretude que inegavelmente nega todos os pressupostos soerguidos pela cabeça do "profeta onírico", apelido de Marx dado pelo padre. Charbonneau coloca esse nexo causal de inevitabilidade como questão central de seu argumento e aí reside seu principal dogma, palavra que o autor usa frequentemente para descrever o "contraditório universo do socialismo existente". Diversas vezes afirma que a teoria marxista só poderia "dar naquilo" que, por sua vez, "causa aquilo outro". É uma cadeia de nexos que se colocam sem muita justificativa nem explicação, somente com elenco de fatos e relatos de marxistas e socialistas desapontados.
É fato que a segunda parte é bem mais agressiva que a primeira. Segundo Charbonneau existe em relação à ideologia marxista uma "cegueira" no Ocidente da qual vários intelectuais são vítimas. Não percebem, segundo ele, como a teoria contraditória "só poderia cair" no mundo "concentracionário" e "contra-revolucionário" do socialismo real soviético, cubano, chinês, vietnamita, entre outros. A práxis se coloca como negação da teoria marxista que seria completamente utópica e irrealizável dentro de suas premissas. A negação das classes, o fortalecimento e posterior extinção do Estado e a liberdade plena, a ausência de alienação não acontecem no plano real, só na aparência, na vulgata marxista atual. Entre o marxismo e o socialismo real, apesar do autor acreditar que existe uma relação de filiação entre eles, nasce um fosso intransponível e negador. O Estado burocrático e policial socialista é, para Charbonneau, como se fosse um grande capitalista que concentra em si todas as alienações. A sociedade socialista, e ele toma como exemplo a soviética, não abre mão de diversos pressupostos que deveria por serem próprios do capitalismo liberal, contudo joga fora toda a pequena liberdade que tinha o homem antes do advento comunista. O homem é oprimido por todos os lados e sua individualidade, seu subjetivo, é esmagada completamente pelo coletivo burocrático.
O socialismo real não seria então um desvio do marxismo, mas sim sua essência. Não há desvios - para Charbonneau as formas adotadas foram as inevitáveis. A liberdade é rompida e a teoria marxista prevê um Estado impossível que nunca engendrará sua própria extinção. A sociedade cai num paradoxal "capitalismo de Estado". A ditadura pressupõe uma hipertrofia do Estado e da burocracia controladora de todos os aspectos da vida no melhor estilo totalitário e incorre num terror tanto cultural como físico e psicológica. É a contra-revolução sutil mas inexpugnável, "um universo concentracionário tão vasto que não podemos atingir seus limites. A utopia marxista se torna uma práxis que renega tudo que ela havia idealizado. É verdade que como vimos na primeira parte, o marxismo trazia já em si suas contradições dilacerantes (...) elas não eram nada em comparação com as contradições trágicas que o socialismo existente carrega consigo".
Crítica
O livro é muito interessante. Apesar da leitura da teoria marxista sair até certo ponto capenga principalmente no ponto que concerne sua análise de O Capital a compilação da crítica dos existencialistas é bastante sagaz.
Marxismo e socialismo real tem os seguintes dizeres em sua segunda capa "com aprovação eclesiástica" e isso é surpreendente dado os avanços de Charbonneau em admitir atrocidade da Igreja e seu caráter de "ópio do povo" em muitos casos. Em surpreendente ponto o autor defende avanços muito interessante como em: "O capitalismo foi condenado pelos abusos que causou e por haver produzido uma iníqua ordem social. Diante dos problemas que daí surgiram, as respostas marxistas ou socialistas foram rejeitadas. Em que princípios se há de se basear então a ordem social cristã? É o que a Teologia da Libertação se esforça por definir contra ventos e marés. (...) Ela é, ao contrário, a mais pura expressão do Cristianismo que recusa incisivamente a Injustiça e a Opressão". Bastante interessante também é notar o tom que o padre adota quando disserta da relação entre marxismo e cristianismo admitindo pontos comuns e tolerando a colaboração até certo ponto.
Outro problema é que a análise se mostra contraditória a partir do momento que usa de diversas expressões em seu sentido marxista para legitimá-lo e para criticar o socialismo real. "Luta de classes", "alienação" e muitos outros, todos em seu sentido marxista, são usados para "revelar as contradições" mas são em si, em seu uso, contradições.
Não acho que devo continuar uma crítica extremamente alongada. O livro não é um lixo, como podem pensar alguns. Não é também uma obra-prima, todavia demonstra avanços e nuances progressistas muitas vezes obscurecidos por citações de autoridade nem sempre bem-vindas.
Charbonneau, pelo visto, não quer ser visto de maneira nenhuma como um comunista; ele é padre, dá aulas para a elite paulistana. Porém o padre não deixa de marcar posições interessantes. Sua postura crítica é de fato inteligente e sagaz, pena que é traída por um dogmatismo e uma falta de explicações recorrente. O determinismo que este tanto questiona junto com os existencialistas é ponto-chave em sua teoria.
Não quero escrever muito. Acontece que o post anterior, o texto 27, me impele a falar mais algumas coisas.

Nada mais natural
Apesar de tudo que disse sobre blogs, sobre o Xingu.net, devo admitir que eu reconheço profundamente o valor da blogosfera. Como diz Drummond em seu poema "Ontem"; "que por minha vez / escrevo, dissipo.". Temos essa necessidade. Acho natural. Acho bom. Legítimo. Autêntico. Sabemos mais de quem queremos saber, isso é um avanço. É bonito. Talvez genético. Essa necessidade de dissipar as coisas, de falar sozinho, de confidenciar pro vento. Não questiono nada disso. É algo que sinto. Mas é algo fundamentalmente fadado à esfera privada.
Não sei se estou admitindo a "limitação" que o Marcio bem assimilou em detrimento à pobreza que antes disse. Continuo achando pobreza no sentido de achar que a blogosfera é um meio de comunicação, é uma mídia revolucionária. Não acho, sou cético. Os blogs famosos são colunas de grandes meios de mídia, de grandes jornais, portais. Coluna não é blog, coluna não tem a essência do blog que é o poder se responder, é o falar individualizado, articulado. Podem achar que eu entro em contradição, mas não creio. Acredito que esse falar individualizado seria sim compatível com uma mídia revolucionária pois é justamente isso que a tornaria revolucionária. O problema que aponto não é esse.
O problema é que na essência esse nosso desejo de dissipar é mais forte que os outros? Talvez. É isso que coloco em dúvida. Se quando nos deparamos com um tantinho de poder, de atenção, não nos deixamos molengar - se quando recebemos um comentário-esmolinha não nos sobe a cabeça esse poderzinho, essa massagenzinha no nosso ego. Pensem nisso. Não, não quero comentários não. Só pensem.
terça-feira, dezembro 04, 2007
A. Enxurrada
Desde que minha mãe colocou o link do meu último post em seu blog recebi uma torrencial tempestade de visitas e pageviews nunca antes vista. A minha média de visitas por dia (pessoas novas que acessam) é de 10 pessoas, aproximadamente - hoje, até o presente momento, recebi 45 visitas novas, quase 100 pageviews. É impressionante.
B. Charbonneaunianas
Anuncio que achei em um sebo uma raridade. "Marxismo e Socialismo Real" do ilustre Padre Paul-Eugène Charbonneau estão me dando uma dimensão que eu nunca tive sobre o pensamento do mais renomado ideólogo do Colégio que estudei. De fato ele tinha uma cultura extensa, era um erudito. Quando acabar a leitura, que será em breve, eu publico algo aqui, acho que há interesse, pelo menos numa sinopse do livro.